Capítulo 09

1447 Palavras
(Ella) Acordei com o corpo afundado numa cama que definitivamente não era a minha. A coberta suave, o travesseiro macio e o quarto silencioso me fizeram hesitar antes de abrir os olhos por completo. Será que... será que ele me trouxe até aqui? Levantei um pouco a cabeça e meus olhos o encontraram: Ethan estava deitado no chão, acima de um tapete de pelos espessos, sem camisa. Sua respiração era ritmada, calma. O peito largo subia e descia devagar, o rosto sereno e a pele que refletia a luz suave do amanhecer. Fiquei olhando por mais tempo do que gostaria de admitir, hipnotizada. O abdome bem definido, mostrava os gominhos bem tonificados. Ele estava somente com uma calça de moletom e um volume consideravelmente grande estava ali, eu enguli em seco, imaginando como seria vê-lo totalmente nu. O calor subiu ao meu rosto, e sacudi a cabeça, me obrigando a desviar os olhos. Com todo o cuidado, levantei, passei por ele de mansinho, mas pude sentir um calor inumano irradiar dele, com pressa fui para a cozinha. Minha ideia era preparar algo simples como agradecimento, mas, ao abrir a geladeira, tive uma surpresa: carne. Muita carne. Praticamente tudo era carne. Sorri um pouco – fazia sentido para um cara como ele. Decidi improvisar e fazer algo decente. O cheiro de café e bacon é delicioso, me dando água na boca, e, por um momento, até esqueci a noite complicada que tivemos. Procurei pelos talheres e outros utensílios na gaveta, tentando manter a mente ocupada enquanto o cheiro do café se espalhava pela casa. Mas, à medida que organizava a mesa, não pude deixar de sentir uma presença ao meu redor. Algo pesado no ar, uma energia densa que me fez levantar a cabeça. Ethan estava lá, encostado na porta da cozinha, observando-me em silêncio. Seus olhos estavam fixos em mim, profundos e impenetráveis. Eu poderia sentir o peso de seu olhar, mesmo sem vê-lo por completo. Ele não se mexia. Não fazia um som sequer. Só me observava. Minha garganta ficou seca e a respiração se fez mais curta. Por que ele estava me olhando assim? Tentei me concentrar nas coisas à minha frente, mas a sensação de estar sendo analisada não saía. Respiro fundo, tentando desviar a atenção do que me incomodava. Quando finalmente me virei para ele, meu rosto provavelmente estava vermelho de vergonha. — Eu estou só preparando o café como forma de agradecimento — falei, a voz um pouco mais baixa do que o normal, como se ele pudesse ler todos os meus pensamentos. Ele não respondeu. Não se moveu, não fez nada. Só ficou ali, me observando. Sua presença me deixava mais sem graça, como se ele estivesse esperando algo de mim, algo que eu não sabia o que era. Fui colocando as coisas na mesa com as mãos tremendo um pouco. O tempo parecia arrastar. Não sabia por que ele não dizia nada. Talvez esperasse que eu dissesse mais? O que ele queria de mim? Suspirei, tentando manter a calma. Minha mente corria em todas as direções, me perguntando se ele pretendia ir embora logo ou se iria continuar ali, me olhando como um espectador. Eu só queria fazer uma refeição simples, e ele estava me fazendo sentir... exposta. Quando finalmente terminei, olhei para ele, ainda de pé, no mesmo lugar. Ele não parecia se incomodar com o tempo que passou. Eu estava prestes a falar novamente, quando ele raspou a garganta, o som grave ecoando no silêncio. — Eu... preciso sair para trabalhar. — As palavras saíram quase como um sussurro, como se eu estivesse tentando me justificar por algo. Queria sair dali, mas sabia que tinha algo a mais que não podia ignorar. Ainda em silêncio, ele caminhou até a mesa e se sentou. Os olhos dele nunca saíram de mim, como se eu fosse a única coisa em que ele estava interessado naquele momento. Eu não sabia o que mais dizer, então a pergunta dele me pegou de surpresa. — Você pensou no acordo? — perguntou ele, sem mais rodeios, sem suavizar a intensidade em sua voz. Meu coração acelerou. Eu ainda não sabia o que pensar sobre tudo isso. O que ele queria de mim? Por que ele estava fazendo isso? Eu me senti estranhamente desconfortável com a presença dele, como se ele tivesse uma força magnética que me puxava, sem que eu pudesse fazer nada a respeito. Sua energia era irrespirável, e eu não conseguia desviar os olhos dele. Cada movimento que ele fazia parecia ser amplificado, como se tudo o que ele tocasse tivesse um peso maior, até o simples ato de se sentar à mesa. Era como se ele dominasse o espaço com sua presença. Com um suspiro, me sentei também. Tentei manter a compostura, mas o desconforto ainda me consumia. Peguei a xícara de café, tentando me distrair, mas não pude deixar de notar o quanto ele estava com fome. Não apenas com fome de comida, mas com fome de... algo mais. Seus olhos brilhavam com intensidade enquanto ele observava a comida, e ele atacou a refeição com uma rapidez quase selvagem. Como se fosse algo vital para ele. Isso me deixou mais nervosa do que eu gostaria de admitir. Fiquei em silêncio, mexendo meu café enquanto ele terminava de comer. A tensão no ar era densa, e, por um momento, pensei que ele fosse continuar me observando em silêncio. Mas não. Ele quebrou o silêncio novamente, a voz grave e implacável. — Você precisa de mais informações sobre o acordo, certo? — Ele falou calmamente, como se já soubesse a resposta. Eu não sabia como responder, mas sabia que precisava de mais detalhes. Precisava entender no que eu estava me metendo, mesmo que o que eu já soubesse me deixasse desconfortável. — Sim — respondi, e minha voz soou mais firme do que eu me sentia. — Eu preciso saber tudo. Ele se recostou na cadeira, sem tirar os olhos de mim, e eu senti uma pontada de ansiedade se formar no meu peito. Ele parecia estar em controle total da situação, e isso me dava calafrios. — O acordo — ele começou, com um tom que não admitia interrupções — é como um contrato. Eu preciso de uma namorada, e você será a minha. Você vai atuar como minha noiva e, em troca, vai receber uma quantia substancial de dinheiro. Milhares de dólares todo mês na sua conta bancária. Você vai me acompanhar em eventos, fazer parte da minha vida pública e se mostrar apaixonada, mesmo que não esteja. Eu respirei fundo. O que ele estava dizendo parecia surreal, mas a forma como ele falava... Tudo nele parecia tão decidido, tão controlado, como se eu não tivesse escolha. Mas, por mais que a ideia fosse repulsiva, havia algo tentador naquele acordo, algo que me fez pensar em como isso poderia mudar a minha vida. Eu não podia ignorar o que ele estava oferecendo. E isso só tornava tudo mais complicado. — E o casamento? — perguntei, o receio se refletindo em minha voz. — Você está falando de um casamento de verdade? Eu não... Eu não quero me casar de verdade, Ethan. Ele fez uma pausa, observando minha expressão, e então respondeu com um tom mais suave, mas igualmente firme. — Não. Não é um casamento real. Isso é temporário. Eu só preciso que os negócios da minha família pareçam mais... legítimos. Eles são conservadores. Eu sou um empresário e, para herdar, preciso mostrar que sou um homem sério, que tem uma esposa. Uma imagem a ser mantida. Eu queria protestar, dizer que tudo aquilo parecia um erro. Mas o que eu mais temia era ver o brilho nos olhos dele, a confiança que ele exalava. Como se já soubesse que eu não teria como recusar. — E o que mais você vai querer de mim? — Eu perguntei, já sabendo que ele ia fazer mais exigências. O simples fato de pensar nisso fazia meu estômago revirar. Ele não hesitou. — Eu não vou tocar em você da forma como você está imaginando — ele disse, como se soubesse o que passava na minha mente. — Mas você terá que deixar sua vida para trás. Vai ter que viajar comigo pelo país, se envolver nos meus compromissos, ser vista ao meu lado como minha namorada, minha futura esposa. Vai ter que abrir mão da sua liberdade. Aquelas palavras caíram como um peso em meu peito. Eu queria dizer não, queria me afastar de tudo isso, mas algo dentro de mim sabia que eu não tinha outra escolha. Por mais que a ideia me horrorizasse, a realidade da situação parecia me aprisionar.
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