Olhá-la ler já havia se tornado um hábito diário. Havia entrado em sua rotina e esperava que não saísse nem tão cedo. Quando aceitou a proposta da Blue Demons, imaginou que passaria o dia todo correndo de alunas muito animadinhas. Já que a fama da escola era essa: As jovens mais bonitas de Seattle já passaram por ela. Bem, as mais bonitas e fogosas. Se sentia enojado com os comentários esporádicos que ouvia na sala dos professores. E até na própria sala de aula. Tudo bem que agiu de forma totalmente equivocada no dia anterior.
Levá-la ao seu apartamento não tinha sido uma atitude correta e se ela falasse algo, seria demitido na hora e ainda arranjaria problemas para ela, que chegou bem depois do horário que a mãe estipulou. E depois de tudo o que aconteceu, as lágrimas, a excitação repentina e fora de controle... Vê-la agora debruçada sobre um dos livros da Biblioteca, concentrada e viajando em meio as palavras, era tão singular.
- O quê está lendo? - Melanie levou a mão ao coração, que subitamente acelerou. Não pela presença do homem, mas sim pelo susto que causou. Matthew adorava assustá-la, era de praxe. Poucas vezes, temia levar um soco por pegá-la despreparada.
- Céus, por que você tem que fazer isso sempre?! - Virou, encontrando o seu olhar castanho ao azul cristalino que a encaravam com um brilho divertido. "i****a". Sua mente gritou, como um homem tão bonito conseguia ser tão... infantil? - Um dia, você vai levar uma livrada e não vai poder reclamar!
Matthew riu, encarando-a, cruzou seus braços da forma petulante e ergueu o queixo.
Melanie ignorou o teatrinho do mais velho e fechou o livro, mostrando a capa para ele.
O pequeno príncipe. De Antoine Saint-Exupéry.
- Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. - Murmurou, sorrindo. Matthew poderia jurar que aqueles olhos marrom o enfeitiçaram. Não conseguia desviar o olhar. - Eu não me canso de lê-lo. Eu o tenho em casa, mas a versão daqui é melhor...- "A versão daqui é parecida com a original a qual não tenho condições de comprar", Melanie quis completar, mas permaneceu calada. Ainda não entendia como se aproximou tanto dele, a forma repentina que em dois meses criaram esse vínculo. Ela era amiga do tão falado na roda das garotas, o Sr. Hayes.
Ele era bonito, inteligente, porém como tudo na sua vida era complicado, ele é seu professor.
Não que admita sentir algo, só que é difícil de raciocinar quando ele está assim, muito perto.
- Então, eu sou responsável por te alimentar...- Riram juntos, Matthew sabia que ela não se afetava com as piadinha dele quando se tratava do peso. O último mês foi o bastante para observar que a garota é muito forte, se tratando de discriminação. Dentro de sala de aula, apesar do bullying que sofre, ela é conhecida por sua inteligência e simpatia. Nunca viu Melanie Foxier tratando alguém m*l. - Cadê o seu tradicional lanchinho da tarde? Você sempre trás para cá algo para comer enquanto lê...
A jovem sorriu, aproveitando um pouco a sensação de ter alguém lhe observando e estudando a ponto de saber o que faz em sua rotina. Um cotidiano que considera extremamente corriqueiro. Já iria abrir a boca para respondê-lo quando viu algo capaz de deixá-la muda.
Sua "colega" olhava a cena com curiosidade. Até ela, Melanie, olharia, se estivesse em outra posição e menos assustada. Analisando a imagem, seu professor estava sentado em cima da mesa, perto o bastante para falar cara a cara com ela, sorrindo largamente e exibindo os olhos azuis cristalinos para aluna. A dita cuja que todos dizem ser o xodó do Sr. Hayes. E eles estavam rindo e conversando sobre livros...
Não é nada muito, ham... Que possa ser considerado malicioso. Certo?
Matthew notou que a pouca cor que existia no rosto de Melanie sumiu, como se estivesse tido uma queda de pressão ou visto um fantasma. Seu cenho franziu, tentando decifrar o quê estava acontecendo com a garota. Os olhos castanhos estavam meio arregalados, como se tivesse visto um fantasma...
- O-oi, Suzan. - Ela gaguejou, lançando um olhar discreto de advertência a Matthew, que saltou como um gato, indo parar bem longe de Melanie. Coçando a garganta e mexendo no cabelo, a jovem tentou convencê-lo. - O que faz aqui?
Matthew olhava a cena com a garganta seca, sabia que aquela garota era uma das colegas da Mel, porém, não confiava nenhum pouquinho nela. Sorriu amarelo, mexendo em algumas pilhas de livros, tentando disfarçar que tinha assustado com a aparição repentina.
- Só vim te avisar que a professora do coral disse que, se você não representar a Sandy no musical Grease, vai te dar um zero. - Deu de ombros, sem tirar os olhos de Matthew. Deixando-o até um pouco desconfortável. O que passou rápido quando escutou Melanie praguejar alto.
Ela havia lhe dito o quão irritante a Sra. Ana Still estava conseguindo ser, principalmente com ela.
Ele sabia o porquê da implicância, a queda que a professora bonitona tinha por ele, fez surgir ciúmes sem fundamento, que foram imediatamente relacionados a Melanie.
- Droga, eu avisei a ela que não queria participar dessa peça! - Matthew observou a jovem se levantar. Sua irritação estava quase palpável. Se ela fosse falar com a diaba loira (apelido carinhoso que dera mentalmente para a mulher em seu auge de imaturidade) desse jeito, provavelmente levaria uma bela suspensão que iria sujar sua impecável ficha.
Sem faltas, sem notas abaixo de 8,0.
Na sua matéria mesmo, ela enfeitava a caderneta com vários pontos e média 10, não por ser sua preferida, - pois ele era um dos homens mais chatos quando o assunto eram suas aulas -mas sim, por mérito próprio.
Olhou para os lados, vendo que a menina de recados já se fora.
Matthew, pôs-se na frente da garota, fazendo-a bufar alto e tentar empurrá-lo.
- Dá pra sair da frente? Tenho um escândalo para fazer...
- Daqui você não sai. Ainda mais com fumaça saindo das narinas...
Melanie se permitiu, por apenas alguns milésimos, dar uma risada. Coisa que mais fazia quando estava com Matthew.
Já o mais velho, tentou fazer a maior carranca possível, cruzando os braços e até enrugando as sobrancelhas. Falhando em esconder o quão feliz ficava quando escutava aquela risadinha, por mais estranha que ela fosse.
- Não vou dizer que vou falar com a Ana e fazê-la mudá-la de ideia, pois você sabe que isso é praticamente impossível. - Reviraram os olhos ao mesmo tempo. Ele era conhecido por ser exigente e irredutível, mas era um dos melhores professores, apesar de todos os apelidos de "Sr. Gelo" e etc. O que não era mentira, mas a Ana passava dos limites. E, infelizmente, sua nota pesava na ficha de Melanie, já que ela tinha algumas aulas de instrumento. -Mas, posso tentar usar meu belo charme e flertar com a Srta. Still até ela mudar de ideia... - Piscou, maroto, erguendo as sobrancelhas diversas vezes, brincando como um adolescente.
Queria ele poder ter o prazer da companhia de alguém como Melanie na sua época escolar, seriam inseparáveis. Talvez, a química até decorresse par algo mais sério... Meu Deus, que tipo de pensamento é esse?
Melanie riu de um jeito gostoso e espontâneo. Porque era assim que reagia a companhia dele, se sentia ela mesma. Sem esteriótipos, sem rótulos. Um pouco mais relaxada, soltou o ar. Matthew observou tudo de perto, com um sorriso que não cabia no rosto. Era ótimo vê-la com a cabeça mais fria.
- Agora, minha cara dama. - Fez uma reverência, puxando a cadeira para ela sentar. Melanie sentou, ainda sem conseguir parar de rir de toda aquela pompa digna de um romance da Jane Austen. -Se me permitir, tenho um assunto pendente para resolver... Continue se debulhando e aproveitando a leitura do seu livro. - Falou, já saindo e deixando a menina com um belo sorriso no rosto. E se perguntando mentalemente, o que fez para merecer um amigo tão bom.
***
Matthew.
Ao sair daquela sala, ele se perguntou o que realmente iria dizer a professora obcecada. Ele estava a poucos meses ali, mas Ana parecia disposta a tornar o resto da estadia do substituto um verdadeiro martírio. Pena que Matthew não ligava para as investidas dela, só que mexer com a sua aluna predileta era golpe baixo. Os ciúmes sem fundamento da maluca estavam passando dos limites.
Grease era um dos musicais mais perfeitos que já existiu. Aquela trivialidade, as músicas, o roteiro... Ele era um completo amante desse musical e de outros. Melanie também era, já tinha compartilhado isso com ele. Mas tinha dito que não iria de jeito nenhum, não gostava de cantar em público e sentia-se na responsabilidade de acabar estragando algo que amava muito.
Ele bateu na porta da sala, dando uma olhada no corredor repleto de alunos, conversando e rindo, afinal era a hora do almoço. Havia até um casal se beijando de forma bastante... Animada. Adolescentes. Infelizmente, já fora assim e não se orgulhava muito disso.
- Matt! - a mulher saudou de forma afetada e ele prendeu com todas as forças, a vontade de revirar os olhos com aquela voz meio miada que Ana fez. - Entre! - ele obedeceu, exibindo um sorriso amarelo. - No que posso te ajudar?
A sala da professora era metodicamente organizada, até porque, ela era uma das coordenadoras do projeto de música que Melanie participava. As pastas de arquivo coloridas, a mesa com post it e anotações por tópicos, ela conseguia ultrapassar a mania de controle que Matthew tinha.
- Não gostaria de me meter nesse assunto, mas preciso...
Ele não precisou continuar, os grandes olhos verdes se reviraram e Ana sentou-se, irritada, na sua enorme cadeira. Caso ela tivesse um olhar que queimasse, Matthew já estaria morto.
- Você é um professor temporário de Literatura, Matthew. - o tom despontou frieza. - Se isso for em relação ao papel que impus a sua pupila, sinto muito, estou irredutível. E outra, infelizmente, vamos ter que fazer uma adaptação do musical, pois quando eu disse quem seria a "Sandy", nenhum garoto quis se habilitar a fazer o Danny. Você sabe, por ela ser meio... Redonda... - Ana não se deu o trabalho de esconder o sorriso que se formou nos lábios e isso só provou ainda mais para o Matthew quem ela era de verdade.
Uma víbora.
Com a raiva fervendo em suas veias, o sangue borbulhando, ele teve que se controlar para não falar nenhuma besteira. Até porque, precisava desse emprego para continuar vendo a Melanie constantemente. Se acostumou com a risada estranha e vício por literatura, com as afinidades...
Tanto que não pensou, só falou:
- Eu farei o Danny. Participei de alguns musicais na minha época de colegial, não vejo m*l em participar agora - disse da mesma maneira resoluta e firme, cruzando os braços.
Ana ficou pálida e completamente perplexa, encarando-o.
- Não creio que isso sej...
- A senhorita acabou de falar que os adolescentes imaturos rejeitaram o papel pela aparência da Melanie e que também não pensa em reaver sua decisão, então, - fitou o relógio, suspirando - Não tenho nada para fazer a noite, já que estou de férias da outra Universidade, acho melhor começar a ensaiar com a Melanie.
A professora se levantou, talvez para tentar fazê-lo mudar de ideia, mas ele nunca o faria.
- Matthe...
Ele sorriu, dessa vez de modo sincero, agradecendo mentalmente por tudo isso.
- Boa tarde, Srta. Still.