Capítulo 37

1349 Palavras
Aléssio Romano, Eu estava arrumando a cama, concentrado na tarefa como se aquilo pudesse trazer um pouco de ordem para o caos que estava dentro de mim. Os lençóis estavam todos bagunçados, e mexer neles me dava um falso senso de controle, como se arrumando a cama eu pudesse arrumar minha própria mente. Peguei os panos sujos e coloquei no cesto para lavar. Bianca estava em silêncio, se vestindo, e eu sentia o peso do olhar dela sobre mim. O ambiente parecia carregado. Era impossível ignorar o que tínhamos acabado de fazer, e a confusão em minha cabeça só aumentava. A pergunta dela veio sem aviso: — Você está arrependido? Parei o que estava fazendo. A pergunta me atingiu em cheio. O silêncio que se seguiu foi denso; eu podia sentir a tensão crescendo no quarto. Virei-me lentamente, tentando encontrar a melhor maneira de responder. — Não é arrependimento — falei, escolhendo as palavras com cuidado. — É só... uma sensação de que fiz algo errado. O rosto dela ficou sério, e percebi que as minhas palavras a tinham atingido de alguma forma. Ela esperou por mais, mas parecia que eu não estava conseguindo dar a resposta que ela queria ouvir. Eu odiava esse sentimento. Eu queria ela mais do que a minha própria vida, e depois sentia a horrível sensação de que fiz algo errado, que cometi um crime, e talvez eu tenha mesmo cometido. — Por que você está tão calado? — Bianca continuou, sua voz soando um pouco mais firme. — Parece indiferente... como se isso não significasse nada para você. Suspirei. Olhei para ela por um momento, e tomei coragem para ser sincero, mesmo que minhas palavras não fossem o que ela esperava. — Bianca, eu... — comecei, mas tive que parar para escolher as palavras certas. — Eu sou muito mais velho que você. Eu tenho quase idade para ser seu pai. Quando tirei você das ruas, minha intenção era cuidar de você, proteger, fazer de você uma mulher forte e independente. Eu queria te ajudar a ter um futuro, e não pensei que as coisas tomariam esse rumo. Em nenhum momento te olhei como mulher, e muito menos quero te meter na minha vida bagunçada. Ela ficou em silêncio, absorvendo o que eu dizia, enquanto eu tentava manter a calma e não demonstrar o quão difícil era falar sobre isso. — E agora? — ela perguntou, a voz mais baixa. — O que mudou? — O que mudou é que, por mais que eu tente me convencer do contrário, o que sinto por você é confuso. É errado porque você ainda é uma menina, está crescendo, e eu deveria ser alguém para te orientar, e não... — minha voz falhou por um segundo. — Eu deveria ser alguém para te guiar, e não fazer isso. Me aproximei dela, e segurei seu rosto gentilmente, olhando em seus olhos. Ela estava tentando entender, mas eu via a dor começando a se formar em seu olhar. — Eu só quero te ver crescer e ser alguém melhor, Bianca. — continuei. — Quero que você tenha opções na vida, quero que possa ser livre para escolher. Eu não quero ser alguém que tira suas oportunidades ou te coloca em uma situação de dependência... ou de dor. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela tentou manter a firmeza. — O que você quer dizer com isso, Aléssio? — ela perguntou, a voz embargada. — Deixa eu ver se entendi... depois que você tira a minha virgindade, é agora que você vem me dizer tudo isso? A pergunta dela foi direta, e me senti encurralado. Não havia uma resposta fácil, e quanto mais eu tentava justificar, pior parecia. — Não é assim, Bianca, tentei explicar. — Eu não planejei que as coisas tomassem esse rumo. Aconteceu, e agora estou tentando lidar com as consequências. Não é que eu não queira você... é só que... — Parei, sentindo o peso do que estava prestes a dizer. Ela enxugou uma lágrima teimosa que escorreu pelo rosto, a frustração começando a tomar conta de sua expressão. — Você se arrepende? — ela perguntou novamente, com uma voz quase rouca. — Eu não me arrependo de estar com você, admiti. — Mas me sinto responsável por ter feito você passar por isso de uma forma que não deveria. Eu sou responsável por você, e isso torna tudo mais complicado. Bianca balançou a cabeça, os olhos fixos em mim como se estivesse tentando encontrar algum tipo de verdade escondida nas minhas palavras. — Então o que foi tudo isso para você? — ela perguntou, sua voz agora soando mais desafiadora. — Uma lição? Uma experiência para me mostrar algo? O que você está tentando provar? Tem a ver com seu maldito contrato? Não, porque até agora pouco seus movimentos, seus beijos, carícias, me mostraram outra coisa. — Ela enxugou as lágrimas. — Posso ser uma merda de menina de 17 anos, como você disse, mas não sou burra. Me senti perdido, como se não houvesse mais nada que eu pudesse dizer para consertar a situação. O silêncio se estendeu por um instante, e eu percebi que estava cometendo o erro de não responder de imediato. — Bianca... — comecei, mas ela me interrompeu. — Quer saber? Vai se ferrar, senhor Aléssio Romano — ela disse, a raiva substituindo qualquer outra emoção. — Você diz que quer me proteger, mas tudo o que fez foi me deixar confusa e me jogar para longe. Como você acha que eu me sinto agora? Me sinto usada, como se eu fosse qualquer coisa descartável. Tentei me aproximar dela novamente, mas ela recuou. — Por favor, me escuta... — eu insisti. — Não, chega — ela gritou, sua voz firme e cheia de raiva. — Você me fez acreditar em algo, e agora quer me tratar como se eu fosse uma criança que cometeu um erro. Você é um canalha, covarde. Tem medo de assumir o que sente. — Eu só quero que você tenha a chance de escolher, sem influências, sem pressões minhas, ou distração. Não quero ser um peso na sua vida. Como eu disse, quero te ver terminar seus estudos, suas aulas de etiqueta e ser alguém melhor do que já é amanhã. Bianca riu com desdém, mas seus olhos estavam cheios de dor. — Influências? Pressões? Distração? — ela repetiu, incrédula. — Você fez mais do que influenciar, Aléssio. Você me fez acreditar que estava ali por mim, que eu podia confiar em você. E agora você age como se eu fosse só um problema para você resolver? Eu me deixei levar pelo maldito sentimento que estava começando a criar por você, para depois vir dizer na minha cara tudo isso. Minhas palavras falharam, e por um momento, só o que restou foi o olhar de desilusão dela. A raiva que eu via em seus olhos era diferente de todas as outras vezes. Era uma mágoa mais profunda, como se algo tivesse se quebrado de uma forma irreparável. — Esse é o problema das meninas de hoje. Se deixam se deslumbrar por palavras, rostos bonitos e promessas. Ela levantou a mão antes que eu pudesse reagir, e o tapa ecoou pelo quarto. Meu rosto ardeu com o impacto, mas a dor física era mínima comparada ao peso da realidade que estava caindo sobre nós dois. Bianca estava ofegante, como se o tapa tivesse sido uma liberação de tudo o que estava guardando. Eu a encarei, sem saber o que dizer, sem saber como consertar o que havia falado sem pensar. — Eu... — tentei falar, mas ela balançou a cabeça, me interrompendo. — Vai se f***r, Aléssio — ela disse, sua voz baixa. Hesitei por um segundo, tentando encontrar algo para dizer, mas as palavras não vieram. Tudo parecia ter desmoronado, e eu não sabia mais como prosseguir naquela conversa. Ela simplesmente saiu do quarto, batendo a porta atrás dela. Eu pude escutar seus choros pelo corredor, e percebi que, independentemente das minhas intenções, eu havia magoado a pessoa que mais queria proteger
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