Capítulo II - Eu sou a Rainha Elizabeth.

2096 Palavras
 Você está preso em um mundo que você odeia? Você está cansado de todos ao seu redor? Com seus grandes sorrisos falsos e mentiras estúpidas, Enquanto por dentro você está sangrando? Não, você não sabe como é.  Você não sabe como é, Ser como eu! Ser machucado, sentir-se perdido, Ser deixado no escuro, Ser chutado quando está m*l, Sentir como se você estivesse sido empurrado Estar a beira de um penhasco, E não ter ninguém lá para te salvar Não, você não sabe como é. Bem-vindo à minha vida!  (Simple Plan - Welcome to My Life)     Vocês conhecem os clichês e sabem como funcionam.   A vida de Melanie era uma trivialidade ambulante. Uma adolescente gorda, relativamente popular e absurdamente inteligente - sem ser arrogante, pois era a verdade - com um pai que preferia beber a sair com ela, uma mãe tão forte a ponto de aguentar tudo isso por causa da filha, mas que sofria a cada final de semana. E que, bem, nunca tinha estado com alguém.   Já tinha sido pressionada pelas "amigas" e nunca quis. A garota queria algo da altura de Romeu e Julieta, um romance tão arrebatador quanto A Divina Comédia de Dante ou até um clássico, como Orgulho e Preconceito. Tão acostumada com os livros, era difícil que alguém suprisse suas expectativas tão altas. Mas, por enquanto, ela estava bem.   Quem quer um adolescente e******o quando se pode sonhar com Mr. Darcy?   Além das pressões para "desencalhar", não gostava do horário completo da escola, manhã, tarde e parte da noite. Se sentia quase em um colégio interno. Porém, a Blue Devils era a escola de "alto-escalão" e todos esses mimimis. A bolsa no colégio tinha sido uma conquista e tanto para a jovem. Então, Melanie fazia sua visita na lanchonete do campus e se dirigia para a biblioteca, adiantava e completava todas as lições e trabalhos o mais rápido que podia.   Odiava fazê-los em casa, até porque ficava ocupada, ajudando sua mãe a cozinhar e organizar a casa. Aquele ambiente repleto de livros era o seu predileto em toda a escola. Era onde podia comer sem presenciar a hierarquia adolescente e se deliciar do silêncio bom, existente ali. Não que se esconder das suas colegas fosse uma tarefa difícil, elas não ligavam muito. Quando o pequeno sino tocava, se dirigiam para os seus namorados e, ás vezes, nem voltavam para o último período.   O chocolate que comia não matava a agonia de saber que seu livro entupido de anotações pessoais, estava nas mãos do professor substituto. Ela m*l o conhecia, não sabia o que ele poderia fazer depois de ler suas notas. Eram lamentos que ela não externava.   — Por que aquele i****a teve que pegá-lo? — ela resmungou, olhando para o teto da enorme Biblioteca. Se sentia incrivelmente segura no lugar cercado de estantes e histórias. A Blue Devils se orgulhava da vasta coleção de livros raros e edições dignas de um colecionador. Já ela, bem... Seu dinheiro m*l sobrava para comprar um simples exemplar. As coisas que tinha eram dadas pela sua tia ou conquistadas com o suor da sua mãe. Esperava poder pegar de volta um de seus únicos bens valiosos. O seu livro.    Na sala dos professores, Matthew se afundava nas pequenas escrituras acima das páginas. Uma delas dizia, com hábeis palavras "a chave dessa obra é a dualidade, será que a loucura de Hamlet é mesmo fingida? Será que ele já não havia sucumbido no meio de tantas mentiras?" e embaixo dessa, em letras menores, o professor leu algo que fez seu coração apertar um pouco "dera eu, que a minha solidão nada mais fosse que um breve fingir".    Ele pensou na jovem garota e em seus olhos castanhos expressivos, cobertos pelo óculos. No breve sorriso que viu ao notá-la caçoar internamente da resposta da colega na aula mais cedo e no modo em que era venerada na sala dos professores, como uma das alunas mais inteligentes do local. Mas, assim como tinha escutado isso, também teve o desprazer de ouvir os jogadores de futebol e as outras garotas, claramente, fazer bullying com ela.    Em sua época no colégio, com certeza andaria com Melanie. O tempo tinha sido gentil com Matthew e a genética dos Hayes também tinha ajudado, porém, no auge dos seus dezoito anos, ele usava aparelho, tinha um corpo alto no qual não sabia controlar e cabelos longos. Sem nem falar das numerosas espinhas e projeção desnecessária das orelhas. O que o fez sofrer muito na adolescência, no entanto, nada comparado ao que a Srta. Foxier sofre.    Nada que sequer pudesse se comparar ao que leu no velho exemplar.    — Olá, eu sou Rebeca. — ouviu uma voz sonora soar ao seu lado e, num sobressalto, fechou o livro com força. A última coisa que queria, era que outro professor notasse que estava um pouco aprofundado demais na história de Melanie. — E você é o Matthew, certo?    Ele se virou, dando de cara com uma mulher loira, com porte de bailarina e olhos azuis frios. Ela lhe lançava um sorriso tão largo que Matthew não precisou olhar duas vezes para perceber que era um tipo de "carne-nova" ali. Não que ela não fosse bonita, aliás, era extremamente atraente. Só não gostava da sensação que seu olhar lhe passava.   — Sim, sou! Senhorita...   Se possível, ela enlargueceu ainda mais o sorriso.   — Still! Rebeca Still. — ele com certeza já tinha ouvido falar dela. Jéssica, sua amiga e antiga professora, lhe confidenciara das tramas da tal Still para que ela não conseguisse sua entrada na renomada escola preparatória na Alemanha, quase conseguindo sucesso em uma. — Desculpe a indelicadeza, mas você não é muito novo para ser professor?    Com toda educação que sua mãe lhe dera, Matthew se controlou para não bufar e dar as costas.   — Tenho vinte e seis anos, Srta. Still. — ofereceu um sorriso amarelo — E, não... Me graduei com louvor, podendo continuar para seguir meu sonho de ser advogado. — Por quê? — ergueu uma sobrancelha, vendo-a corar copiosamente.   — Nada, apenas lhe confundiria fácil com um dos nossos veteranos... — Ok. Era melhor ele pará-la antes que começasse a realmente dar em cima dele e deixá-lo sem reação.    Matthew olhou para o relógio, recolhendo seu material. O livro de Melanie descansava em cima da pilha enorme nos seus braços. Não queria proximidade de gente como a Rebeca, mas também não queria criar inimizades logo no seu primeiro dia, então...    — Tenho que ir, o fim do meu horário é com os alunos do último ano. Tenho duas horas de aula para dar... — tentou resmungar como um verdadeiro reclamão. Rebeca encarou o relógio com a testa franzida.    — Mas o sinal ainda não tocou...    Ele deu mais dois passos, movimentando os ombros.   — Gosto de chegar antes e preparar a aula. Foi um prazer lhe conhecer! — mentiu, saindo dali antes que pudesse tropeçar nas suas palavras. Nunca tinha aprendido a mentir, era muito transparente para isso.    A sua sala era no fim do corredor que, com o intervalo para o lanche, estava vazio. O professor mexeu até não confundir a chave do armário com a da porta e conseguiu abrir o lugar. Estava escuro e, quando apertou o interruptor, quase infartou.    —  Jesus! — exclamou, passando perto de derrubar os livros, quando se encostou na parede.   — Nem ele vai te salvar se não devolver o meu livro! — Melanie cruzou os braços, com uma cara feia de dar medo até no próprio bicho papão. E ela realmente estava, queria se jogar e pegar o seu livro, mas ainda tinha um pouquinho de educação. Ao contrário dele. — Dá para me devolver?   Se recuperando do susto, Matthew caminhou, descansando as coisas no enorme birô e encarando a garota como se ela fosse anormal. Afinal, a porta estava muito bem trancada e apenas ele tinha a chave. Como Melanie tinha entrado ali? Pelo vão da porta? Mágica?    — Como você entrou?    Ela riu.    — Pela porta — apontou e deu de ombros de maneira debochada.    O mais velho lhe lançou um olhar entediado, exigindo explicações.    — Ok.. — a menina bufou, levantando as mãos — Só usei a chave que a professora Jéssica deixava comigo, caso eu quisesse passar o intervalo aqui, estudando...— pestanejou algumas vezes e, se Matthew não tivesse lido com atenção as notas no pequeno livro, acreditaria veemente na garota.    Porém, ela tinha lido.    E, pelo que observou, notou que Melanie tinha prazer em mentir, dava para identificar um pequeno sorrisinho de canto querendo nascer nos lábios rosados. Ao contrário dele, ela era uma exímia mentirosa.    — A verdade — ele cruzou os braços, fazendo-a bufar alto.    — Eu sou a Tinker Bell — respondeu, tão séria que Matthew até pensou em acreditar.    A garota queria morrer de rir, mas se segurava com fé. Confundir o professor novato era bem mais divertido do que xingá-lo. E ele m*l poderia reclamar, já que foi por causa do furto dele que isso tinha começado. Estava gostando da pequena confusão descrita no azul intenso daqueles olhos.    — Como entrou aqui, Srta. Foxier? — O professor repetiu, tentando expressar uma maior autoridade. Ele era conhecido por sua exigência e até um pouco por causa da sua chatice. Mas, ela exibiu um sorrisinho charmoso, suspirando como se estivesse exausta.    — Não sei se deveria contar, meu caro Senhor, mas eu... — Melanie fingiu se abanar — Na verdade, eu sou um espírito, condenado a vagar por essas salas... Sem rumo, sem companhia — choramingou — ... porque meu dever é punir professores que roubam os livros de alunas indefesas! — rosnou baixo, afim de jogar sua mochila pesada contra aquele maluco.    Matthew ficou alguns segundos fitando-a, meio incrédulo e até questionando a saúde mental da garota. Ela tinha algum tipo de distúrbio? Era transtorno bipolar? Ou... Algo mais sério?    — Acho que se eu não devolver seu livro, vai acabar dizendo que entrou aqui porque é a Rainha Elizabeth ou, que simplesmente arrombou a porta com um grampo de cabelo, como nas Panteras — ele divagou, olhando para a jovem que simplesmente sorriu, afirmando. Ele arregalou os olhos — O quê? Você é a Rainha Elizabeth?! — exclamou.    Melanie revirou os olhos, soltando uma risada.    — Eu simplesmente arrombei a porta, queria dar um ar de filme de terror, você ligar a luz e me ver aqui, olhando para o quadro... Uuuu.. — remexeu os dedos e notou que o Sr. Hayes estava boquiaberto. — O que foi?    Ele olhou para cima, balançando a cabeça.    — Você abriu a fechadura com um grampo? — perguntou, achando aquilo impossível.    Ela negou, deixando-o suspirar aliviado.    — Não, ué.    — Ainda bem, seria louc...    — Foram dois grampos e um pouquinho daquela geleia esquisita do refeitório... — ergueu os dedos — Sabe, um para destrancar, outro para servir de apoio nas pequenas entradas de dentro da fechadura e a geleia... Bem, porque ela é horrível para comer... — tagarelou e Matthew sentiu que poderia cair do birô a qualquer momento. Ela era real?    — Isso tudo por causa do Hamlet.    Ela afirmou.    — Não foi uma pergunta, mas está certo. — murmurou, soltando o ar em seguida — Olha, seja lá o quanto leu até agora, ignore, por favor. Sem aconselhamento psicológico, sem olhares de pena ou tentativas de me integrar. Estou bem assim.     — Quer conversar?   Melanie negou rapidamente, m*l o conhecia, não ia sair explanando sua vida desse jeito.   Ambos suspiraram, achando o silêncio confortável. Ainda faltava uma hora para o intervalo acabar, o ar condicionado da sala deixava o ambiente aconchegante e, mesmo o uniforme não tendo uma cobertura adequada para esse clima, Melanie gostava do frio.    — Bem...    Ela descansou o rosto sobre as mãos, encarando o mais velho de forma curiosa. Ele tinha fios negros, um maxilar quadrado de dar inveja no próprio Superman e os olhos azuis mais cristalinos que ela já fitou em todos os seus dezessete anos de vida.    Matthew notou o olhar da garota, porém não viu a malícia tintilar nas órbitas castanhas. Era só como se ela estivesse o estudando calmamente. Melanie era interessante, mas era sua aluna e ele m*l tinha começado a trabalhar com a sua turma, não precisa arranjar um problema assim.    — Temos uma hora — ele suspirou.   A jovem acenou.   — Que tal um jogo?   Melanie ergueu a sobrancelha.   — Como?   — Eu digo um fato sobre mim, depois você e vice-e-versa.   A garota sorriu.    — Não nada melhor para fazer mesmo. 
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