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1383 Palavras
Melissa Estou em um verdadeiro cabo de guerra comigo mesma, e odeio isso. Cada pensamento parece puxar para um lado diferente. Quero desesperadamente respostas sobre o desaparecimento de Lorenzo, e Vince se oferece para ajudar. Mas será que posso confiar nele? Ou tudo isso não passa de um plano cuidadosamente elaborado para arrancar informações sobre a minha família? Mesmo que não seja uma armadilha, o risco ainda existe. Bastaria uma palavra m*l colocada, um detalhe dito sem pensar, para que ele tivesse em mãos algo que pudesse usar contra nós. Estar aqui, sentada à mesa, reconsiderando esse acordo implícito, é loucura. Em qualquer outra circunstância, eu riria, me levantaria e iria embora. Então por que ainda estou aqui? Vincent. Há algo nele — um ar de autenticidade — que toca fundo em mim, em um lugar que eu preferia manter blindado. Não que ele hesitasse em me colocar atrás das grades se tivesse provas suficientes. Ele faria isso. Mas, ao mesmo tempo, acredito que ele realmente queira encontrar Lorenzo e encerrar esse caso. Só que não é apenas por Lorenzo. Para Vince, o desaparecimento do meu irmão é a peça que falta para resolver o assassinato de um policial. E a pergunta que me atormenta é simples e c***l: o quanto eu quero descobrir o que aconteceu com Lorenzo? O suficiente para encontrá-lo… apenas para vê-lo preso por homicídio? A decepção aperta meu peito, forte e inesperada. Isso sempre acontece quando chego perto demais de Vince — quando percebo que minha crença quase ingênua em sua justiça imparcial talvez esteja errada. Por que eu quero tanto acreditar nele? Balanço a cabeça, tentando afastar esses pensamentos. — Por que você não pode procurar o Lorenzo sem condições? Ele pisca, claramente surpreso. — O que você quer dizer? — Quero dizer que, se ele fosse apenas um cara comum que desapareceu, a família teria que fazer um acordo com você para que a polícia o procurasse? Ele respira fundo. — Não. Mas… — ele continua antes que eu possa interrompê-lo. — Nós investigaríamos quem ele era, o que fazia, com quem se envolvia. Falaríamos com a família, amigos, colegas. Isso não muda. O que torna o caso do Lorenzo diferente é que ele nunca foi investigado, e isso foi um erro. Mas, para corrigir isso, eu preciso saber quem ele era de verdade e o que estava fazendo. Pelo tipo de vida que levava, não posso ignorar a possibilidade de que o desaparecimento esteja ligado a atividades ilícitas. Ele tem razão. Odeio admitir isso. — Então, para que a polícia se importe em encontrar Lorenzo, eu preciso revelar segredos de família… — Eu me importo com a justiça, Melissa. Foi errado o caso dele ser deixado de lado. Mas, se eu quiser encontrá-lo, preciso de informações. Como em qualquer outro caso. Você entende isso, não entende? — Ele me observa com cuidado. — Se você não quiser falar, tudo bem. Mas, nesse caso, talvez eu não tenha o que preciso para descobrir a verdade. Droga. Ele tem razão outra vez. Agora sou forçada a encarar algo que evitei até aqui: e se o desaparecimento de Lorenzo estiver realmente ligado ao assassinato do policial? Ele poderia ter matado alguém? Poderia. Lorenzo era muitas coisas — impulsivo, arrogante, imprudente —, mas não era burro. Ele não matava por esporte. Se fez algo assim, foi porque estava sendo pressionado… ou porque alguém da família estava ameaçado. Então como seguir em frente? Como ajudar Vince sem colocar minha família inteira na mira da polícia? — Eu não sei nada sobre um policial assassinado. A expressão dele se contrai por um segundo. A decepção cintila em seus olhos antes de ser escondida. É óbvio que ele esperava mais. — Sinto muito por desapontá-lo. — Não faço esforço para suavizar o tom. — Não é decepção. — É só isso que vocês têm? — retruco. — Você e seus amigos acham que meu irmão matou um colega de vocês, e pronto? Se for isso, acho que terminamos por aqui. Estar perto de Vince é uma montanha-russa emocional: saudade, esperança, raiva, frustração. Tudo misturado. A irritação brilha em seus olhos. — Está procurando uma desculpa para ir embora? Não vou te manter aqui à força. Isso me surpreende. Ele geralmente é mais controlado. — Achei que você quisesse minha ajuda para encontrar Lorenzo. Dou uma risada sem humor. — E eu achei que você fosse aquele escoteiro moral que acredita que todos merecem justiça. Mas aqui está você outra vez, insinuando que só vai ajudar se eu entregar segredos da minha família. — Investigações exigem perguntas — ele responde, firme. — Nesse caso, perguntas à família, aos amigos, a qualquer um que o conhecesse. — Você vai falar com o Matheo? — Se ele falar comigo. Pouca chance. Se Matheo achou que eu tinha perdido a cabeça no jantar da outra noite, saber que estou passando tempo com Vince seria motivo suficiente para ele me internar. Vince levanta as mãos, rendido. — Lorenzo não era um santo. As chances do desaparecimento dele estar ligado ao trabalho são altas. Isso é… — Ou pode ter sido um policial que o levou — disparo. — Já pensaram nisso? Se vocês acham que ele matou um dos seus, talvez alguém tenha resolvido a situação por conta própria. Ele claramente não gosta da ideia, mas assente. — É possível. Muitas coisas são possíveis. Mas não descubro a verdade sem fazer perguntas. — Você já interrogou seus amigos policiais? E o Maddox? Ele vive atrás da minha família. Já falou com ele? Vince fecha os olhos, como se pedisse paciência a Deus. Isso me irrita. — Preciso seguir as evidências, Melissa. — Você não tem provas contra meu irmão, e ainda assim está me pressionando. Ele passa a mão pelos cabelos. — Você tem razão. Mas o estilo de vida do Lorenzo… — Policiais também não são santos. E estão em posição muito melhor para encobrir um assassinato. — Vou considerar todas as hipóteses. Inclusive retaliação policial. Dou uma risada seca. — Isso vai te tornar muito popular entre os seus. Ele cruza os braços. — Só posso seguir os fatos. E, do meu ponto de vista, as evidências indicam que seu irmão foi vítima de um crime ligado às atividades da sua família. Existem policiais corruptos? Sim. Mas pessoas envolvidas em atividades ilegais… Ele se cala de repente. — O quê, Vince? — estreito os olhos. — Termina a frase. — Pessoas envolvidas em comportamentos nefastos correm mais risco de se tornarem vítimas deles. — Você se acha justo, mas é tão tendencioso quanto qualquer outro. — E você não é? Ficamos nos encarando, o silêncio pesado entre nós. Estou exausta. A culpa é minha por ter deixado minha atração por ele me trazer até aqui. — Eu não vejo o que quero ver — digo, por fim. — Não mais. Bebo o resto do vinho, pronta para ir embora. — O que isso significa? — Que eu quis acreditar em uma versão sua que talvez nunca tenha existido. Ele suspira. — Não estou dizendo que você ou Lorenzo mereciam isso. Mas crescer no seu mundo molda a forma como você vê as coisas. — E o seu mundo não faz o mesmo com você? — Claro que faz. Por isso precisamos de perspectivas diferentes. Nosso garçom chega, interrompendo a tensão. A comida vem logo depois, e o clima ameniza um pouco — não desaparece, mas deixa de ser explosivo. A conversa muda, se aprofunda, e, aos poucos, Vince se abre. Fala da infância difícil, do motivo que o levou à polícia, da perda do parceiro. Contra a minha vontade, minha guarda baixa. Quando ele termina de falar, estendo a mão e aperto a dele. — Sinto muito. Perder alguém assim muda tudo. Ele olha para nossas mãos unidas. — Mudou. Mas também me fez querer ser melhor. Quando o jantar termina, ele me acompanha até o carro de Lorenzo. Ficamos ali, parados, sem saber o que dizer. A noite está fria, ou talvez seja só a eletricidade entre nós. — Vince… você confia em mim? Ele hesita. Depois, suspira. — Contra a minha vontade… sim. Meu coração acelera. — Então vem dar uma volta comigo. Ele pondera por um instante. Então sorri. — Ok.
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