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1022 Palavras
Luana Narrando A noite estava tranquila, e o silêncio só é interrompido pelos sons das motos que passam a toda velocidade. Chamei o Luiz e fomos com a Alana até o "Pastel do Gordo", a maior pastelaria aqui do morro, era o tipo de lugar que sempre estava cheio, com aquele cheiro inconfundível de pastel frito no ar. Sentamos em uma das mesas e pedimos os pastéis, acompanhados de um refrigerante, a conversa estava boa, entre risadas e brincadeiras, mas não demorou muito até que o barulho das motos começasse a se aproximar. Não era nada de anormal, aqui no morro é assim, sempre tem algum grupo passando a toda, Os vapores do Sombra, como sempre, dominando a rua, Ouvimos a barulheira das motos chegando e nos ajeitamos nas cadeiras, já sabendo que o movimento da noite ia ficar mais agitado, Mas o que eu não esperava, e nem o Luiz nem a Alana, era que aqueles homens iam parar exatamente ali, na pastelaria. Eu não conheço o Sombra pessoalmente, só ouvi falar dele. Dizem por aí que ele é impiedoso, que o morro inteiro sente o peso do que ele manda fazer, e eu acreditava, sim, porque as histórias que corriam nos becos e vielas da favela falavam de coisas que ninguém queria nem imaginar, Todo mundo tem medo dele, e com razão. Sombra é sinônimo de poder, de comando, de respeito, e até de terror, dependendo do ponto de vista. Os homens entraram na pastelaria e, pelo jeito, a presença deles não era para comer pastel. Era para dar uma intimidação, para deixar claro que quem manda por ali não era o Gordo, nem os clientes, mas eles, O último homem a entrar foi o que eu vi na padaria hoje mais cedo, ele me encarou com aqueles olhos estreitos, com uma intensidade que me fez gelar por dentro. O coração bateu forte, minha respiração ficou mais curta. Não sei por que, mas alguma coisa naquela troca de olhares fez o meu corpo se arrepiar. Eu tentei disfarçar, olhar para o lado, mas a Alana percebeu na hora. Ela sempre percebe, deve ser por isso que me considero minha melhor amiga, porque sabe quando eu fico nervosa, quando algo me aflige. Ela não falou nada na hora, mas assim que ele virou as costas e se afastou, ela se inclinou na minha direção, baixinho, para que só eu a ouvisse. Alana: Amiga, de onde você e o Sombra se conhecem? Eu congelei, O suor começou a escorrer nas minhas mãos. Luana: Eu! eu não conheço ele assim tão bem, Alana - disse, tentando disfarçar a voz trêmula. Alana não pareceu muito convencida, mas não insistiu mais naquele momento, ainda bem. Eles pediram pastel e mandaram umas garotas saírem da mesa que ficava de frente para a nossa e se sentaram, as risadas e conversas enchiam a pastelaria, e quando olhei na direção deles, o Sombra estava me olhando, Peguei meu celular e fiquei de cabeça baixa, mexendo, até que o nosso pedido chegou. A gente comeu, pagamos e fomos embora, combinamos de ir pra praia amanhã, Luiz adorou a ideia, esse garoto gosta da farra. O sol já tava alto no céu quando saí do banho e fui direto para o meu guarda-roupa escolher o biquíni. Peguei um modelo azul-marinho de alças finas, com detalhes em argolas douradas na lateral da calcinha, ele realçava minha pele bronzeada e valorizava minhas curvas na medida certa, Vesti rapidamente e joguei uma saída de praia branca por cima. Luiz já estava pronto quando saí do quarto, sentado no sofá, rolando o feed do celular. Luana: Se pra ir pra escola fosse essa animação, hein? - provoquei. Luiz: Escola é chato, praia é legal - ele respondeu, sem tirar os olhos do celular. Alana chegou pouco depois e tomou café comigo. Conversamos um pouco sobre o dia, sobre como Luiz parecia outro menino quando o destino era a praia. Depois de nos despedirmos da minha avó, saímos rumo à parada de ônibus. O calor já mostrava que o dia seria perfeito para o nosso passeio. No caminho, Alana puxou um assunto que me pegou desprevenida. Alana: E aquele cara da pastelaria? Luana: Que cara? Alana: O Sombra. Luana: Eu fui ontem na padaria e ele chegou, eu nem sabia quem era, e por coincidência ele apareceu na pastelaria, e me olhou do mesmo jeito, eu juro amiga, nunca trocamos um oi. Alana: Pois é, e vou te dar um conselho, toma cuidado com ele, Ele é perigoso. Soltei uma risada sem graça e levantei minha mão, mostrando minha aliança. Luana: Pode deixar, amiga. Eu já tenho dono. Ela revirou os olhos e balançou a cabeça. Alana: Como se isso impedisse alguém de se meter na tua vida. Preferi não continuar o assunto. Assim que o ônibus chegou, embarcamos e seguimos viagem. Chegando à orla, escolhemos um lugar estratégico, pegamos um guarda-sol e nos espalhamos na areia. O vento trazia o cheiro de maresia, e o sol aquecia minha pele, Luiz já corria em direção ao mar, enquanto Alana passava protetor solar nos braços. Luana: Nada melhor do que um dia de praia pra esquecer os problemas - comentei, me deitando sobre a canga. Alana: Com certeza - ela respondeu, puxando os óculos de sol para ajeitar no rosto. O dia estava tranquilo, até que não estava mais. Meu coração congelou quando olhei para o lado e vi meu namorado sentado sob outro guarda-sol. Ele não estava sozinho. Uma mulher estava ao lado dele, e a maneira como eles estavam próximos, rindo e trocando olhares, me fez sentir um nó no estômago. O jeito como ele tocava a mão dela, como se o mundo ao redor não existisse, me fez perder o ar. Alana percebeu minha expressão e seguiu meu olhar. Alana: Luana, é o Jonas, né? Luana: É ele - murmurei, sentindo minha garganta apertar. Ela suspirou e tirou os óculos escuros. Alana: O que você vai fazer? Eu não sabia, Meus olhos ardiam, e meu peito estava pesado, uma coisa era certa, meu dia na praia tinha acabado de se transformar num pesadelo.
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