Bianca Santoro,
Eu estava furiosa. Andava apressada, as palavras de Aléssio ainda ecoando em minha mente. "Só estou preocupado", ele disse, como se fosse uma justificativa para aparecer na escola e me encarar como se eu tivesse feito algo errado. Eu esperava outra coisa dele, talvez um pedido de desculpas, uma explicação. Mas tudo o que recebi foi aquela frase patética.
— Só pode ser brincadeira, aquele filho da mãe vir aqui só para dizer que está preocupado? — murmurei para mim mesma, enquanto apressava o passo. — Eu estava esperando ele me pedir, no mínimo, desculpas por me levar até o inferno com a boca dele, as pegadas e o que ele vem me dizer? É que está querendo me proteger? Dane-se proteção.
Caminhei rapidamente até o carro, onde o segurança que Aléssio havia colocado para me seguir estava à espera. Entrei no banco de trás sem dizer uma palavra, meus pensamentos girando em círculos enquanto o carro nos levava de volta para a mansão.
Assim que cheguei, saí do carro e caminhei direto para o meu quarto. Cada passo era impulsionado pela raiva, minha respiração pesada com cada lembrança daquela conversa. Quando entrei no corredor, parei de repente ao ver Aléssio saindo do quarto dele. Ele estava perfeitamente arrumado, e seu cabelo molhado indicava que havia tomado um banho. O contraste entre minha frustração e sua aparência impecável só aumentou minha irritação.
Toquei a maçaneta do meu quarto, pronta para me trancar e evitar qualquer outra conversa.
— Quero falar um assunto importante com você — Aléssio disse, sua voz firme.
Me virei lentamente, tentando manter o controle da situação.
— Já não falou o suficiente? — rebati, sem esconder o sarcasmo na minha voz.
— Não — respondeu ele, sem hesitar.
Abri a porta, decidida a encerrar aquela conversa ali mesmo, mas quando tentei fechá-la, sua mão impediu o movimento. O calor da raiva começou a subir dentro de mim. Ele não sabia a hora de parar.
Relutante, tentei empurrar a porta, mas sua força me superou facilmente. Em um movimento rápido, ele me puxou, e antes que eu pudesse reagir, me vi sendo derrubada na cama. Aléssio estava por cima de mim, sua expressão séria, e eu não conseguia mais conter minha raiva. Minha mão se moveu por instinto, e o tapa ecoou no quarto silencioso. Sim, meti o tapa na face dele.
O rosto dele endureceu, seu maxilar travado enquanto absorvia o impacto. Ele segurou meus pulsos, prendendo minhas mãos acima da minha cabeça, e seus olhos fixaram-se nos meus com uma intensidade que me desafiava a fazer qualquer outro movimento.
— Não ouse a me bater novamente, Bianca — ele disse, sua voz baixa e ameaçadora. — Ou não vai gostar do que posso fazer com você.
Eu o encarei, sem piscar, minha respiração ofegante e o corpo tenso. Minha raiva estava borbulhando, e ao mesmo tempo, uma onda de adrenalina fazia minha pele formigar.
— O que você vai fazer? — desafiei, minha voz carregada de ironia.
Os olhos de Aléssio desceram lentamente dos meus olhos para meus lábios, e antes que eu pudesse reagir, ele me beijou. O toque dos seus lábios foi firme, decidido, como se ele quisesse provar algo para mim — ou para ele mesmo. Senti meu corpo se enrijecer por um momento, mas algo na forma como ele me segurava, como seus dedos entrelaçavam-se nos meus enquanto soltava minhas mãos, me fez baixar a guarda por um segundo.
O beijo foi inesperado e intenso, e não consegui evitar a resposta que meu corpo dava. Minha mente gritava para me afastar, para lutar contra o que estava acontecendo, mas, de alguma forma, eu estava paralisada. Minhas mãos foram liberadas, mas ao invés de empurrá-lo, eu as deixei pairar no ar, incertas.
O beijo se tornou mais profundo, e senti um calor estranho se espalhar pelo meu corpo, um misto de raiva, frustração e algo mais. Algo que eu não queria admitir.
— Para — sussurrei, minha voz falhando entre os lábios dele.
Aléssio se afastou lentamente, seus olhos ainda fixos nos meus. Ele parecia tão confuso quanto eu. Ficamos ali, em silêncio, respirando pesadamente, como se ambos tentássemos encontrar um sentido para o que havia acabado de acontecer.
— Por que está fazendo isso? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas ela soava frágil, como se eu estivesse prestes a desmoronar.
— Porque você me desafia o tempo todo, Bianca — ele respondeu, sua voz ainda baixa, mas carregada de um sentimento que eu não conseguia decifrar. — E porque eu não consigo mais ignorar o que sinto, certo?
Aquelas palavras me atingiram como um soco. Por um momento, não consegui dizer nada. Eu não sabia como processar o que ele estava dizendo, e, de alguma forma, o olhar de Aléssio parecia tão vulnerável quanto o meu.
— Isso não é uma desculpa — murmurei, tentando recuperar minha compostura. — Você acha que pode me beijar toda vez que estiver irritado?
Ele soltou um suspiro profundo, seus olhos desviando por um momento antes de voltarem para os meus.
— Não é sobre estar irritado — ele disse, sua voz agora mais suave. — É sobre o fato de que eu não consigo mais ficar longe de você. E eu sei que, de alguma forma, você sente o mesmo, não minta.
Meu coração parecia dar um salto, e eu lutei contra o desejo de admitir que ele estava certo. Parte de mim sabia que estava, mas a outra parte ainda queria negar, ainda queria se proteger.
— Isso é um erro — eu sussurrei, mais para mim mesma do que para ele.
— Talvez — ele respondeu, um pequeno sorriso se formando em seus lábios. — Mas às vezes, os erros são o único caminho certo a seguir.
Olhei para ele, sentindo um misto de raiva e algo mais. Algo que eu não queria nomear. Aléssio me deixava confusa, perdida entre o que era certo e o que era errado, e eu odiava isso.
— Saia daqui — pedi, minha voz soando mais firme do que eu esperava.
Ele hesitou por um momento, mas se levantou lentamente, ainda sem desviar o olhar.
— Vou sair, mas essa conversa ainda não acabou.
Observei enquanto ele deixava o quarto, sentindo um nó na garganta e um vazio estranho dentro de mim. As palavras dele ainda ecoavam, e eu sabia que ele estava certo sobre uma coisa: essa conversa ainda não tinha acabado. Mas eu também sabia que continuar seria como abrir uma porta para algo que eu não tinha certeza se estava pronta para enfrentar.
Fechei os olhos, tentando controlar minha respiração. Por mais que eu quisesse negar, eu estava louca por ele, e eu não sabia como lidar com isso.
Caminhei para cima e para baixo no meu quarto, sentindo aquele calor infernal subir pelo meu corpo, e a garganta estava seca.