Aléssio Romano,
A sala de reuniões estava silenciosa, exceto pelo som do ar-condicionado zumbindo no canto. Ao redor da mesa de mármore polida, homens de terno esperavam para que o Don Rick finalmente continuasse a tratar do assunto dos carregamentos, suas expressões sérias. Já fazia a mais ou menos 1 hora de reunião.
Don Rick estava sentado na ponta da mesa. Ele era um dos mais antigos aliados da família, mas também era o mais cauteloso. Sabia como medir cada palavra e gesto, o que o tornava um aliado perigoso, mas essencial.
— Os últimos carregamentos chegaram, mas houve um problema com a alfândega no porto. — A voz de Don Rick soava como um trovão suave, mas com peso de comando. — Precisamos ter certeza de que os "contatos" estão fazendo o que foi combinado. Se não, vamos perder uma boa quantia.
— Já esperava por isso. — Minha voz era calma, mas firme. — Eu tinha algumas suspeitas de que alguém estava tentando desviar a atenção da alfândega, talvez nos testar. Já mandei uma equipe cuidar da situação. Em breve saberemos se é apenas um problema temporário ou algo mais... permanente.
Rick assentiu, com um brilho calculado no olhar.
— Bom saber que você já está à frente disso. Mas temos mais um ponto. — Ele olhou para um dos homens ao seu lado, que imediatamente passou-lhe um envelope grosso. — Quero que veja isso.
Abri o envelope e retirei os documentos. Eram relatórios detalhados sobre as finanças de alguns dos nossos principais contatos no Leste Europeu. Os números batiam, mas havia algo fora do lugar. Percebi rapidamente que estavam desviando pequenas quantias em cada transação. Pequenas o suficiente para passar despercebido — exceto para olhos treinados.
— Alguém está nos roubando. — Falei, encarando Rick diretamente. — Mas estão sendo inteligentes. Pequenas quantias, o suficiente para não levantar suspeitas. O problema é que, no longo prazo, essas pequenas quantias se somam a algo muito maior.
Rick assentiu novamente, agora com uma expressão mais sombria.
— Exatamente. Quero que isso seja resolvido o mais rápido possível. Essas brechas podem acabar custando mais do que estamos dispostos a perder.
— Deixe isso comigo. — Fechei o envelope, determinado. — Cuidarei disso.
A reunião continuou por mais alguns minutos, com mais detalhes sobre as operações, o fluxo de dinheiro e a logística dos próximos carregamentos.
Quando a reunião terminou, levantei-me, estendi a mão para Rick mais uma vez, e nos despedimos formalmente. Enquanto saía da sala, vi Vito esperando do lado de fora, o rosto sério como de costume. Algo estava errado.
— O que houve? — Perguntei, ao ver sua expressão tensa.
— O doutor ligou. — Ele começou, tentando ser direto. — Bianca fugiu do hospital. Saiu sem que ninguém a visse.
— Droga, garota astuta. — Respondi, massageando as têmporas. É claro que ela fugiria. Não era o tipo de pessoa que aceitava ajuda, mesmo que precisasse dela. Essa garota era teimosa, e isso a colocaria em apuros mais cedo ou mais tarde.
— Ela saiu sem aviso. Ninguém viu por onde foi. — Vito continuou. — O hospital tentou entrar em contato com você diretamente, mas eu disse que cuidaria de avisar.
Suspirei, deixando a irritação crescer por um momento, antes de me recompor. Ela precisava ser encontrada, não só porque era perigoso ela estar sozinha naquelas condições, mas também porque... algo dentro de mim não me deixava simplesmente ignorar o que estava acontecendo com ela.
— Conseguiu o dossiê que te pedi? — Mudei o foco por um momento, precisando das informações que solicitei dias antes.
— Sim, senhor. Está no carro. — Vito respondeu rapidamente, sempre eficiente.
— Ótimo, então vamos. — Disse enquanto caminhávamos juntos em direção ao carro.
Entramos no carro, e Vito me passou o dossiê. Abri o arquivo, observando a foto de Bianca presa no topo dos documentos. Seu rosto era o mesmo que eu já conhecia: o olhar duro e desafiador, cheio de dor e raiva. Eu folheei as páginas rapidamente, absorvendo cada detalhe.
Bianca Santoro, 18 anos. Abandonada pelos pais aos sete, depois que seu irmão mais novo morreu em um afogamento. A culpa pela morte do irmão foi jogada sobre ela, e os pais, incapazes de lidar com o luto, a entregaram à tia. Desde então, sua vida virou um ciclo de caos: expulsões de escolas, pequenos furtos e envolvimento com gente de má reputação.
O documento também incluía o endereço da casa onde ela vivia com a tia. Um lugar decadente, tão caótico quanto sua vida. Cada detalhe do arquivo revelava um pedaço da dor que ela carregava, e isso me incomodava mais do que eu gostaria de admitir.
— Ela fugiu porque acha que pode lidar com tudo sozinha. — Murmurei, fechando o dossiê e passando a mão pelo rosto, frustrado. — Mas ela não pode. Não dessa vez.
Virei-me para Vito.
— Vamos até o endereço dela. Não vou deixar essa garota continuar se destruindo. — Minha voz era firme. Eu sabia que precisava resolver isso pessoalmente. — Vou trazê-la comigo.
— Mais senhor.
— É uma ordem, Vito.
— Sim senhor.
O carro saiu pelas ruas da cidade, as luzes passando rapidamente pelas janelas. O caminho até a casa de Bianca era mais curto do que eu esperava, mas o lugar era exatamente como imaginei: uma casa simples, desgastada pelo tempo, com uma cerca enferrujada e janelas sujas.
— Espere aqui — disse a Vito, enquanto saía do carro.
Caminhei até a porta da casa. Bati na porta com firmeza, e logo ouvi passos pesados do outro lado. A porta foi aberta por uma mulher de meia-idade, com o olhar amargo e cansado. Deve ser a tia, pensei.
— Posso ajudar? — Ela perguntou com uma voz áspera, olhando-me de cima a baixo.
— Estou aqui para falar com Bianca. — Respondi, direto ao ponto.
— Não vai me dizer, que essa moleca aprontou mais uma — disse ela me olhando.
— Não é nada disso, tenho uma proposta.
Ela me olhou com desdém, mas deu um passo para o lado, permitindo minha entrada. Quando entrei, o cheiro de cigarro e álcool me atingiu, e o ambiente era tão desorganizado quanto eu imaginava. Bianca estava sentada na cadeira da cozinha, e seus olhos se arregalaram ao me ver.
— O que você está fazendo aqui? — Ela perguntou, a voz cheia de incredulidade e raiva, enquanto vinha até mim.
— Garota, fale direito com as visitas, ou juro que te…. — Disse a tia dela, eu a interrompi com a mão, e ela se calou.
— Te procurando. — Respondi calmamente, olhando para ela — Porque não ficou no hospital, não estava bem ainda.
Ela veio até mim, mas seus movimentos ainda eram um pouco hesitantes, fruto do acidente e da fuga apressada do hospital. Ela chegou mais perto de mim, perto o suficiente para me encarar nos olhos.
— Eu não preciso de você me dizendo o que fazer. — Ela rebateu, cruzando os braços defensivamente. — Eu sei lidar com a minha própria vida.
— É mesmo? — Minha voz foi firme, mas sem elevar o tom. — Porque, até agora, parece que você está se afundando cada vez mais. Você acha que fugir vai resolver seus problemas? Só eu posso te ajudar, então você escolhe.
Ela me encarou, desafiadora, mas sem resposta imediata. Por mais que tentasse manter a pose de durona, estava claro que Bianca estava em um ponto de ruptura. O peso de sua vida a estava esmagando, e, de alguma forma, eu sabia que não podia simplesmente deixá-la afundar sozinha.
— Como eu disse, você não sabe nada sobre mim — disse ela, finalmente quebrando o silêncio, com uma voz mais baixa, quase um sussurro. — Por tanto, me deixe em paz.
— Eu sei mais do que você imagina, Bianca. E, por isso, estou aqui. — Dei um passo à frente, olhando-a nos olhos. — Você não vira comigo agora, mais chegará o momento em que vai me pedir ajuda.
Ela piscou, confusa e irritada ao mesmo tempo, mas não disse mais nada. Sabia que estava presa entre a fuga e a realidade.
— Você vai me procurar, e nesse dia vou lembrá-la do que me disse. Vai me implorar de joelhos para eu te ajudar.
Ela riu.
— Você se acha não é? Vamos ver quem vai pedir ajuda a quem. — desafiou, e eu gosto de desafios.
— Veremos.
Ajeitei os botões da minha camisa e sai daquela casa. Entrei no carro e seguimos estrada para a mansão.
Vito me olhou através do retrovisor.
— Ela não quis vir, senhor?
— Não, mais virá. Não se preocupe. Tudo no seu tempo, eu sei esperar.