Aléssio Romano,
O caminho de volta para a mansão parecia interminável. O silêncio dentro do carro era sufocante, e por mais que eu tentasse me distrair com qualquer coisa, meus pensamentos voltavam sempre para o mesmo ponto: Bianca. Ela estava mudando, e cada vez mais parecia seguir um caminho que eu não conseguia controlar.
Vito dirigia calmamente, com a expressão séria e concentrada, como sempre. Eu sabia que ele notava as mudanças em mim, a irritação que vinha crescendo, mas ele era o tipo de homem que não fazia perguntas a menos que fosse necessário. Era uma das qualidades que eu mais apreciava nele. Lealdade e silêncio quando necessário.
Mas, naquele momento, Vito decidiu quebrar o silêncio.
— Sei que o sentimento com o qual está lutando é difícil, senhor — começou, sua voz baixa, mas firme. — Parece que não consegue ter o controle.
Olhei para ele, sem entender muito bem aonde ele queria chegar.
— Seja claro, Vito — respondi, tentando esconder minha irritação.
Ele me olhou pelo retrovisor, seus olhos encontrando os meus por um instante antes de voltar sua atenção para a estrada.
— O que estou tentando dizer, senhor, é que seria bom começar a aceitar o que sente — ele continuou, sua voz cautelosa. — Talvez seja a hora de tomar uma atitude e encurralar a senhorita Bianca.
Franzi o cenho, sem gostar da forma como ele se referia à situação.
— Do que exatamente você está falando? — perguntei, minha voz carregada de desconfiança.
Vito suspirou levemente, como se estivesse escolhendo suas palavras com cuidado.
— Estou falando de propor casamento, senhor — ele disse, de forma direta. — Se não aceitar o que sente, vai perdê-la. O senhor está apaixonado, e se não fizer algo a respeito, Enzo vai levá-la embora. O garoto está claramente apaixonado por ela, deu para perceber.
A menção de Enzo fez meu sangue ferver, mas me mantive calmo por fora. O que Vito estava dizendo era absurdo, e eu não queria admitir nem a mínima possibilidade de que ele estivesse certo.
— Ela está mudando, Vito — respondi, desviando o olhar para a janela, observando a cidade passar. — Eu não queria colocá-la no perigo que é a minha vida. Além disso, sou muito mais velho que ela.
Houve um silêncio antes de Vito falar novamente, e, dessa vez, sua voz soou mais suave, quase como a de um amigo.
— O amor não tem idade, senhor — ele respondeu, sem desviar o olhar da estrada. — Além de ser seu consigliere, sou seu amigo. E quero o seu bem. Por isso, estou lhe dizendo: faça o que estou dizendo para não se arrepender depois.
As palavras de Vito ecoaram em minha mente, deixando um gosto amargo. Eu sempre soube que ele era um homem observador, alguém que notava detalhes que os outros ignoravam. Mas, dessa vez, ele parecia ter tocado em algo que eu não queria admitir nem para mim mesmo.
— Eu não estou apaixonado, Vito — retruquei de forma automática, mas minha voz soava mais como uma negação do que como uma afirmação.
Vito riu suavemente, um som raro vindo dele.
— Com todo respeito, senhor, o senhor está mentindo para si mesmo — disse, sem desviar o olhar da estrada. — Se não fosse apaixonado, não estaria tão incomodado com Enzo, e não ficaria tão furioso por não ter mais o controle sobre a senhorita Bianca. O senhor sabe disso. Foi até ela na escola, algo que nunca faria, era ir atrás de uma mulher.
Olhei para ele, sentindo a raiva borbulhar dentro de mim, mas não consegui encontrar palavras para rebater. Ele estava certo, e admitir isso era como engolir um veneno.
A verdade era que eu estava perdendo Bianca, e não sabia como reagir a isso. Eu sempre fui o homem que tinha todas as respostas, o controle sobre cada situação. Mas agora, parecia que o próprio chão estava ruindo sob meus pés, e eu não conseguia encontrar uma solução.
— Vito — comecei, minha voz soando mais frágil do que eu gostaria. — Se eu seguir o que está dizendo e pedir Bianca em casamento, estarei prendendo-a a uma vida de riscos e perigos. A minha vida não é segura, você sabe disso.
Vito assentiu, mas havia algo em seu olhar que demonstrava compreensão.
— Senhor, com todo o respeito — ele começou, a voz calma e ponderada. — O mundo lá fora também não é seguro. A diferença é que, ao lado do senhor, ela estará protegida, e terá alguém que se importa de verdade. E o senhor tem todo o poder e influência para mantê-la segura quando quiser.
Suspirei profundamente, sentindo um peso enorme sobre meus ombros. Vito falava como se fosse fácil, como se bastasse fazer uma escolha e tudo se resolveria. Mas eu sabia que o mundo não era tão simples.
— E se eu não for suficiente para ela? — murmurei, mais para mim mesmo do que para ele. — E se, ao tentar protegê-la, eu acabar machucando-a ainda mais?
Vito ficou em silêncio por um momento, ponderando minhas palavras.
— O senhor é um homem poderoso, mas também é humano. Não pode prever tudo, nem proteger todos o tempo todo. O que se pode fazer é tomar a decisão certa agora, antes que seja tarde demais.
Quando chegamos à mansão, o silêncio voltou a tomar conta do ambiente. Eu estava perdido em meus próprios pensamentos, tentando processar tudo o que Vito havia dito. Bianca estava mudando, e eu estava tentando segurá-la com as mãos atadas, sem admitir para mim mesmo o que realmente sentia.
Eu tinha uma escolha a fazer. Poderia continuar fingindo que o controle era mais importante do que meus sentimentos, ou poderia admitir que estava perdendo Bianca e arriscar tudo por ela.
— Vito, vou pensar no que você disse.
Ele assentiu em silêncio, saindo do carro e fechando a porta com um cuidado quase cerimonial. Observei enquanto ele se afastava, sentindo o peso das suas palavras pressionando meu peito.
Enquanto subia para o meu quarto, uma única pergunta martelava em minha mente: Eu estava disposto a arriscar tudo por ela? Porque se Vito estava certo, e eu estava apaixonado, então cada segundo que passava sem agir era um passo mais perto de perdê-la para sempre.