Pré-visualização gratuita Episódio 1
A enorme tela iluminava a sala, que antes estava envolta em sombras. As pesadas cortinas m*al se moviam, exceto por uma leve brisa que se insinuava entre as paredes, enquanto o repórter loiro anunciava a notícia de última hora, uma história que ele sabia de cor. Cada palavra, expressão e careta estava gravada na sua mente com tamanha clareza que, enquanto se preparava, ele as repetia, como se estivesse recitando o seu próprio discurso.
As suas mãos fortes, cobertas de tatuagens para disfarçar um pouco as cicatrizes deixadas por sua recuperação, aplicavam creme nos seus músculos peitorais bem definidos, também tatuados, assim como todo o seu torso, do pescoço aos quadris. A essa altura, ele já não conseguia se lembrar do significado de certas linhas de tinta, mas tinha certeza de que o que elas protegiam, o que elas cobriam, era a pele de um homem traído.
Aquele jato de água causou-lhe arrepios, mas diante do espelho de corpo inteiro. Aquele que sequer conseguia capturar completamente a sua estatura de quase dois metros.
Ele começou a se vestir. Elegante, como se lembrava, como lhe haviam ensinado, embora o sobrenome que carregava já não tivesse o mesmo peso de tantos anos. Ainda era um herdeiro, e das cinzas em que o seu império fora reduzido, ressurgiria. Mais forte, mais frio, mais cr*uel, mas acima de tudo, mais vingativo.
Ele virou-se ao chegar àquela parte do noticiário que lhe servia quase como um mantra, uma lembrança dos seus últimos passos, das decisões tomadas nos últimos cinco anos da sua vida, e sem hesitar, finalmente aumentou o volume.
— Os nossos correspondentes no local do desastre acabam de nos informar que os bombeiros recuperaram o corpo do herdeiro, Noctis. Disse a mulher com seriedade e rapidez. — Alessandro Noctis estava aparentemente na sala de reuniões onde, naquela mesma noite, tivera uma discussão acalorada com o pai depois que vídeos ínti*mos dele com a esposa do filho vazaram…
O maxilar do cavalheiro se contraiu.
— Especula-se que tudo foi uma armação, e que numa guerra de interesses pessoais e pelo amor de uma única mulher, o império farmacêutico Noctis foi reduzido a...
— Cinzas. Completou.
O seu olhar acinzentado, que por vezes parecia tão escuro quanto a própria noite, seguia as imagens que ele também conhecia de cor. A notícia não era recente. Afinal, seis anos atrás, ele se vira desabar naquela sala de reuniões onde uma discussão acalorada, acusações e apontamentos transformaram-se numa briga e um tiro que o deixou estendido sobre a mesa.
Ele ainda se lembrava do som do impacto, dos gritos, mas acima de tudo, lembrava-se dela. Dos cabelos loiros chicoteando quando a primeira explosão ocorreu, e depois da forma como ela foi escoltada para fora da sala pelo próprio pai, que gritava que eles tinham que correr. Ele piscou para afastar esses pensamentos, as memórias que carregava, e olhou novamente para as imagens capturadas por espectadores do lado de fora daquele império, reconhecido mundialmente por seu rápido crescimento.
A Noctis Labs surgiu como uma abordagem alternativa, combinando ingredientes naturais com pesquisa farmacêutica de ponta. A sua visão, adaptada ao mundo moderno, transformou os seus produtos numa referência global de bem-estar, acessível a todos em pouco tempo. Embora o negócio tenha nascido em Nova Jersey, onde a família Noctis investiu tudo, sua expansão para a Suíça e sua conexão com laboratórios europeus lhe conferiram o selo final de qualidade que a impulsionou ao sucesso absoluto, mantendo um crescimento exponencial ano após ano graças à sua presença eficaz nas redes sociais, as suas campanhas publicitárias e a dedicação de cada mem*bro da família, que parecia ter conquistado imenso poder da noite para o dia. Embora ninguém possa atestar isso melhor do que o único herdeiro vivo, Alessandro Noctis: a construção não aconteceu da noite para o dia, mas a destruição sim.
Bastou uma traição. A dela. A mulher que ele considerava o amor da sua vida, aquela a quem jurou amor eterno, com quem imaginava construir um futuro, expandir a sua família, criar um lar. Davina Montclair: a loira perfeita, linda e entusiasmada que se juntou à empresa da família como diretora de marketing e publicidade; aquela que o cativou com os seus olhos azuis e figura delicada, com uma sensualidade que parecia desconhecer possuir, embora às vezes a explorasse com um toque de ironia.
Quando bateram à porta, ele olhou para a tela. O prédio do laboratório em chamas dominava o primeiro plano, e num pequeno canto, sua imagem: a do homem que, não importava o quanto pagasse, jamais voltaria a ter aquela aparência. O seu maxilar contraiu-se ao ver os me*mbros da sua família abaixo: seu pai, sua madrasta, seu irmão mais novo, todos assassinados. E, finalmente, ela, a bela loira, sua esposa… e sua m*aldição.
Ele aproximou-se da porta e a abriu sem aviso. Foi recebido por um funcionário que se curvou diante dele, e então pelo homem de cabelos grisalhos que o encarou nos olhos. Ele parecia não se importar mais com aquela parte do rosto que jamais voltaria ao normal. As chamas haviam danificado a sua pele tão gravemente que ele não só perdera a visão do olho esquerdo, como m*al recuperara o formato da cabeça graças aos enxertos que recebera ao longo dos anos. Ciente do quão constrangedor era, especialmente para ele, dirigiu-se ao quarto, procurando a meia máscara prateada, que ajustou com a familiaridade de quem já se acostumara a ela.
— Diga-me, Holt.
— Nós a encontramos, senhor. Ele m*al franziu a testa, mas não se virou para olhá-lo. — Bem, temos mais informações do que esperávamos, e tudo se encaixa...
Ele sentiu um soco no peito, mas apenas cerrou os dentes.
— A leitura biométrica confirma que é ela, com a única diferença sendo...
A risada foi seca, desprovida de qualquer alegria. O silêncio instalou-se novamente, mas Holt, um dos funcionários que não só salvou a sua vida como também permaneceu ao seu lado durante aqueles anos de recuperação, o viu se aproximar da cama, onde pegou o paletó que vestia, virando-lhe as costas.
Ao se virar, revelou a elegância, a postura e a classe que Alessandro Noctis possuía, embora já não se parecesse com o homem que o funcionário conhecera.
— Uma tintura de cabelo não vai mudar a realidade. Disse ele gravemente. — É hora de trazer a minha esposa para casa... Ele umedeceu os lábios. — Que ela retorne ao infe*rno para pagar por seus pecados, um a um.