(Ethan)
Ao sair da casa mais tarde, sabendo que ela estava em segurança, o desejo ainda queimava em mim. Eu sabia que aquela noite mudaria tudo.
Depois de garantir que Ella estava segura e descansando na cabana, senti o peso da transformação tomar conta de mim. Eu precisava da caçada, do ar livre, do frescor da noite para aliviar o calor crescente, a tensão insuportável que eu sentia desde que a vi sob a luz do bar.
Saí para a escuridão, deixando a cabana para trás. Cada músculo do meu corpo parecia vibrar com a necessidade de liberdade, de extravasar a energia que Ella, sem saber, alimentava. Sob a luz pálida da lua, me permiti soltar as rédeas, transformando-me no lobo que eu realmente era.
A transição foi rápida e poderosa; em segundos, minhas garras tocaram o chão frio da floresta, meu olfato ampliado captando tudo ao meu redor com uma nitidez enlouquecedora. O vento soprava, e, mesmo a quilômetros de distância, o cheiro de Ella ainda pairava, doce e tentador. Um rosnado escapou de mim. Eu não conseguia me afastar dela, e quanto mais tentava, mais intenso se tornava o desejo de tê-la por perto, de protegê-la.
Enquanto estava transformado, correndo pela floresta eu me recordava da noite em que eu e Caelan fugimos da alcateia. Enquanto descansávamos em lugar seguro em meio às árvores fechadas da floresta. O silêncio entre nós dois era pesado, cada estalo dos galhos e farfalhar das folhas ao redor aumentava a tensão. Caelan me olhou com um misto de preocupação e lealdade inabalável.
— Você sabe que isso não vai durar muito — Caelan começou, olhando para o céu noturno. — A alcateia já deve estar atrás de você. Eles não vão parar até que… — Ele hesitou.
— Até que eu esteja morto, você quer dizer — eu completei, com um tom amargo. Com raiva soquei uma árvore próxima, o golpe ecoando na floresta. — Eu sei disso.
Caelan deu um passo à frente, colocando a mão no meu ombro, buscando me calmar.
— Escuta, existe uma chance. Uma que eles não vão ousar desafiar, por mais que queiram sua cabeça.
— Do que você está falando, Caelan?
— Se você se prender a uma parceira no cio… eles não poderão matá-lo. É uma regra antiga. O vínculo com uma parceira fixa torna você intocável para a alcateia. Ele deu um sorriso leve. — Uma proteção que nem eles podem quebrar.
Eu senti o peso da proposta. Era um caminho que eu nunca tinha considerado, uma medida extrema. E ainda havia um problema muito maior.
— Eu sou prometido a outra — disse, minha voz voz quase em um sussurro. — A alcateia me deu uma companheira, e romper esse compromisso seria o mesmo que desafiá-los diretamente.
Caelan bufou, com uma expressão de irritação. — Promessas vazias e tradições ultrapassadas, Ethan. Olha para onde isso te trouxe. Eles nunca te trataram como um alfa, e mesmo sendo exilado, ainda jogam a culpa em você por tudo. — Ele respirou fundo e olhou em meus olhos. — A verdade é que se quer viver, você precisa encontrar alguém que confie em você… alguém que esteja disposta a aceitar o acordo.
Encarei o chão, as palavras de Caelan girando em minha mente. — E se eu encontrasse essa pessoa, eu a colocaria em perigo. Eles podem não me matar, mas ela… eles não pensariam duas vezes.
— Então escolha alguém forte. Alguém que consiga aguentar isso e que saiba no que está se metendo. — Caelan suspirou. — Eu estou com você até o fim, mas você precisa encontrar essa parceira. Ou vai correr para sempre.
Não demorou para Caelan aparecer entre as árvores, tirando-me do meu devaneio. Ele sempre sabia onde me encontrar. Em sua forma de lobo, ele era um guerreiro incansável, com olhos perspicazes que pareciam atravessar o escuro. Ele se aproximou, e, sem uma palavra, começamos a caçar juntos, algo que sempre foi natural para nós.
Depois de alguns minutos, ele transformou-se de volta à forma humana e inclinou a cabeça, observando-me com um sorriso de canto.
— Está diferente, Ethan — comentou, com um brilho astuto no olhar. — Desde que a vi ao seu lado, aquela humana, Ella, acho que é assim que ela se chama. Ela está... mexendo com você.
Eu soltei um rosnado, ignorando sua provocação, mas transformei-me de volta à forma humana para encará-lo. Sabia que Caelan percebia o efeito que Ella tinha sobre mim, mas não estava pronto para admitir.
— Ela é apenas parte de um acordo, Caelan, — respondi com firmeza, tentando convencer a nós dois. — E vai me ajudar a resolver a bagunça que o clã me deixou.
Caelan soltou uma risada baixa, cruzando os braços.
— Parte de um acordo, sim... Mas você não acha que está indo um pouco além? — Ele me olhou, os olhos dançando com diversão. — Desde que começamos a caçar, eu nunca vi você agir assim por ninguém. Ela é humana, Ethan. E ainda assim, você não para de protegê-la, de procurar desculpas para ficar por perto. Isso não é normal.
Seu comentário perfurou qualquer fachada que eu tentava manter. Por mais que eu quisesse negar, o lobo dentro de mim sentia algo diferente em relação a Ella. Era uma necessidade, uma força, algo que me fazia querer reivindicá-la, mantê-la segura.
— Ela mexe comigo, sim, — admiti, olhando para a escuridão da floresta. — Mas não posso me permitir isso. Ela é humana, e meu instinto de lobo vai acabar destruindo-a. Ela nem imagina o tipo de fera que sou.
Caelan sorriu, com um olhar compreensivo e ao mesmo tempo provocador.
— Talvez seja tarde demais para evitar isso. Ela já está no seu caminho, e, pelo que vejo, você já tomou sua decisão, mesmo que não queira admitir. Só... cuidado, Ethan. Humanos são frágeis, e a proximidade pode quebrá-la ou piorar a sua situação com a alcateia.
Ponderei suas palavras, mas parte de mim se recusava a pensar em Ella como frágil. Ela era resiliente, uma lutadora, carregando um fardo sozinho que muitos não suportariam. Isso só tornava a necessidade de protegê-la ainda mais feroz.
— Vou ser cuidadoso, Caelan. Mas ela precisa de mim agora, — respondi, olhando para o céu estrelado, como se a noite pudesse dar alguma resposta. — Eu não posso deixá-la.
Caelan assentiu, entendendo o peso do que eu dizia. O silêncio caiu entre nós, mas agora era um silêncio compartilhado, cheio de promessas e segredos não ditos. Eu sabia que a cada dia com Ella, as coisas mudariam para mim. Ela já estava se tornando uma parte de mim, e o lobo, ao que parecia, já havia feito sua escolha.