Capítulo III - Bullying, uma bela amizade e... Apenas uma amizade.

2848 Palavras
 — Eu sou estúpida quando acordo — Melanie ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços enquanto se recostava na cadeira, o mais velho descansava com uma expressão divertida na "quase-poltrona" atrás do birô.   — Sou apaixonado por Advocacia, porém mantenho um caso extraconjugal com a literatura — Ele respondeu, soltando um sorrisinho. O r**m desse jogo, Matthew pensou, não eram os fatos desconexos, mas sim, a infelicidade de não poder questioná-los.  A garota fez um biquinho meio reflexivo, estava tomando o máximo de cuidado para não soltar coisas íntimas demais ou inadequadas. Afinal, ela m*l o conhecia e ele era seu professor. Mesmo tendo mais cara de aluno do quê de um dos docentes chatos e sem criatividade.  — Sofro bullying todos os dias na escola e a maioria dos professores não faz nada.  Matthew engoliu a saliva, entretanto, pareciam farpas que arranhavam a garganta. Como uma garota que, — pelo que sabia até agora, nessa altura do campeonato — gostava de Shakespeare, tinha notas mais azuis do quê os próprios smurfs, um sorrisinho de canto charmoso capaz de convencer qualquer um da mais deslavada mentira, podia sofrer tal horrenda agressão?  E o pior... Como alguém sequer poderia agir em relação à isso?  Mas ele não podia questioná-la, então, respirou o mais fundo que pode e continuou.  — Sou careta — ele retrucou, fazendo-a rir.  — Pelo menos não é antiético — deu de ombros — gostei de como agiu com uma das amigas da Lindsay — Melanie comentou, referindo-se ao belo fora que ele havia dado na jovem ruiva que, descaradamente, deu em cima dele.  Matthew assentiu. — Preciso ser assim. Estou acostumado com as garotas da Blue Devils e ainda acho que esse nome não é devido ao ótimo time de basquete que temos — o homem coçou a nuca um pouco envergonhado — você é a primeira a qual consigo manter uma conversa civilizada e sem cortes ou desculpas para fugir antes que me ataque, ou algo do tipo — arregalo brevemente os olhos.  A menina riu, meneando a cabeça e, mentalmente, concordando com o professor. A reputação da escola, claramente, devia ser pelo fogo das diabas azuis que frequentam o local. E sobre ser a primeira, Melanie tinha muita coisa na cabeça para se dar tempo — e o luxo — de se deixar levar pelos olhos azuis cristalinos do simpático Matthew. Estava interessada nas suas aulas e no quão ele poderia ajudá-la com elas. Precisava fazer uma faculdade e não poderia pagar. Ser bolsista é algo que ela já estava acostumada, não faria corpo mole para tentar mais uma vez .  — Amo musicais antigos — ela resolveu continuar. Matthew quase caiu da cadeira.  — Desculpe, mas vou ter que questionar... Quais são os seus prediletos? A garota bateu o indicador sob os lábios carnudos e suspirou, agoniada com a indecisão.  — Eu sou irremediavelmente apaixonada por Grease, O Fantasma da Ópera e Moulin Rouge — falou num só fôlego, sabia que Moulin Rouge não tinha uma das trilhas sonoras mais aclamadas, todavia, se embalava de um jeito na história do cabaré francês mais famoso do mundo que m*l conseguia sair.  Matthew tinha gostado e achado aquelas escolhas peculiares, nada coligadas.  — São várias vertentes diferentes...  Ela acenou.  — Sou meio inconstante — piscou, soltando uma pequena gargalhada.  Ele precisava saber o porquê de tanta melancolia escondida, a solidão das palavras dela... Aquilo estava o matando de curiosidade... — Será que voc... — O e******o e intrometido sino o interrompeu, avisando-os de a aula começaria e aquele jogo seria adiado. Iriam ter que escutar os suspiros, as burrices e todas as outras coisas irritantes clássicas vindas do pessoal da Blue Devils.  *** Semanas depois.  — "Uma coisa bela persuade por si mesma, sem necessidade de um orador." — O professor Hayes citou, soltando um pequeno sorriso para sua classe. Na verdade, sendo mais específico e bem sincero, aquele gesto tinha direção e nome de destinatário: Melanie Foxier. Já estava acostumado em receber outro sorriso em troca e admirá-la antes de prosseguir com sua aula. Hoje não havia sido diferente. A menina entortou os lábios de forma charmosa. — O que Shakespeare quis dizer com isso? Alguém turma do fundo levantou a mão e Matthew agonizou por dentro só de reconhecer quem era a tal pessoa. John era um dos piores e Melanie sentiu até um pouco de medo ao pensar qual atrocidade aquele asno falaria, voltou seu foco em tentar rabiscar os olhos do seu belo professor. Estava um pouco fascinada demais por aquele azul cristalino. — Sim, Hille? — Não sei, só levantei a mão para zoar mesmo. A sala toda riu, alguns permaneceram sérios, não achando graça na brincadeira do adolescente. Matthew apenas deu de ombros, desistindo de reclamar com o garoto. — Quando uma coisa que nós julgamos ser bela nos atrai, nos fascina... — Procurou palavras para definir, porém, só as achou quando o seu olhar caiu novamente na garota. Ela sorria largamente para o caderno e ele desejou saber o que tanto a alegrava lá. — Não precisamos que ninguém a elogie ou a torne mais bonita com palavras. Apenas a sua presença nos encanta. Melanie escutava tudo aquilo com uma atenção monstruosa. Adorava quando o professor transformava as citações em belos pensamentos. E também não conseguia parar de sorrir para o caderno. Havia conseguido desenhar! Esse tipo de acontecimento era raro, ela só conseguia escrever frequentemente, os desenhos eram o tipo de coisa que ela não podia se dar o luxo sempre. John novamente levantou a mão e Matthew lembrou o quão irritante aquele garoto podia ser e apenas haviam se passado sete semanas na companhia dele e de sua trupe de imbecis.  Bufou baixo, dando um pequeno sorriso amarelo. Teria que ter paciência. — Alguma dúvida, Sr. Hille? — Sim... — Lançou um sorrisinho malandro para os companheiros e se voltou para o professor. — Se Shakespeare quis dizer isso, explica muito o porque que todo mundo fica com medo da presença da Melanie na cantina... Vai que ela nos deixa sem nada para comer?! A sala toda riu, até as garotas que se julgavam colegas da menina, essa, que estava encolhida em sua banca, praticamente morta de vergonha. O professor sentiu a raiva borbulhar em suas veias. Queria matar aquele adolescente imaturo e c***l. Mas antes que pudesse abrir a boca, escutou a voz jovem e imponente da garota ecoar por toda sala: — Sabe, John... — Ela começou e Matthew tremeu internamente. Sabia que aquele tom era o mais frio que ela podia usar, a fúria fluindo da dicção perfeita demais para a pouca idade. Melanie estava com raiva. — Há um estudo que pode explicar esse seu comportamento. Existem duas razões e, para mim, ambas estão corretas. — sorriu petulante. Melanie nunca admitiria o quão difícil foi ouvir o quê o menino falou e também o quão boa era a sensação de enfrentá-lo. Levantou os dedos, enumerando as opções. — A primeira: Você nutre alguma paixãozinha por mim e tenta disfarçá-la me maltratando frente aos seus amigos...—   John se engasgou e a sala estava em silêncio absoluto. O professor até pensou em interromper, mas no fundo sabia que a garota merecia dar o troco.  — A segunda, é que seu nível de segurança em si próprio deve ser do tamanho do seu pênis: Minúsculo. — Não houve um ser humano que não soltasse uma risada, menor que ela fosse. Melanie sorria vitoriosa e se deliciava com a cara de constrangimento que John fazia. O que fez foi extremamente errado, não se cobra olho por olho nem dente por dente, como se diz no velho ditado. Antes que mais alguém pudesse rir ou falar mais algo, o sinal tocou, transformando a sala em um completo furacão de risadinhas e barulho de zíperes fechando. Matthew lançou alguns sorrisos para as meninas do time de líderes de torcida, fazendo Melanie revirar os olhos e sublinhar a frase mencionada na aula em seu caderno. — Vamos almoçar? — O professor se assustou um pouco ao ver dois olhos idênticos aos que encara todo dia no espelho, ali, desenhados cautelosamente no caderno de Melanie. Não sabia que os talentos dela eram tão abrangentes. Já ela, continuou calada. Estava fazendo um pouco de charme por causa do ciúmes que sentia da sua amizade, óbvio. — Que lindo. — Aham. — Fechou o caderno sem olhá-lo nos olhos. A atuação iria por água abaixo se o fizesse. Matthew, por sua vez, ficou um pouco incomodado com o súbito silêncio da garota.  Ela era como uma criança pequena trancada em um quarto e muito quieta.  Significava uma grande confusão por vir. — O que houve? — Perguntou, encostando-se na cadeira e a encarando intensamente. Adorava desvendar as facetas dela. Às vezes, ficava impressionado com todas as caretas que Melanie fazia quando estava maquinando algo.  A jovem só guardou seu caderno e puxou o celular. Estava decidida a irritá-lo um pouco. Matthew se remexeu, desconfortável com a situação. Não sabia oque havia feito de errado.   — Oh, Lany... Você não é muda e está com fome que eu sei. — Aham. — Se falar "aham" mais uma vez, vou ser obrigado a te dar um chokito. Os olhos de Melanie brilharam com a menção do chocolate da marca que ela amava e, não conseguiu evitar, um sorriso brotou em seus lábios. Ele estava certo, ela estava a beira de um colapso, não tomou café quando saiu de casa aos tropeços por conta do horário e das provavéis discussões dos pais que ela só comentava de forma mínima. Seu estômago estava clamando por comida. —Eu quero! — Falou antes que pudesse tapar a boca e se condenou mentalmente ao ver o sorriso de moleque travesso iluminar o rosto de Matthew. Ele havia feito de propósito. ] Ela sabia disso. Revirou os olhos, cruzando os braços. Em uma clara atitude de birra. — Quem te disse que era de comer? —O professor fez questão de levantar as sobrancelhas ao perguntar - Se continuar a me evitar, vou colocar seu dedo na tomada mais próxima para lhe dar um "chokito". — Piscou, escutando a risada espontânea e extremamente gostosa de se ouvir que a menina soltou. Aquela piada tinha sido o golpe mais baixo, mas faria qualquer coisa para vê-la sorrindo e não o olhando de cara feia e estômago vazio. Melanie levantou, levando a bolsa consigo. — Ok, vamos almoçar. Mas, vai ter que me levar em casa depois, ontem cheguei muito tarde e minha mãe quase colocava toda a força tarefa da polícia atrás de mim, com direito a cães farejadores. — Ergueu a mão, rindo junto com o mais velho, que meneou a cabeça.  Sabia, —que mesmo enfrentando problemas todo fim de semana — o quanto os pais de Melanie eram super protetores, a garota quase não saía só e sequer aprendeu a andar de bicicleta. Se bem que, como o sobrenome dela poderia ser "desastre", essa atitude possa ter sido a melhor que tomaram ou, há essas mesmas horas, a jovem poderia estar com alguns — ou todos, ninguém sabe — ossos do corpo quebrados. — Não tem problema, eu levo. — Respondeu, colocando a bolsa transversal em seu ombro e apagando o quadro. O soar de palmas o fez rir. — Dá pra parar, Melanie? Ela riu, fechando os olhos castanhos em f***a. — Só pago o cachê se rebolar mais um pouco. — Empinou o queixo de forma petulante. Ele apenas continuou apagando as palavras que haviam na losa. Aproveitando a distração do mais velho, a garota andou um pouco e, sorrateira como uma cobra, se aproximou, fazendo uma leve cócega nas costelas do professor. Que se contorceu com o susto e se afastou correndo, sua face continha o misto de diversão e chateamento. Já havia explicado exaustivamente para ela que aquilo incomodava. Mas, teimosa como uma mula, simplesmente o ignorava. — Acho que já deu por hoje, vamos almoçar, Srta. Foxier. — Pensei que iria chamar uma das líderes de torcida pra quem lançou alguns sorrisos hoje. — Passou na frente de Matthew, tentando imitar o andar das garotas que eram o sinônimo de beleza em quase toda a pequena cidadezinha que moravam em Seattle.  Ele riu do ciúmes sem fundamento da garota, todos naquela escola sabiam ou deduziam que Melanie era a sua favorita. Passavam a maioria do tempo juntos e quando alguém reclamava da "didática" exigente do professor, Melanie só faltava rosnar. — Não começa, Lany. Você sabe que a única que acaba com o meu já humilde salário é você. — A menina riu, abraçando-o de lado e balançando seu corpo exageradamente, o professor retribuiu, apertando-a. — Você não sabe abraçar direito! Já te disse que não é desse jeito todo exagerado. — Mas eu sou exagerada! — Falou com sua voz sendo abafada pelo ombro do mais velho, que se arrepiou um pouco com todo aquele contato. Já havia pensado na hipótese de mandá-la parar de abraçá-lo de tal forma, mas desistiu.  Sabia que iria sentir uma demasiada falta desses gestos imensos dela. — Ninguém precisa saber que você é exagerada, intensa e doidinha, Melanie. — Como ousa? — Fez um pouco de drama, querendo desfazer aquele abraço. O que foi impossível já que Matthew a apertou o máximo que pode. — Socorro, tem um louco me esmagando. Socorro... — Sem nenhum pio, dona Melanie. — Murmurou, soltando-a e sorrindo de forma irresistível. Maquinou uma ideia arriscada e tão perigosa quanto atraente. Depois do almoço falaria para ela, só não podia antecipar oque a jovem iria falar mas bem que queria ter esse poder. — Vamos. Quando chegaram no estacionamento, o lindo e reluzente carro do Matthew chamou sua atenção. Não entendia o porque que ele tanto trabalhava se sua mãe lhe dava as coisas de bandeja. Porém, admirava-o com toda essa sua busca pela independência, pelos seus sonhos e vontade de ajudar as pessoas honestas que não podem pagar um bom advogado. —Eu amo o seu carro. — Constatou ao entrar no mesmo e esticar as pernas sobre o painel. O professor a olhou feio, recebendo uma careta malcriada em troca. Deu partida ainda calado, a menina mexeu no rádio, sintonizando em uma estação de rock. Ele ficou surpreso ao escutar a voz nem tão angelical de Melanie sussurrar os versos de Wonderwall do Oasis.  Era da época dele. — Não sabia que gostava dessa banda. —The day is gonna be today, that they're gonna throw it back to you.. - Ignorou a fala de Matthew, que só revirou os olhos com a infantilidade da menina, mas também não conseguiu evitar um sorriso ao se dar conta do gosto musical dela. De soslaio, observou-a imitando uma guitarra. —  Isso, bem melhor... Você é ótima cantora, quando em silêncio —Melanie não conseguiu reprimir o impulso e, absolutamente sem querer, ergueu o dedo do meio para o mais velho. Rapidamente abaixou mas o gesto já tinha sido feito, levou a mão a boca, olhando-o com os olhos arregalados. Matthew só riu, observando o belo castanho escuro daqueles olhos o encararem de um jeito amedrontado pela coisa que havia acabado de fazer. Sabia que tinha sido no calor do momento, ela não é de ferro e muito menos um tipo de freira imaculada e totalmente correta. Já escutou-a falar poucos palavrões e, em outros momentos, alguns lampejos de malícia direcionados aos veteranos da faculdade ao lado da Blue Devils. — De-desculpe. Melanie estava roendo as unhas, não queria contrariá-lo tanto. Gostava de torrar a paciência do professor, vê-lo bufar pelas narinas e dar uns gritos enquanto ela dava umas boas risadas. Só não esperava que essa fosse a vez dele rir á suas custas. Não só rir, mas se dobrar em gargalhadas. — Ai, céus — Arfou, tomando fôlego enquanto enxugava as lágrimas e encarava a garota que, por sua vez, tinha os olhos semicerrados e uma expressão bem contrariada. —  Ah, o que foi? Não ia perder a oportunidade de ver essa sua bola baixar um pouco. Melanie prendeu o sorriso que ia esboçar. Lutou ao máximo. — Vaaaaai, Lany. Não fica assim. — Falou de um jeito escandaloso que só fazia com ela. Não que queira admitir em voz alta, ele ficava meio louco quando estava com ela. — Tá bom, vou entrar naquele rodízio sozinho. S-o-z-i-n-h-o — Saiu do carro, soletrando e fazendo uma contagem regressiva mental e, em seu final, a porta foi aberta e uma Lany sorridente e mais simpática saiu de lá. —Você não muda. Ela sorriu e ele jurou ter visto o iluminar do raio de sol diretamente em seus dentes. — Se eu fosse diferente, não estaria aqui. — E piscou, entrando no restaurante quando se fosse o seu palácio particular. Sorrindo para os garçons e fechando os olhos com o cheiro da comida.  É, Melanie estava certa nessa questão, ela não precisava mudar. Em nada.
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