— Eu consegui! — Pela segunda vez no dia, Melanie levou a mão ao peito, completamente sobressaltada. Como se alguém tivesse acabado de apertar a ignição de uma bomba. Seu coração e respiração estavam tão acelerados e a adrenalina corria tão fortemente em seu sangue, que, a menina não mediu seu gesto. Arremessou seu livro, sem exitar, escutando o baque do mesmo no chão, seguido por um grunhido.
Ela tinha lhe avisado.
— Desculpa! Você me assustou! — Matthew notou que, mesmo de costas, sabia que a menina segurava uma tremenda risada. Também riria com ela, se não estivesse tão preocupado com a reação que teria quando comunicasse o único jeito que arrumou para que a diaba loira não lhe desse um zero, enorme e redondo. Previa bem mais que aquele pequeno livro sendo arremessado contra si, temia que a jovem derrubasse a biblioteca inteira. Não tinha como adivinhar e isso o irritava profundamente.
Coisas que fogem do seu — único e exclusivo — controle, deixam Matthew perturbado.
— Tenho uma notícia boa e outra r**m. Qual quer saber primeiro? — Melanie virou, com um sorriso largo adornando os belos lábios avermelhados. Fingiu pensar. Obviamente escolheria a r**m, para depois consolar-se com a boa. Sua mãe sempre fez isso, lhe dizia algo r**m e, quando pensava que tudo tinha dado errado, lançava no ar uma coisa tão boa que as faziam rir.
Observou um pouco. O Sr. Hayes tinha uma expressão agoniada, os cabelos curtos estavam espetados e os olhos azuis, esbanjando preocupação. A notícia r**m, não era exatamente r**m.
Para deixá-lo assim, teria que ser péssima.
— Ok, fala logo o que é tão r**m que te deixou parecendo um louco que fugiu do hospício. — Matthew sentiu a espinha gelar. Não sabia porque estava tão relutante com a reação dela, apenas uma garota. Talvez, parte do seu extinto protetor não queria que ela manchasse sua ficha perfeita com uma nota baixa em Música. Ou, ele simplesmente, dessa vez, não poderia explicar essa sensação. Não era algo racional. — Anda logo, antes que eu ligue pro Manicômio St. Lear e peça para eles virem te buscar.
Mesmo tenso, se permitiu soltar um pequeno sorriso. Puxou a cadeira, que antes Melanie estava sentada. O calor do corpo da jovem ainda permanecia no estofado, o que fez Matthew se aconchegar mais um pouco e soltar o ar. Fitou-a, que só o olhava com atenção e sorria.
— Tradicionalmente, você me mandaria sentar. — Apontou para o móvel, rindo. — Pare de suspense, cowboy. Se não for me dizer que a cantina fechou, não precisa surtar e soar desse jeito. Sou forte para aguentar um zero. — Melanie poderia estar sorrindo e fazendo piada mas, Matthew sabia que nada disso era verdade. Ela odeia levar uma nota baixa, se culpa durante horas. — Fala, vai...
— Se você não dançar, ela disse que convencerá todo o corpo docente para te reprovar. O que não me inclui, óbvio. — Levantou as mãos em rendimento, ele estava exagerando? Talvez, mas faria de tudo para subir naquele palco ao lado dela.
Melanie congelou naquele canto. Estava com vontade de abrir a porta daquela v***a loira á chutes e gritar que ela não fez nada para merecer essa marcação infantil. Mas, tinha que se controlar. Nunca foi chamada a diretoria, nunca tratou ninguém mal... Essa mísera professora não a tiraria do sério. Não ela, Melanie Foxier.
— Lany... Olha para mim...
— O que foi?
Sabia que tinha sido estúpida, mas esperava um desconto da parte dele. Estava borbulhando de raiva e sem conseguir raciocinar direito. Respirou fundo quantas vezes conseguiu, até que as batidas do seu coração se acalmaram. Porém, a raiva não tinha passado. Nem uma gota sequer.
— Me diz a notícia boa, Matthew. — A menção de seu nome nos lábios dela de forma tão séria e madura, fez os pelos do pescoço dele se arrepiarem. Céus, sentir isso era errado. Melanie tem apenas dezessete e ele, um rapaz de vinte e seis anos, acabando a faculdade de Literatura e se encaminhando para o seu tão sonhado curso de Direito. Mexeu-se um pouco desconfortável com os pensamentos que o tomaram e coçou a garganta. Olhou-a um pouco, ela respirava calmamente, mas seus olhos transbordavam uma coisa que não conseguia decifrar, nunca tinha visto isso... Resolveu tomar coragem de uma vez.
— Eu trouxe comida... — Sim, Matthew sabia que isso era quase um tipo de suborno. Mas, antes ela quieta e com o cérebro liberando endorfina, do quê o estapeando. Esperou, cautelosamente, Melanie abrir uma das pequenas barrinhas de chocolate e mordê-la com desgosto. Ela só comia chocolate quando estava chateada... — EuVouFazerOPapelDeDanny. — Tropeçou nas palavras e fechou os olhos com força. Pensando o quão e******o tinha soado. Faziam 8 anos que deixara de ser um adolescente, mais isso não o impediu de agir dessa forma. Ele tinha jurado para si mesmo que nunca mais subiria em um palco...
— Não falo a língua do Papaleguas, sou um pouco mais lenta. Então, respira e repete.
Matthew arregalou os olhos. Varreu mentalmente todo o lugar, a única coisa que realmente poderia machucar se for arremessada, seriam as cadeiras. Essa constatação o deixou respirar, tranquilo.
— Eu vou fazer o papel de Danny, o cara do laquê e jaqueta de couro...
— Sei quem é o D... O QUÊ? — Bem, a vontade de matar algo vivo só aumentou depois que Melanie ouviu isso. Pensou que estaria livre. Se arrependia a cada segundo que passava, de ter comentado que era uma grande fã de musicais antigos. Se arrependimento matasse, ela já estaria enterrada.
— Porque. Você. Fez. Isso?
Matthew definitivamente estava com medo. O olhar castanho estava em chamas e isso não é nenhuma hipérbole. Podia sentir o calor da raiva de Melanie começar a incendiá-lo.
— Ela te ofendeu. Disse que nenhum garoto queria interpretar o Danny por sua causa. Por causa do s...
— Do meu corpo? Acorda, Sr. Hayes! Isso aqui é o colegial. Dou graças a Deus por estar quase no fim e ter a biblioteca como refúgio. — Melanie falava um pouco da boca para fora. Quando chegasse em casa, choraria um pouco. Ela não é de ferro e nem gostaria de ser. Ter sentimentos assim, é necessário, por mais dolorosos que são. Eles que fazem a estrutura do nosso amadurecimento. Se não conseguíssemos passar por cima das nossas decepções, medos, nunca iríamos seguir em frente. Então, no lugar de serem obstáculos em nosso caminho, porque não usá-las como uma escada? Sempre para cima, sem nenhuma olhadinha para trás.
— Eu vou fazer a melhor Sandy que aquela diaba loira já viu.
Matthew encarava toda aquela mudança de opinião completamente maravilhado. Se fosse outro, a chamaria de bipolar. Mas isso era a fácil adaptação dela. A garota tinha raça e determinação. E o bom é que eles explorariam um dos vários amores em comum: Grease.
— Quer dizer que vai ter que mudar de uma "quase-rebelde" para meiga? - Perguntou, franzindo o cenho. Considerando o jeito menininha da protagonista do musical. Melaniu riu um pouco da cara confusa do mais velho. — O que foi? Não tem a mínima graça, Lany.
A menina se limitou a um pequeno dar de ombros acompanhado com um olhar cheio de desdém. Toda a pose só servia para disfarçar o quão ama quando ele a chama de Lany.
— Não vai ser preciso. Iremos fazer You're That All I Want. — Piscou, marota. Como ele faz. O rapaz riu, pondo a mão no queixo. Não tinha como mentir, havia adorado a ideia.
Só não sabia se era a do musical ou de passar mais tempo na presença dela.
* * *
— Uou. Quem é você e o que fez com o Sr. Hayes?
Melanie estava completamente deslumbrada, encantada... Se é que essas palavras podem definir o que sentiu quando viu o seu belo professor vestido de Danny, o personagem do John Travolta. A jaqueta preta, o topete. Ele estava mais bonito que o próprio.
Com direito a uma covinha bem charmosa quando sorri.
Matthew só sorriu, prendendo os lábios entre os dentes. Sempre fora um pouquinho tímido. Melanie tinha conseguido despertar esse lado acanhado dele com apenas um elogio.
Como isso é possível?
Percebendo que a garota ainda estava com o uniforme e o cabelo enrolado de um jeito nada parecido com o da Sandy, fez uma careta.
Será que ela havia desistido?
— Melanie... Onde está sua roupa? — Perguntou, rezando mentalmente para não escutar um "eu desisto". Eles ensaiaram muito, caíram muito, deram inúmeras risadas...
Desistir agora seria covardia.
— Ah! - Ela riu, sentando-se em uma das cadeiras do pseudo camarim. Eles estavam atrás do auditório, em um cantinho improvisado, confortável, porém, apertado. Apenas aguardavam o chamado da Sra. Still. — Estão passando a minha...
— Srta. Foxier? — Um dos alunos chamou-a, colocando algumas peças negras muito bem dobradas em seus braços. Matthew jurava já tê-lo visto por aí, de salto alto...— Espero que dê, vão ficar fabulosas!
Melanie sorriu e olhou de soslaio para Matthew, que observava a cena quieto. Era estranho o quanto, as vezes, ele parecia não pertencer a esse mundo. Parecia ter sido encomendado para um único propósito: Tirar qualquer resquício de juízo que ela ainda tem. Se interessar por um professor oito anos mais velho que ela era totalmente insano.
— Obrigada, Rick. Irei me trocar e soltar o cabelo, fico pronta em alguns minutinhos...
O menino se foi, deixando-os a sós novamente. A garota resolveu entrar e se trocar logo, para poder conversar um pouco com o Sr. Hayes. Desde que ele resolveu entrar no musical, não tinham tempo para falar, quando achavam uma pequena brecha no meio dos ensaios e aulas, a Sra. Still fazia questão de arrumar uma atividade para o professor. De pregar alguma coisa na parede á ajudá-la a carregar alguns poucos livros. Melanie finalmente havia entendido o porquê de tanta marcação. Ana Still era loucamente apaixonada por Matthew e, para tratá-la dessa forma, só havia uma opção: Achava que ela é uma ameaça.
Foi pensando nesses detalhes e se achando muito burra por não ter percebido isso antes, que se vestiu. A lycra da calça skinny deixou as suas coxas grossas, definidas, até prendeu um pouco a barriga dela, o que a fez rir. A tarefa difícil fora encaixar os s***s na blusa apertada.
Depois de vencer a luta e ficar sem fôlego, soltou o cabelo. Os cachos volumosos semelhantes ao da Sandy apareceram. Melanie brincou um pouco com eles, bagunçando-os e dando um ar rebelde. O salto se acomodou facilmente em seus pés. Ela finalmente estava pronta. Como a maquiagem já estava feita, apenas pôs o batom vermelho. Se sentia poderosa, não podia mentir: Estava bonita.
A garota saiu sorrindo de um jeito largo e tão feliz que não cabia em seu rosto. Matthew estava ocupado, olhando para o chão e imaginando que, pela demora, Melanie devia ter feito um túnel subterrâneo e fugido para bem, bem longe. Desejava ter feito o mesmo...
— Prontinho. — A voz dela o despertou, mas ele não conseguia abrir a boca para balbuciar nada. Estava perplexo. — Terra chamando Matthew, terra chamando... — Não adiantou, Matthew não conseguia segurar o queixo, ele já havia caído no chão há muito tempo, quando subiu seu olhar pelas pernas desenhadas e grossas de Melanie. Isso porque quando seus olhos travaram em sua b***a, ele foi obrigado a piscá-los com força, por um milésimo conseguiu respirar normalmente. Só por esse único milésimo, já que, quando os abriu novamente. Melanie estava na sua frente. Bem, os s***s dela estavam em seu campo de visão, na verdade, eram a única coisa que ele conseguia ver.
— Sr. Hayes... Meu rosto é mais em cima...
Melanie riu, não de desconforto, nem nada desse tipo. Mas, de verdade, ela simplesmente não imaginava que Matthew teria essa reação. Pelo menos, os s***s dela o deixaram um pouco fora de órbita. Os olhos azuis finalmente encontrou os dela. O olhar dele pedia desculpas, ela só sorriu, aquiescendo. É normal, ela estava com uma roupa muito apertada, se ele não reparasse, seria estranho.
— Desculpa, eu n...
— Vamos, Matt, é a hora de vocês. — A Sra. Still interrompeu, tocando Matthew mais que o necessário, fazendo-o lançar um olhar de "me socorre, antes que ela abuse do meu corpinho puro " para a menina. Melanie só ergueu a sobrancelha, prendendo uma de suas risadas espalhafatosas.
Um rapaz colocou e colou com fita um daqueles microfones móveis. O que a deixou feliz, já que poderia dançar sem se preocupar com o microfone na mão. Por incrível que pareça, ela não estava nervosa. Ensaiou tanto com o Sr. Hayes que, a fez ficar tão segura assim, era uma coisa que, até agora, só sentia pelos pais. Confiança. Melanie, confiava cegamente em Matthew. E isso bastava.
* * *
— Com vocês, uma de nossas melhores atrizes acompanhada pelo nosso querido professor: Melanie Foxier e Matthew Hayes... — A jovem podia sentir o desprezo na voz da Ana, mesmo estando na coxia. Os figurantes estavam em seus lugares, só esperando a professora Still acabar o monólogo entediante. Matthew observava Melanie, que estava do outro lado, junto com as meninas. — Espero que gostem, You're the one that I want! — Finalizou, sorrindo forçando e esbarrando propositalmente na sua "ameaça". O homem revirou os olhos com a cena infantil que a mulher acabou de provocar. Pena que não poderia fazer nada, parado ali.
A música começou, Matthew virou, fingindo conversar com o grupo de alunos. Melanie, entrou, sendo seguida pelas garotas, dava graças a Deus por a megera da Ana não ter tido a ideia de pôr um cigarro de verdade em seus lábios.
Caminhou confiante até o centro do cenário, mentalmente, lembrou-se de parabenizar o pessoal responsável, aquilo estava idêntico ao do musical. Os garotos foram ficando impressionados, um por um, até chegar em Matthew. Que só provou a sua teoria de que, sim. Melanie estava muito, mais muito gostosa com aquela calça e blusa apertadas, nem querendo mencionar a jaqueta n***a.
— Sandy?! — Não precisava fingir a surpresa, desde o momento que pregou seus olhos depois que ela saiu daquele provador, sabia que estava perdido. Ela só sorriu, estalando a língua de um jeito estupidamente sensual.
— Fala aí, garanhão — não precisou forçar suas cordas vocais. Saiu naturalmente, como se realmente fosse assim no cotidiano. Ela ficou um pouco desconfortável em tragar aquele cigarro apagado. A batida da música realmente começou, fazendo a plateia se ajeitar nas cadeiras, se preparando para o número. Matthew lançou um último sorriso para Melanie, antes de entrar no personagem...
— I got chills, they're multiplyin... (Estou com calafrios/ E eles estão aumentando) — A menina quase que demonstrou a surpresa quando ouviu a voz grossa de Matthew ecoar, já que tinham ensaiado dublando tudo. —And I'm losin... the controoool... (E eu estou perdendo o controle) — Já o mais velho, admitia mentalmente ter bebido uma dose antes da peça, só para rebolar sem culpa. E foi isso que fez, enquanto tirava o casaco do time da Blue Demons, estava sentindo um prazer descomunal em reproduzir um dos seus musicais favoritos com a sua aluna predileta. Não que vá afirmar isso em voz alta. O grito das alunas mais atiradas quando Matthew mostrou os braços com músculos definidos, fez Melanie entortar a boca, com um pouco de ciúme e, para provocar, retirou sua jaqueta, deixando o decote a mostra. Ele deu alguns passos e ela admirou o seu rebolado, com vontade de sorrir mas, reprimiu.— 'Cause the poweer... you're suplyin' (Porque o poder/Que você está liberando) — Matthew realmente estava cantando o que sentia, ali, naquela roupa e naquele lugar, sua aluna mais que querida estava lhe provocando arrepios deliciosos. Sem se acanhar jogou o casaco para a plateia, escutando mais gritos. — It's electrifyin'! (É eletrizante!) — Exclamou, fingindo tomar um choque e caiu no chão, aos pés de Melanie, que olhou para as colegas, pedindo instrução.
A jovem jogou o pseudo-cigarro no chão, pisando no mesmo, não que vá confirmar isso em alto som, mas estava adorando a imagem de Matthew aos seus pés. Quando acabou de pisar, lhe deu um chute leve no peito e começou a cantar.
— You better shape up... 'Cause I need man... (É melhor se cuidar.... Porque eu preciso de um homem) — Virou-se, sentindo a presença dele em suas costas. Prontamente virou, pondo a mão no ombro de Matthew, que fez uma careta bonitinha, enquanto ia para trás. — And my heart is set on you... (E meu coração só pensa em você) — Aproximou um pouco seu rosto, o mais velho admirou-a por alguns instantes, antes de segui-la quando se virou novamente. — You better shape up, you better understaaand... ( É melhor se cuidar, é melhor entender...) — Melanie cantava bem, sua voz conseguia soar por todo auditório quase sem nenhuma falha.
— ...To my heart I must be trueee. (Devo ser honesta comigo mesma) - Virou-se, fazendo um biquinho. -Nothin' left, nothin' left for me to do. (Não me resta, não me resta nada a fazer) — Ela e Matthew, dessa vez, cantaram juntos e seguiram assim — You're the one that want, o, o, oo, honey! (Você é a única que eu quero, o o oh, querida!) — A jovem correu pelo cenário, subindo em um tipo de escadinha. Ele caiu de joelhos novamente, dando uma bela olhada na b***a da garota, que rebolava e cantava ainda junto com ele. Melanie estava quase dando risadas com a performance do professor, o mesmo deitou na escada, sem descolar os olhares. — The one I need, Oh, yes indeed... (É o que eu preciso, sem dúvida alguma) — Chamou Matthew com o dedo e entrou em outra parte do cenário, uma casinha de espelhos antiga. Agora sim, ela se sentia como a Sandy.
Era a parte que ela amava.
— If you're filleeed... with affection... (Se você estiver, cheio de afeto) — Ele observou a garota desfilar, enquanto subia os degraus. — ... You're too shy... To conveeeey. (Mas for tímido para dizer) — Melanie perdeu um pouco do fôlego quando encarou os olhos azuis de Matthew, o azul não estava cristalino. Parecia ter escurecido, enquanto ele se aproximava dela, agora encostada na parede. — Mediate in my direction... (Medite em minha direção) — Esperou ele estar perto o suficiente para quase sentirem a respiração um do outro e acariciou suas próprias coxas, — Feel your way. (Ache o caminho)
— Uaaaaaah! — Matthew gritou, pulando os degraus. Fazendo a plateia rir. Melanie se permitiu soltar uma risadinha baixa, ergueu a cabeça caminhando. Ele veio correndo atrás dela. — I better shape up, cause you need man. (Tenho de me cuidar, porque você quer um homem)
— I need man... (Eu quero um homem..) — Respondeu, Melanie, voltando seu corpo de frente para o dele. Andou, dançando e tentando lembrar dos passos que tanto haviam ensaiado. — Who can keep me satisfy... (Que possa me manter satisfeita) — Se aproximou um pouco e voltou a andar para o lado oposto. Dessa vez, subindo mais um pouco na estrutura do cenário.
— I better shape up, If I'm gonna proveee... (Tenho de me cuidar, se eu vou provar) — E Matthew foi atrás dela novamente e as pessoas riram do jogo de gato e rato que estavam fazendo.
— You better prove... (É melhor você provar) — Ele riu, quando Melanie balançou o ombro e foi para sua frente, alternando os lado e dançando, sem deixar de olhá-lo. —...That my faith is justified. (Que eu não estou enganada)
— Are you sure? (Você tem certeza) — Matthew perguntou, cantando e os dois se fitaram sorrindo.
— Yes, I'm sure down deep in side. (Sim, eu tenho certeza absoluta) — Cantaram juntos. — You're the one that want, o o ooh, honey! (Você é a única que eu quero, o, o, oh, querida (o)!) — Voltaram a descer e repetir o mesmo verso, entraram na outra parte do cenário, sorrindo largo. — Oh, yes indeeeeed... (É o que eu preciso..) — Essa era, definitivamente a parte que Matthew amava, a jovem jogou seus braços em seus ombros e ele segurou a cintura dela. — You're the one that I want, o o ooh, honey! (Você é a única que eu quero, o, o, oh, querida (o)!) — Pôs seu joelho entre as pernas de Melanie, que ele tinha que admitir, rebolava bem. Foram repetindo até chegar nos degraus, onde se separaram e começaram a gingar e descer. Com agilidade, Matthew pulou e rodopiou enquanto cantava. Ela estava ainda em cima e quando pulou, enroscando as mãos no pescoço dele. Sentiu seu pé escorregar e consequentemente...
— LANY! — O Sr. Hayes gritou, tentando agarrá-la. Mas, já fora tarde demais.
Seu corpo havia caído no chão.
Um "oooh" uníssono foi emitido pela plateia e substituído por risadas. Muitas, de todos os presentes. Menos dos pais de Melanie, que encaravam a cena com um olhar de dó. A música cessou, Matthew estava assustado. Queria saber se ela havia se machucado, sua resposta foi dada assim que a jovem se levantou sem dificuldade alguma. Porém, com lágrimas escorrendo por todo o seu rosto. Ela saiu correndo pelo cenário, indo embora. Matthew tentou seguí-la, mas, assim que saiu do palco e desceu as escadas para fora do auditório deu de cara com Ana Still.
— É só besteira de adolescente, Matty. Deixe-a para lá... Logo vai se recuperar. Todos sabíamos que ela não tinha dom para isso.. — Sussurrou dando uma risada e tocando os braços do homem. Que, imediatamente, afastou suas mãos, sem expressar nenhum sorriso sequer. A reação dela não foi muito boa. Parecia exasperada.
— Não, Ana. Vou procurá-la. — Disse, ignorando-a falar mais alguma coisa e saiu em disparada para o único lugar que Melanie poderia estar. A biblioteca.
O caminho não foi longo. Assim que adentrou o ambiente, sentiu o ar-condicionado esfriar a sua pele suada. Passou as mãos nos fios, desmanchando o topete. Tinha que se concentrar para achá-la naquele mundo. De sessão em sessão, literatura inglesa, indiana, biologia, anatomia.... Até que um soluço foi escutado, no fim da última sessão, a exclusiva de Shakespeare. Matthew correu até lá, encontrando Melanie sentada com a cabeça entre os joelhos.
— Me deixa só, Hayes. — Sua voz m*l podia ser ouvida. Ela estava tão chateada quanto triste, nunca mais subiria em um palco novamente. Queria chorar e se trancar no quarto durante alguns meses, se afundar em livros e comer. Melanie queria ficar escondida o quanto pudesse. Mas, sabia que Matthew faria de tudo para isso não acontecer, de nenhuma forma. — Por favor... — Tentou apelar, mas não ouviu nenhum passo ser dado.
— Não chora, Lany. — Matthew sentou-se ao lado dela, em seu íntimo imaginava formas de voltar no tempo e pegá-la antes que pudesse tropeçar e cair. Antes de ficar tão constrangida e exposta. Ela levantou a cabeça, olhando fixamente para o chão acinzentado da biblioteca. Não escorriam mais lágrimas, porém, seu rosto estava avermelhado e molhado.
— "Chorar é diminuir a profundidade da dor." — A menina citou, arrancando um sorriso espontâneo do homem. Ele adorava quando ela fazia isso, assim, de surpresa. Como se tivesse uma frase de Shakespeare para cada momento de sua vida. É como se isso a consolasse. Melanie, timidamente, pegou a mão de Matthew, que se assustou com o gesto e a temperatura fria da mão dela. Mas, logo relaxou.
Sua mente atinou. Será que ela estava fazendo referência a alguma frase?
— "Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma." — Recitou, palavra por palavra. Conseguindo atrair o olhar dela, que esboçou um sorriso torto, fazendo o coração de Matthew dar um pulo e o cérebro dele alertar o quão aquela aproximação era errada e perigosa.
— Melanie? Filha? — A voz da mãe da jovem os fez soltar as mãos e se levantarem, ainda sorrindo e sentindo a tensão do momento anterior. A Sra. Foxier sorriu ao vê-los. — Que bom que cuidou da minha filha, Matthew. Fico eternamente grata, o que as pessoas fizeram foi horrível. — Soltou o ar, estendendo a mão para a garota. Que retribuiu o sorriso e segurou-a. — Vamos?
— Sim... Vá andando. — A mais velha assentiu, indo em frente no corredor cheio de livros. — Obrigado, Sr. Hayes. — Sussurrou antes de desaparecer no meio dos livros de Shakespeare.
E deixá-lo sorrindo.
* * *