Aléssio Romano,
Acordei cedo, como de costume, mas meu corpo estava mais tenso e dolorido do que o normal. Dormir a noite inteira no sofá com Bianca ao lado não era exatamente o tipo de descanso que eu estava acostumado. Olhei para o lado, e lá estava ela, dormindo profundamente, uma mecha de cabelo sobre o rosto, as pernas jogadas de forma descuidada sobre mim. A camisola que ela usava tinha subido, revelando mais do que eu gostaria de ver logo pela manhã.
— p***a, isso logo de manhã cedo? — resmunguei, me movendo devagar para não acordá-la.
Fiquei ali, observando-a por alguns segundos. Ela parecia tão tranquila enquanto dormia, completamente diferente da garota rebelde que estava sempre me desafiando. Sem pensar muito, levei a mão até o rosto dela e tirei a mecha de cabelo que cobria seus olhos. Ela nem se mexeu, continuava imersa em seu sono.
Eu me permiti fitar seu rosto por mais alguns segundos, percebendo um lado dela que eu raramente via. A respiração dela era calma, o rosto relaxado, como se os problemas do mundo não existissem enquanto ela dormia. Era quase... pacífico. Mas, claro, aquela sensação foi rapidamente interrompida pelo som estridente do meu celular, me trazendo de volta à realidade.
Me levantei devagar, tentando não fazer barulho para não acordá-la. Caminhei até a mesa onde o telefone vibrava e atendi com rapidez.
— Don Rick, algum problema? — perguntei, já esperando algum contratempo.
— Aléssio, estou em Acapulco. — A voz de Don Rick era grave e direta. — Consegui descobrir onde estão as cargas de drogas desviadas. E, por incrível que pareça, Henry está envolvido. Estou esperando por você. Você é o único que pode entrar no clube dele.
Soltei um suspiro pesado. Claro que era Henry. Eu era o único que podia entrar naquele maldito clube. O problema era que não gostava nem um pouco daquele lugar, e menos ainda de Henry. Aquele canalha tinha uma queda por homens, e, para o azar dele, eu não jogava nesse time. Ele já tinha dado em cima de mim uma vez, achando que eu fosse igual a ele. Mas eu sabia jogar o jogo quando necessário, e agora, era exatamente isso que eu faria.
— Entendido. — Respondi, já formulando o plano na minha cabeça. — Sei como distrair Henry. Enquanto isso, você cuida de recuperar nossas cargas.
— Tem certeza? — Don Rick perguntou, a voz carregada de dúvida.
— Sim, tenho. Deixa comigo. Sei exatamente como tirar a atenção dele. — A ideia era clara: Henry adorava cenas eróticas, e tinha um quarto especial no clube, onde gostava de "se divertir" observando. Eu sabia como atraí-lo para esse jogo, e isso daria tempo para Rick fazer o que precisava ser feito.
— Ok, confio em você. — disse ele antes de encerrar a ligação.
Fitei o telefone e fiquei alguns segundos parado, pensando no que viria a seguir. O plano era arriscado, mas não havia outra opção. Henry precisava ser distraído, e se era isso que precisava ser feito para recuperar nossas cargas, eu faria o que fosse necessário.
Sai do quarto de Bianca, fechando a porta com cuidado para não acordá-la, e fui direto para o meu. Precisava me preparar para a viagem. Tomei um banho longo, deixando a água quente relaxar meus músculos tensos. Minha mente já estava focada no próximo passo, no que eu teria que fazer para garantir que tudo corresse conforme o planejado.
Depois de me vestir, coloquei meu terno preto impecável, ajustei a gravata e saí do quarto. No caminho para o escritório, dei algumas ordens à governanta. Ela era eficiente, sabia como lidar com as coisas sem fazer perguntas.
— Quando Bianca acordar, peça que passe no meu escritório. — ordenei. — Ah, e dispense a professora Elenice por hoje. Ela tem aula de segunda a sábado, mas hoje sábado, vou precisar da garota.
— Sim, senhor. — A governanta Lupi respondeu, já se virando para cumprir as ordens.
Continuei em direção ao escritório, minha mente dividida entre os negócios e Bianca. Aquela garota conseguia mexer comigo de uma maneira estranha, e eu ainda não sabia como lidar com isso. Precisava manter o foco no que importava, e o que importava agora era lidar com Henry e recuperar o que era nosso.
Quando entrei no escritório, meu olhar se fixou na mesa cheia de documentos e relatórios. Sentei-me e comecei a trabalhar, revisando os papéis que se acumulavam. Por mais que a situação em Acapulco fosse urgente, havia outros assuntos que precisavam da minha atenção antes de viajar.
Algumas horas se passaram, e eu estava imerso nos meus pensamentos, revisando o plano para lidar com Henry, quando houve uma batida na porta.
— Entre. — disse, sem desviar os olhos dos documentos.
A porta se abriu lentamente, e Bianca apareceu, vestida com uma roupa casual, mas claramente ainda um pouco sonolenta. Seus olhos me analisaram por um momento, e ela parecia hesitante, como se não soubesse o motivo pelo qual eu a havia chamado.
— Você mandou me chamar? — perguntou ela, se aproximando da mesa.
— Sim. — Respondi, levantando o olhar para ela. — Hoje não tem aula. É sábado, e achei que você merecia um descanso.
Ela pareceu surpresa, talvez até um pouco aliviada.
— Obrigada... eu acho. — disse, cruzando os braços de leve.
— Mas eu preciso conversar com você sobre algo. — continuei, minha voz séria. — Vou viajar para Acapulco por alguns dias. Preciso resolver um problema de negócios, e você virá comigo.
Ela me olhou, os olhos estreitos.
— Viajar com você? negócios? o que você está aprontando dessa vez?
Eu sorri de leve, sabendo que essa era a reação esperada.
— Sente-se. — disse, apontando para a cadeira em frente à minha mesa.
Ela hesitou por um segundo, mas obedeceu, sentando-se de forma desconfiada.
— O que está acontecendo? Por que você precisa de mim?
— Vamos para Acapulco. — comecei, sem rodeios. — Precisamos resolver um problema com um cliente chamado Henry, e você vai me ajudar. Estaremos fazendo uma encenação diante dele. Preciso que você se deixe guiar e confie em mim, entendeu?
Ela franziu a testa, claramente confusa.
— Encenação? Que tipo de encenação?
— Henry é um homem... peculiar. — continuei, escolhendo as palavras com cuidado. — Ele adora assistir cenas provocantes. Nosso plano é distraí-lo enquanto meus homens recuperam algo importante. Então, vamos fazer ele acreditar que somos um casal se divertindo.
Ela arregalou os olhos, claramente chocada.
— Você tá brincando, né?
— Não estou. — respondi, sério. — É assim que vamos tirar a atenção dele. Mas você só precisa confiar em mim e deixar que eu guie a situação. Você consegue fazer isso?
Ela respirou fundo, me olhando com desconfiança, mas no fundo, sabia que não tinha muita escolha.
— Tá bom, eu faço. — disse, relutante. — Mas você me deve uma por isso.
— Considerando o que eu já fiz por você, acho que você que me deve, e bastante — respondi, com um sorriso de canto.
Ela bufou, mas se levantou e começou a andar para a porta.
— Vai ser divertido. — disse, de forma sarcástica, antes de sair.
Eu a observei ir, sabendo que essa viagem seria muito mais complicada do que eu imaginava que fosse. Estava me apegando aquela mulher problemática, era algo que eu não queria.