Na mão direita, uma caixa preta de madeira fosca.
O cheiro dela já impregnava o ar, como se o próprio ambiente estivesse apaixonado.
Ele entrou no quarto e depositou a caixa sobre a cama com reverência, como se aquilo fosse sagrado. Abriu a tampa com cuidado e disse, com a voz baixa, carregada de promessas e pecados:
— “Isso é seu… espero que não fique com raiva.”
Dentro da caixa, roupas femininas dobradas com precisão quase doentia. Peças íntimas, Camisetas gastas que ela usava para dormir, Um casaco que ela perderá meses atrás e achou que tinha esquecido na academia, Um vestido de verão que desapareceu do varal do alojamento, Tudo ali, Cada centímetro de tecido roubado com a devoção de um homem em delírio, Um acervo de obsessão. Damien observou aquilo por um segundo antes de fechar a caixa com um leve estalo.
Ele se virou e, como um gato noturno, deslizou em direção à porta, a sombra perfeita de um predador apaixonado.
Ele a vigiava, Sempre Sabia a hora em que ela acordava, O perfume que ela usava, quando estava nervosa, O tipo de vinho que ela escondia no fundo da geladeira do dormitório. Ele colecionava mais do que roupas, colecionava partes de sua alma, pedaço por pedaço, como se montasse um altar.
Antes de descer, falou sem olhar para trás:
— “Quando estiver pronta, estarei lá embaixo esperando você… para comer alguma coisa, Está quase amanhecendo, pequena.”
E então sumiu no corredor, deixando no ar uma mistura de loucura, desejo e cuidado deturpado, como se a amasse tanto que pudesse destruí-la.
Kalie encarou a caixa com um misto de nojo e incredulidade. As roupas, que um dia pertenciam ao seu espaço seguro, agora estavam ali… num santuário macabro construído por mãos que a tocavam sem permissão, Seus olhos castanhos queimavam de fúria. Como ele ousava? Como alguém podia invadir sua i********e com tanta naturalidade?
Era como se cada peça ali gritasse que ela nunca esteve sozinha, Nunca, Ela fechou a tampa com força, engolindo a raiva. Sentia a pele arder, não só pelo banho que precisava, mas pela exposição. A sensação de estar sendo vigiada 24 horas por dia transformava o ar em vidro, difícil de respirar, difícil de existir.
Trocou-se às pressas, como quem luta contra o tempo e contra um fantasma que pode surgir atrás da porta a qualquer segundo.
O vestido leve de tecido macio parecia um disfarce, Um uniforme de sobrevivência. Com os punhos fechados e a respiração tensa, Kalie começou a vasculhar o quarto, Debaixo da cama. Atrás da cortina, Dentro dos armários, Nada, Nenhuma pista, Nenhum celular, Nenhum caminho para fuga.
Ela olhou para o espelho por um segundo, A imagem refletida era de uma mulher forte, mas acuada, Um animal selvagem cercado.
Respirou fundo, os olhos fixos para si mesma.
— “Eu tenho que fazer isso…” — murmurou. — “Ser encantadora… fazer ele abaixar a guarda… e conseguir sair daqui.”
Alisou o vestido, ajeitou os cabelos e forçou um sorriso treinado, aquele sorriso que ela usava quando precisava dominar uma sala cheia de homens que subestimavam sua inteligência.
Ela desceria como a deusa que era — não uma vítima, mas uma mulher pronta para vencer o jogo do próprio predador.