O sol m*l havia surgido quando a mansão Monteiro já estava em movimento. Empregados circulavam pelos corredores, carregando arranjos de flores, bandejas de prata e garrafas de champanhe. Era dia de mais um evento social, organizado às pressas por Beatriz.
Camila, ainda no quarto, observava o movimento pela janela. O coração batia acelerado. Desde o jantar anterior, sentia-se um alvo em exposição, e a ideia de enfrentar mais uma multidão de olhares e cochichos lhe causava náuseas.
Beatriz entrou sem bater, como de costume. Vestia-se com a elegância de sempre, um vestido verde-esmeralda que realçava seus olhos frios.
— Hoje será memorável — disse, sorrindo com malícia. — Convidei jornalistas, colunistas sociais e até uma repórter de televisão. Todos querem conhecer a nossa “história inspiradora”.
Camila empalideceu. — Jornalistas? Eu… não posso aparecer.
Beatriz a encarou como quem observa uma presa acuada. — Pode sim. E vai. É importante que o mundo saiba o quanto somos… modernos.
No final da tarde, o jardim da mansão estava transformado em um cenário de revista. Mesas com toalhas rendadas, luzes cintilantes, música suave. Convidados chegavam em carros luxuosos, e, entre eles, fotógrafos e repórteres circulavam com câmeras e blocos de anotações.
Camila usava um vestido claro, escolhido por Beatriz. Simples à primeira vista, mas justo o suficiente para destacar as curvas e a leve saliência de seu ventre.
A cada flash de câmera, sentia-se despida.
Uma repórter se aproximou, microfone em mãos. — Você é Camila, certo? — perguntou com entusiasmo. — Gostaríamos muito de ouvir sua versão. O que significa para você ser barriga de aluguel para uma família tão importante?
Camila hesitou, olhando ao redor em busca de Ricardo. Ele estava do outro lado do jardim, cercado por homens de negócios.
Beatriz, porém, surgiu atrás da repórter, incentivando com um gesto.
Camila respirou fundo. — Significa… uma oportunidade. De ajudar alguém a realizar um sonho e, ao mesmo tempo, ajudar minha própria família.
A repórter sorriu, satisfeita. — É admirável. E como é conviver diariamente com o casal Monteiro?
Camila sentiu o estômago revirar. A verdade lhe queimava na garganta, mas sabia que não podia dizê-la. — É… desafiador. Mas tenho recebido cuidados.
Beatriz, rindo discretamente, interrompeu: — Camila é praticamente parte da família.
Os flashes dispararam, eternizando a cena. Camila percebeu que não era um elogio, mas uma sentença: estava marcada publicamente como “a barriga de aluguel dos Monteiro”.
No dia seguinte, os jornais estamparam manchetes:
> “Casal Monteiro aposta em barriga de aluguel para gerar herdeiro.”
“Camila: a jovem escolhida para realizar o sonho de Beatriz e Ricardo.”
As fotos mostravam Camila sorrindo timidamente ao lado de Beatriz, como se fosse um troféu.
No café da manhã, Ricardo jogou o jornal sobre a mesa, furioso. — Isso é um circo, Beatriz! Você expôs Camila ao ridículo!
Beatriz ergueu as sobrancelhas. — Ridículo? Eu a transformei em notícia. Em símbolo. Agora todos a admiram.
Camila, em silêncio, sentia a garganta fechar. Admiração? Tudo o que lera nos comentários era julgamento: mulheres a chamando de interesseira, homens insinuando segundas intenções.
— Você sabia que eles iriam distorcer tudo — disse Ricardo, com raiva.
Beatriz deu de ombros. — Não posso controlar a imprensa. Mas posso controlar você. — E lançou um olhar cortante para Camila. — E ela.
Camila correu para o jardim, buscando ar. As palavras da imprensa ecoavam em sua mente como marteladas. “Interesseira.” “Ambiciosa.” “Vendendo o corpo.”
Ela caiu de joelhos no gramado, chorando em silêncio.
Ricardo a encontrou minutos depois, ajoelhando-se ao lado dela. — Ei, não chore. Você não é nada disso.
Camila ergueu os olhos, desesperada. — O mundo inteiro já me condenou, Ricardo! Como vou sair na rua depois disso? Como vou encarar minha própria família?
Ele segurou seu rosto entre as mãos. — Eu vou consertar isso. Eu juro.
— Não pode. — Ela balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo. — Ninguém pode.
Ricardo a abraçou, forte, como se pudesse protegê-la do mundo. Mas no fundo sabia: Beatriz havia dado um passo que mudaria tudo. Agora, Camila não era apenas prisioneira da mansão. Era prisioneira da opinião pública.
Naquela noite, Beatriz brindava sozinha com uma taça de champanhe em sua suíte. O reflexo no espelho mostrava uma mulher vitoriosa.
— Agora, querida Camila, você não tem mais para onde correr — murmurou, satisfeita. — O mundo já sabe quem você é. E eu controlo o resto.
Dias depois, as consequências começaram a aparecer.
Camila recebeu mensagens anônimas nas redes sociais: insultos, acusações, até ameaças. O celular vibrava incessantemente, e cada notificação era uma punhalada.
Beatriz, fingindo preocupação, entrou no quarto certa noite. — Está tudo bem? Vi que anda abatida…
Camila a encarou, os olhos vermelhos. — Você sabia que isso aconteceria.
Beatriz sorriu, fria. — Não seja dramática. É o preço da visibilidade. Você devia estar agradecida. Poucas têm a chance de ser tão… relevantes.
Camila se levantou, a voz tremendo. — Eu não pedi isso! Eu só queria ajudar minha família!
Beatriz se aproximou lentamente, o olhar afiado. — E está ajudando. Mas nunca se esqueça, Camila: cada decisão tem um preço. O seu é ser lembrada para sempre como a barriga de aluguel dos Monteiro.
Camila estremeceu, a respiração acelerada. Pela primeira vez, sentiu algo novo em meio ao medo: raiva.
— Um dia… — disse, baixinho, mas firme. — Um dia, você vai pagar por tudo isso.
Beatriz arqueou as sobrancelhas, surpresa. Depois riu, debochada. — Que ousadia. Vamos ver até onde sua coragem vai, querida.
E saiu, deixando o quarto mergulhado em silêncio.
Camila sentou-se na cama, as mãos trêmulas sobre o ventre. Uma chama ardia dentro dela. Não era apenas sobrevivência. Era a semente de uma luta.
Do outro lado da mansão, Ricardo confrontava Beatriz.
— Você passou de todos os limites. Ela não merece isso!
Beatriz virou-se lentamente, encarando-o. — Está se apaixonando, não é?
O silêncio dele foi a confirmação.
Beatriz sorriu, c***l. — Ótimo. Assim será ainda mais divertido ver vocês dois caírem juntos.
Naquela noite, Camila não conseguiu dormir. Olhou pela janela e viu a lua brilhando sobre o jardim. Tocou o ventre e sussurrou:
— Eu prometo… vou lutar por nós. Não importa o quanto doa.
E, pela primeira vez, não sentiu apenas medo. Sentiu força.
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