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1856 Palavras
Vincent Melissa Mancini é uma visão em preto, envolta em elegância ameaçadora. Seus cabelos escuros caem em cascata sobre os ombros como uma sombra viva, e seus olhos castanho-âmbar cortam o ambiente com a precisão de lâminas afiadas. Mesmo com a cena caótica à sua volta — policiais vasculhando seu armazém como abutres em um campo de batalha — ela exala um olhar irreverente e gélido. Há uma confiança nela que é, ao mesmo tempo, irritante e magnética. Jovem — talvez nos vinte e poucos anos — e ainda assim não demonstra medo. Para Melissa, somos apenas mosquitos barulhentos que ela esmaga com um olhar, não autoridades capazes de detê-la. — Estamos apenas fazendo nosso trabalho — diz Maddox, seco. — Você está fazendo o trabalho de alguém — ela rebate, com um meio sorriso que não alcança os olhos. Leva alguns segundos, mas percebo a insinuação: ela acha que estamos sendo usados. Que estamos a serviço de outra família mafiosa. A farpa me incomoda mais do que deveria. Não sou santo, mas acredito na lei. Uso-a para proteger — não para ajudar criminosos. — Isso deve estar ficando tedioso até para você. A menos, é claro, que esteja me perseguindo — diz ela, com uma sobrancelha arqueada. Ela fez um comentário parecido alguns dias atrás, quando nos conhecemos em seu escritório. Ainda consigo lembrar da forma como jogou as palavras como quem arremessa uma moeda: despretensiosa, mas carregada de significado. Sorrio, apesar de mim mesmo. Há algo na maneira como ela me provoca que torna tudo perigosamente interessante. — Sem perseguição. Foi o seu comportamento que me trouxe aqui. Inclino-me levemente, devolvendo a provocação. — Ou talvez... seja você que quer me ver, Melissa. É um jogo e******o. Inapropriado. Mas viciante. Ela ri, e mesmo com o tom condescendente, há uma musicalidade. — Nem nesta vida, detetive. Nem na próxima. Afasto-me antes que a situação escale, e aceno para Declan, que me segue a alguns passos. Nos afastamos da cena, longe do alcance da voz dela. — O que acha? — pergunta ele, sem tirar os olhos do armazém. — A mesma cantiga de sempre. Não é o primeiro rodeio deles. Sabem esconder os rastros. Foram criados nesse jogo. Declan cerra os dentes. — Como eles fazem isso, Vince? Agitam o crime como uma bandeira debaixo do nosso nariz. E continuam impunes. Não é só tráfico, ou contrabando — é assassinato também. Eles são responsáveis. Eu sei disso no fundo. Meu pai não morreu à toa. Já ouvi isso inúmeras vezes, mas a dor na voz de Declan nunca enfraquece. O pai dele era um bom policial, talvez o melhor que conheci. O assassinato dele há três anos devastou o departamento — e destruiu algo dentro do Declan. Ele está convencido de que os Mancinis foram os culpados, e agora tenta derrubá-los com qualquer pretexto possível. Não posso culpá-lo. Mas a justiça precisa de provas, não só de raiva. — Eu acredito em você — digo, com firmeza. — Mas precisamos de mais do que instinto. Precisamos de algo que segure em tribunal. Os olhos de Declan ardem. — Provas? Vince, cada respiração desses bastardos é um crime. Meu pai sabia. Eles o mataram por isso. Levanto as mãos, tentando acalmar o clima. — Eu sei. E concordo. Mas se errarmos… eles vão escapar. E não vai haver segunda chance. Ele assente com a cabeça, mas seus ombros continuam tensos, os punhos cerrados ao lado do corpo. Sua obsessão com os Mancinis só cresce, e essa intensidade já afastou o último parceiro. Eu aguento. Mas às vezes me pergunto até onde ele está disposto a ir por vingança. Volto meu olhar para Melissa, que agora conversa com um dos carregadores como se nada estivesse acontecendo. Ela é um enigma que me desafia. Um labirinto de intenções, mistérios e beleza perigosa. E o pior? Estou ficando obcecado em entender o que há por trás daquela fachada. — É estranho como seus armazéns continuam atraindo a atenção da polícia — digo. Ela vira o rosto para mim com um sorriso carregado de veneno doce. — Talvez a polícia não tenha mais o que fazer além de assediar cidadãos cumpridores da lei. — Cumpridora da lei? — repito, arqueando uma sobrancelha. — Prove o contrário, detetive — ela diz, e seus olhos brilham com desafio. — Vou dar uma olhada — diz Declan, seguindo direto para dentro do armazém, sem esperar resposta. Ótimo. A atitude dela o deixa mais inflamado. Ela me observa por um segundo e então se afasta, casualmente. — Mantemos um inventário. Se algo sumir, vou cobrar da prefeitura. Viro o rosto para disfarçar o sorriso. Há algo perversamente fascinante na forma como ela lida com a autoridade. — Então, o que é isso? Está me protegendo? Com medo de que eu fuja? — De jeito nenhum. — Dou um passo mais próximo. — Você me parece uma mulher que encara os inimigos de frente. Ela sorri, um sorriso lento e perigoso. — É isso que somos, Meu valentão? Inimigos? Detesto quando você me chama assim. — Vince. Ou detetive Salvatore. — Mmm… Vince — diz ela, saboreando o nome com uma voz rouca, como se estivesse provando algo proibido. E malditamente bom. Isso faz meu p*u reagir de forma traiçoeira. A tensão entre nós é espessa como fumaça de pólvora. Estou consciente demais da proximidade dela. E isso é um problema. Porque essa mulher é perigosa. Não apenas para minha carreira… mas para minha razão. Olho nos olhos dela e vejo algo além do sarcasmo. Determinação. Força. Solidão. Ela é uma fortaleza. E o homem em mim quer invadi-la — não só fisicamente, mas emocionalmente, mentalmente. O policial em mim? Ele quer distância. Dou um passo atrás, tentando recuperar o controle. Um momento depois, Declan retorna, com o rosto vermelho de raiva. — Alarme falso. De novo. Seus olhos cravam-se em Melissa, cheios de um ódio contido. — Entendo — digo, mantendo a expressão neutra. — Bem, Srta. Mancini, parece que está livre. Por enquanto. Seu sorriso é puro gelo. — É Melissa. Talvez da próxima vez pense duas vezes antes de desperdiçar o tempo de todos. Cerro o maxilar. Há algo errado aqui. Uma sensação incômoda rasteja pelo meu estômago. A ligação anônima. O armazém limpo. As mesmas coincidências, repetidas vezes. Isso está cheirando a armadilha. E pior — talvez a armadilha não seja para os Mancinis. Talvez sejamos nós os caçados. Ou alguém da polícia está vazando informações para ela... e Melissa consegue esconder os crimes sob nossos narizes. Lanço um olhar para Declan, mas descarto a ideia imediatamente. Ele odeia os Mancinis com cada célula do corpo. Nunca trairia o distintivo. É possível que eu tenha subestimado Melissa Mancini. Ela é mais astuta do que parece — não que alguma vez tenha realmente fingido o contrário. Sempre um passo à frente. Sempre calma, fria, no controle. Meus olhos a seguem enquanto se afasta com aquela postura confiante, como se tivesse acabado de ganhar mais uma batalha. Ela é boa, tenho que admitir. Muito boa. Mas todos cometem erros. Eventualmente. E quando isso acontecer, estarei lá. Esperando. — Vamos, Declan. — Digo, caminhando em direção ao carro descaracterizado. Deslizo para o banco do motorista. Declan entra ao meu lado e bate a porta com tanta força que o carro treme. Antes mesmo que eu possa dar partida, ele soca o painel com um grunhido. — Droga, Vince! A gente não sai do lugar com esses desgraçados! Suspiro, mantendo o olhar no volante por um instante antes de encará-lo. — Calma, parceiro. Vamos pegá-los. Só... leva tempo. Falo como alguém que já viu muitos desses jogos. E jogou todos eles. No fim, quem sobrevive não é o mais forte — é o mais paciente. Declan solta uma risada amarga, sem humor. — Tempo? Já faz três anos desde que mataram meu pai. Quanto tempo mais a gente precisa? Dez? Vinte? Afasto o carro do armazém e seguimos de volta para a delegacia, a tensão pairando entre nós como uma nuvem espessa. Meus pensamentos estão divididos: metade neles, metade nela. Os Mancinis são uma névoa espessa que se dissipa toda vez que tentamos agarrá-los. Toda pista morre. Toda denúncia evapora. É como tentar segurar água com as mãos. E, no meio disso tudo, tem o Declan. Olho de soslaio para ele. O maxilar tenso. As mãos cerradas sobre as coxas. A raiva fervendo sob a pele. Essa obsessão está corroendo ele por dentro. Talvez ele não devesse estar nesse caso. Talvez já tenha passado do ponto em que se pode voltar. Mas como mantê-lo afastado, se ele já não tem mais nada além disso? — Olha, Declan — começo, escolhendo as palavras com cuidado —, eu sei que você está frustrado. Eu também estou. Mas não podemos deixar que eles nos comam vivos por dentro. — Eles estão rindo da gente, Vince — diz, encarando a estrada à frente como se quisesse atravessá-la com o olhar. — Toda vez que a gente aparece, é como se fôssemos a piada interna deles. Assinto, entendendo melhor do que gostaria. — Eu sei. Mas vamos pegá-los. Talvez não hoje, talvez não amanhã... mas vamos. Eles não são invencíveis. Declan finalmente solta o ar dos pulmões e seu corpo relaxa, mesmo que só um pouco. — Você realmente acredita nisso? — Sim — afirmo, com a voz firme. — Só precisamos manter o foco e jogar limpo. Um sorriso breve e irônico escapa de seus lábios. — Obrigado. Agradeço por me manter no eixo. — Claro. Faremos justiça para o seu pai. Eu prometo. Ele me encara por um segundo. — Preciso que você continue me apoiando nisso. — Estou com você, Declan. Até o fim. — As palavras saem naturalmente, mas no fundo... há um receio. Não quero ser o cara que o verá cair no abismo. O último parceiro dele achava que Declan já tinha ido longe demais. Intenso demais. Obcecado. Talvez estivesse certo. Talvez Declan precise de um desvio de rota — um hobby, terapia, ou... sei lá, sexo. Não posso oferecer nenhum dos três, mas posso oferecer uma cerveja. E silêncio. — Olha, estamos de folga agora. Que tal uma cerveja? Só pra esvaziar a cabeça. — Tá, tá. A gente pega esses filhos da p**a outro dia. Enquanto dirijo, meus pensamentos se voltam para Melissa. Imagino-a atrás das grades, algemada, sem aquele sorriso arrogante. Em outro universo, eu a convidaria para sair — apesar de ser mais nova, apesar de tudo. Há algo nela que mexe comigo. Inteligente. Sexy. Imprevisível. Ou talvez seja só o fato de que faz tempo demais que não fico com uma mulher que realmente me provoca. Mais tarde naquela noite, sentado à mesa da cozinha com uma garrafa pela metade, repasso mentalmente cada palavra que Melissa disse. Cada detalhe. Cada olhar. Cada silêncio. Tem algo errado. Algo que não estou vendo. Algo que ela esconde por trás daquele olhar frio e sorriso calculado. E não consigo afastar a sensação de que caí em um jogo que ela mesma criou. E que estou exatamente onde ela queria.
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