Para as leitoras que estão "perdidas", no capítulo anterior, eu pulei o período de algumas semanas — oito, para ser exata —, por isso a relação e amizade dos dois está tão aflorada. Senão, o livro acabaria por ficar muito extenso e ainda há muita água para rolar...
Então, vamos lá!
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— Eu nunca diria que você cozinha bem assim — Matthew até tentou falar, mas as palavras saíram mais como um gemido maravilhado. Depois do "m*l entendido" que o fizera correr para o banheiro, explodindo de constrangimento, Melanie tinha se apossado da cozinha, colocado uma música alta e feito uma das lasanhas mais gostosas que ele já havia provado.
Empoleirada no balcão, ela permitiu se maravilhar um pouco com a beleza do mais velho. Ele parecia tão concentrado e deliciado com a comida, que seria insanidade não se deslumbrar. Os fios mais longos, os lábios rosados.
— Por que a literatura? — soltou, sem pensar. Queria saber o que tanto havia o motivado, além do sonho de querer ser advogado. — Tudo bem que eu sei que o pré requisito antes de fazer qualquer curso de Direito ou Medicina, é ter um bacharelado antes... Mas, porquê a Literatura?
Matthew parou, colocando o talher de volta no prato e a observou bem. Aquela era uma pergunta boa. Por que ele tinha escolhido, em meio a tantas opções, a Literatura.
— Acho que pelo alento que os livros me trouxeram durante a adolescência e infância conturbada que eu tive — confessou baixo. Ele sabia que a realidade de Melanie era um pouco diferente, pois, enquanto ele sofreu com comodidade e dinheiro, ela m*l pode se dar o luxo de gastar com os livros. — Eu queria estudar e entender o porquê e como as palavras conseguiam ter todo esse poder de confortar ou até de machucar...
Ela aquiesceu, entendendo.
— Também acho interessante... O modo em que Shakespeare consegue traduzir todo o sentimento em algumas frases... — ao contrário dele, Melanie não comia. A garota tinha o péssimo hábito de que, quando cozinha, ela não consegue comer. Talvez pelo fato de passar a maioria do tempo na cozinha, beliscando. — "Sabemos o que somos, mas não sabemos o que podemos ser"... Essa frase dele é tão cheia de significado... É como se ele nos mostrasse que, por mais resolutos estivermos sobre quem somos, ainda assim, pode ser mutável.
Matthew não sabia se estava maravilhado com a comida ou com a inteligência e sensibilidade singular que Melanie exibia sem qualquer pretensão. Ela o lembrava da sua amiga e antiga professora da Blue Devils. Jessy havia conseguido moldar a garota de um jeito tão particular que era impressionante de se observar.
— Você realmente ama Shakespeare — ele sorriu.
Ela abanou a mão.
— Gosto da literatura em geral, só tenho um affair a mais ao belo William — piscou de modo maroto. O professor riu e suspirou, comendo mais um pedaço da lasanha — Sobre o que aconteceu antes...
Ele se engasgou, tomando um gole do suco e evitando o olhar castanho da garota.
— Você está muito vermelho, tenta respirar — Melanie resmungou — Só queria dizer que nem eu lembro o que aconteceu — abriu um sorriso gigante, mas por dentro, ela sabia que iria ser bem difícil esquecer isso. — Ok?
— Também não lembro — o mais velho asssoviou e os dois começaram a rir, compartilhando uma piada eterna. — Você tem um bom gosto em relação a lingeries para uma garota de dezessete anos.
— É difícil conseguir peças boas para mim, considerando o preço e o meu tamanho. Minha tia os compra, então o gosto é sempre mais adulto — olhou para os próprios s***s, a renda do sutiã vermelho escapava da regata branca. — E eu também gosto. Me dar um ar mais maduro...
— Maduro até demais — Matthew pigarreou e resolveu se levantar para colocar a louça no lavador. — Vamos para o sofá, tem uma surpresa para você no congelador. — ele murmurou e gargalhou quando a garota saltou e correu para abrir a enorme geladeira.
— SORVETE DE FRUTAS VERMELHAS COM CALDA! — ela berrou, agarrada com o pote e quase o derrubando para pegar duas colheres e correr para a espaçosa sala de estar do profesacsor, que ria do comportamento infantil da menina e da sua bipolaridade momentânea. Hora ela citava Shakespeare com propriedade e, outra, surtava por causa de um sorvete.
Melanie se jogou no sofá e gemeu ao tomar uma colherada do sorvete. Ela sabia que, às vezes, falava demais, então não tinha a menor consciência de quê ele poderia ter prestado atenção quando ela contou que não era uma das pessoas mais chegadas em chocolate. Porém, quando o assunto eram frutas vermelhas, ela chorava de emoção.
— Esse sorvete é caro — resmungou, vendo o mais velho enxugar as mãos e sentar-se ao seu lado — Não deveria gastar tanto comigo. Me sinto m*l. — franziu o cenho.
— Eu gosto de gastar com você. Você me aguenta mesmo quando todos os alunos me chamam de chato...
— Você só é exigente.
Ele ergueu as sobrancelhas, tomando uma colherada do sorvete.
— Tudo bem, tem uma tendência meio narcisista e gosta de pôr pressão. — ela deu de ombros. — Mas eu gosto. Acho que professores bons gostam de resultados, até porque se esforçaram pra aprender aquilo que estão ensinando.
— Seu pai, ele...
A garota imediatamente encolheu os ombros.
— Provavelmente está enchendo a cara agora — Melanie se adiantou, suspirando. Seria raro uma sexta-feira ou sábado em que seu pai ficasse quieto em casa. — Ele me trouxe para escola, foi trabalhar e deve ter emendado para um happy hour.
— Ele é um bom pai?
Ela acenou.
— Eu o amo. Ele me trata bem, me ama e morre de ciúmes de mim — sorriu fraco — Mas, é um péssimo marido. Ele gasta a maioria do dinheiro que ganha com bebida e amigos. Não pensa muito no amanhã...
— Por isso você vai começar a trabalhar?
— Yep — tomou mais uma colherada do sorvete — Preciso pensar no meu futuro.
— O meu pai era mau — ele soltou baixo — Morreu há alguns anos.
— Te batia?
Matthew travou o maxilar, apenas aquiescendo levemente, sem querer entrar em detalhes.
— Minha mãe me criou praticamente só. Ergueu seu negócio do nada e agora é uma das maiores investidoras de Seattle — lembrou da sua adorável mãe, imponente nos terninhos caros e sorriso calculado. — Ela trabalha muito.
— Imagino — Melanie ergueu as sobrancelhas. — Mas você ainda tem aquela política do...
— O que é dela, é dela e o que é meu, é meu?" — perguntou. — Sim, tenho. Eu sou filho dela, não um parasita que vai sugar o dinheiro. Prefiro as minhas coisas suadas.
— Você é um ser admirável, Sr. Hayes.
— E você uma criatura estranha que detonou todo o sorvete sozinha! — brincou, já que ele também havia comido. — Não compro mais. — ela lhe deu língua, meneando a cabeça. — Ah, lembrei! Meu amigo chega semana que vem, ele irá dar aula de Educação Física para vocês!
Melanie fez uma careta.
Era óbvio que a garota não era lá muito fã de exercícios.
— Quem?
— Gabriel Leader, ele faz faculdade de Direito comigo. — o homem sorriu, lembrando-se do amigo. — Espero que você se deem bem. O Gabe é um cara bom e extremamente simpático. Dá para desfazer essa careta? Não sei porque odeia atividade física...
— Não vejo necessidade em ficar me movendo para um lado e outro, suar e ficar fedendo a toa.
— Você é chata, Srta. Foxier.
Ela revirou os olhos.
— Não mais que você, Sr. Hayes.
Ele riu.
— Vamos, vou te levar para casa antes que me contagie com esse extremo bom humor.