Kalie desceu os últimos degraus com cautela,
Cada passo ecoava como um aviso,
A casa era silenciosa, envolta por uma penumbra suave, A parede de vidro deixava ver o mar lá fora, as ondas calmas demais, misteriosas demais.
Na cozinha aberta, ele estava ali.
Damon, Suéter preto justo, mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços largos, veias saltadas e tatuagens que pareciam dançar a cada movimento. Ele mexia uma panela com uma mão e segurava uma caneca de café com a outra, Calmo, Firme, Quase… domesticado Mas Kalie sabia, ele era uma fera fantasiada de lar.
— Dormiu bem, princesa? — perguntou sem virar o rosto, a voz tão grave que fez o chão vibrar sob os pés dela.
Ela cruzou os braços, altiva, tentando manter o controle.
— Dormiria melhor se soubesse onde estou.
— E ainda assim desceu pra comer comigo… — ele virou levemente o rosto, os olhos mel brilhando sob a máscara preta. — Adoro isso em você, Brava mas curiosa.
Kalie estreitou os olhos.
— Estou aqui porque você me sequestrou.
— Não, pequena… — ele caminhou até a bancada com uma tigela e dois pratos. — Você está aqui porque o mundo é podre demais pra te merecer.
Ela se manteve firme, apesar do coração disparado.
— Você fala como se fosse meu herói, mas age como meu vilão.
— Talvez eu seja os dois. — ele a encarou agora, completamente. — O herói que salva… e o monstro que mata quem te ameaça.
Silêncio.
O cheiro da comida quente preenchia o ar, mas o que queimava era a tensão entre eles.
Kalie deu um passo à frente, ousada.
— E o que você quer, Damon? Além de me manter presa como um troféu?
Ele sorriu por baixo da máscara, Lentamente, Com gosto.
— Quero que você se apaixone por mim.
— Isso não vai acontecer.
— Vai sim. Porque eu conheço você mais do que qualquer um.
— Você me observa. Isso não é amor. É doença.
— Pode chamar do que quiser. Mas me diz uma coisa, princesa… — ele se aproximou, a voz baixa e quente — se fosse doença, por que sua pele arrepia quando chego perto?
Ela ficou muda por um instante. O calor dele, a presença, o magnetismo perigoso.
— Você me assusta.
— E ainda assim, está aqui. — Ele segurou um dos pratos e estendeu pra ela. — Coma, Não precisa fingir força agora, Comigo, você pode só… existir.
Ela pegou o prato com relutância.
— Isso é manipulação.
— Não, isso é cuidado.
— Cuidado doentio.
— Mesmo assim, cuidado.
Ela sentou, Ele também, Ambos na mesa de frente pro mar escuro.
Kalie o encarava como quem observa um abismo E o abismo sorria, apaixonado.
Ela viu Um reflexo discreto no metal da panela, No canto do balcão, encostado numa prateleira: uma chave E ao lado, um celular.
O mundo congelou por um segundo, Ela disfarçou, olhou para o prato, depois para ele, fingindo encanto e rendição.
— Você cozinha bem… — disse em tom suave, enquanto terminava a última garfada.
Damon sorriu de leve por trás da máscara, orgulhoso.
— Achei que merecia algo bom.
— Eu mereço mais que isso — ela respondeu, se levantando, delicada e felina. — Mereço sinceridade.
Ele ficou alerta, e recuou.
— Estou sendo sincero…
— Não com seu rosto, Nem com seu nome, Nem com suas intenções. — Kalie se aproximou, passo por passo.
Damon engoliu seco, Ela era menor, muito menor porém seu olhar… aquele olhar âmbar, quente e afiado, rasgava an alma dele por dentro.
Kalie parou diante dele, levantou a mão devagar e tocou o peito dele, firme, Um toque simples Mas para Damon, foi um raio atravessando as veias.
Ele se levantou num impulso, Ficaram frente a frente, dois metros de sombra contra um e sessenta e três de furacão.
— Kalie… — ele sussurrou, a voz rouca e falha.
Ela o empurrou devagar contra a bancada, com um olhar que misturava charme e desafio, Damon recuou sem resistência, quase hipnotizado.
Kalie se aproximou mais, Ele se curvou para ela e os dois ficaram nariz contra nariz, A respiração dele pesada, trêmula. Mesmo com a máscara, ela sentia o calor dele, o tremor no corpo, a submissão involuntária.
— Então… você quer que eu te conheça? — ela disse, o tom doce com veneno escondido.
— Quero. — Ele respondeu quase sem voz.
— Mas não mostra seu rosto?
— É perigoso.
— Pra quem? — ela sussurrou. — Pra mim… ou pra você?
Damon cerrou os punhos, A mente dele um turbilhão de coisas, Ela era tudo, Desejo, Fúria, Obsessão, Fragilidade e poder num só corpo.
— Kalie… — ele disse, quase em súplica — não brinca assim comigo.
Ela sorriu, Não de felicidade, mas de controle, Finalmente, estava virando o jogo.
E ele… Estava caindo.
A lâmina brilhou por um segundo, Um estalo seco, Um grunhido abafado.
O corpo gigante de Damon recuou, curvando-se instintivamente com o impacto. O corte não foi profundo mas o bastante para acordar cada músculo dele em dor e decepção.
Kalie correu.
O cortador de batatas caiu no chão com um tinido metálico, agora sujo de sangue.
Ela pegou a chave, Pegou o celular que estavam no balcão, Os dedos tremiam mas o olhar era feroz e Determinado. Ela Correu até a porta, Abriu com pressa, Um vento frio cortou o interior da casa, Areia n***a se ergueu como névoa.
O sol ameaçava nascer, mas ainda havia trevas.
A casa de vidro chorava silêncio e tensão.
Damon ajoelhado, o sangue escorrendo lentamente pelo suéter preto, os olhos em brasas, Não havia fúria voltada a ela, Não, Era raiva de si, Ele caiu, Ela venceu E a praia escutou os dois corações batendo em ritmos opostos.
Um pela liberdade e o Outro pelo fim da ilusão.