A manhã amanheceu silenciosa na mansão Monteiro. Silenciosa demais. Desde o escândalo nos jornais, o ambiente parecia carregado, como se cada parede guardasse um segredo não dito. Camila despertou cedo, incapaz de voltar a dormir. O peso do mundo parecia depositar-se sobre seus ombros.
Sentada na beira da cama, ela acariciou levemente o ventre ainda discreto. Sentiu uma onda de ternura misturada a medo. “Eu preciso ser forte… por você”, murmurou baixinho.
Mas, pela primeira vez, a força não parecia tão distante. Algo dentro dela havia mudado depois do confronto com Beatriz na noite anterior. A raiva era uma chama pequena, mas real. E essa chama queimava.
No café da manhã, Beatriz estava especialmente radiante. Usava um vestido branco impecável, o sorriso no rosto mais falso do que nunca. Ricardo entrou atrasado, com expressão sombria. Camila já estava à mesa, mexendo distraidamente no prato.
— Dormiram bem? — perguntou Beatriz, servindo-se de frutas.
— Não muito — respondeu Ricardo, seco.
Beatriz fingiu não notar a frieza. — Que pena. Eu, por outro lado, dormi como um anjo. Deve ser a sensação de dever cumprido.
Ricardo bateu os talheres na mesa. — Você expôs Camila a um m******e. Pessoas a insultam todos os dias por sua causa!
Beatriz ergueu os olhos, fria. — Ah, Ricardo… sempre tão protetor. É quase… comovente.
Camila, cansada de ser apenas espectadora, respirou fundo e encarou Beatriz pela primeira vez com firmeza. — A senhora pode até achar que me controla, mas não controla o que eu sinto.
Beatriz arqueou as sobrancelhas, surpresa com a ousadia. — Como disse?
Camila sustentou o olhar. — Eu não sou sua boneca. Não vou mais sorrir para suas câmeras nem me vestir como você manda.
O silêncio caiu pesado sobre a sala. Ricardo olhou para Camila com orgulho silencioso; Beatriz, por outro lado, estreitou os olhos como uma serpente prestes a dar o bote.
— Cuidado com a língua, menina — disse Beatriz, a voz baixa e cortante. — Está esquecendo quem paga cada mordida que coloca na boca.
Camila se levantou, a voz firme. — Dinheiro não compra dignidade.
E saiu, deixando mãe e marido em choque.
Ricardo foi atrás dela mais tarde, encontrando-a no jardim, sentada sob a sombra de uma árvore. O vento bagunçava seus cabelos, e havia lágrimas em seus olhos, mas também um brilho novo: determinação.
— Você foi corajosa — disse ele, sentando-se ao lado dela.
— Fui imprudente — corrigiu Camila. — Ela vai me fazer pagar por isso.
— Então eu pago junto. — Ricardo pegou sua mão, apertando-a com força. — Não vou deixar você enfrentar isso sozinha.
Camila o olhou, emocionada. — Por quê, Ricardo? Por que arriscar tanto?
Ele hesitou por um segundo, mas os olhos não mentiam. — Porque você importa pra mim. Mais do que deveria.
O coração dela disparou. O mundo pareceu silenciar, deixando apenas aquele instante suspenso entre os dois. Mas antes que algo mais pudesse acontecer, passos ecoaram no corredor.
Beatriz observava de longe, a expressão carregada de ódio.
Naquela noite, Beatriz trancou-se em seu escritório. Andava de um lado para o outro, o copo de vinho na mão. O confronto no café da manhã ainda ecoava em sua mente. Camila ousara enfrentá-la. Ricardo ousara defendê-la.
— Eles pensam que podem me desafiar… — murmurou.
Sentou-se à mesa e abriu a agenda. Com caneta firme, começou a rabiscar nomes. Pessoas de influência, jornalistas, conhecidos dispostos a escândalos. Se Camila queria se rebelar, Beatriz mostraria a ela o peso de enfrentar alguém com poder.
— Vamos ver quão forte você realmente é, querida — disse, o sorriso c***l se formando.
Enquanto isso, Camila tentava se recompor em seu quarto. Estava exausta, mas algo dentro dela a impedia de dormir. Pegou um caderno antigo, onde costumava escrever sonhos e pensamentos, e começou a rabiscar frases.
“Eu não sou apenas uma barriga.
Eu não sou uma sombra.
Eu não sou o espetáculo dela.
Eu sou alguém. Eu sou mãe. Eu sou vida.”
As palavras lhe deram alívio. Pela primeira vez em semanas, sentiu que ainda tinha um pedaço de si intacto.
Ricardo, inquieto, caminhava pelo jardim. Não conseguia parar de pensar na coragem de Camila, nem na fúria de Beatriz. Estava dividido entre o dever e o desejo, entre manter sua vida intacta e mergulhar em algo que poderia destruí-lo.
Quando levantou os olhos, viu Camila na varanda, observando a noite. Seus olhares se encontraram. Ele ergueu a mão, um gesto discreto, mas carregado de significado. Ela respondeu com um sorriso tímido, e naquele instante, ambos souberam: não havia mais volta.
No dia seguinte, Beatriz entrou no quarto de Camila trazendo um envelope. Jogou-o sobre a cama.
— Reconhecimento público. Uma revista importante quer fazer uma reportagem especial sobre você.
Camila olhou o envelope, desconfiada. — E se eu não quiser?
Beatriz sorriu, venenosa. — Ah, querida… você não tem escolha. Já confirmei sua presença. Amanhã virão fotógrafos e jornalistas. Prepare-se.
Camila sentiu o coração gelar. Mas, em vez de chorar, ergueu o queixo. — Então que venham.
Beatriz se surpreendeu por um segundo, mas logo riu. — Acha mesmo que pode vencer esse jogo?
— Não é um jogo — respondeu Camila, firme. — É a minha vida.
Beatriz saiu, batendo a porta. Mas por dentro, uma dúvida começava a corroer sua confiança. Camila não era mais a mesma menina assustada.
Naquela noite, Ricardo entrou no quarto de Camila em silêncio. Ela estava sentada à beira da cama, segurando o caderno com as anotações.
— O que é isso? — perguntou ele, curioso.
Camila hesitou, depois entregou-lhe o caderno. Ele leu as palavras rabiscadas, e os olhos se encheram de emoção.
— Você é incrível — disse, com sinceridade. — Beatriz pode ter todo o dinheiro do mundo, mas nunca vai ter isso. A sua força.
Camila sorriu, emocionada. — Não sei se sou forte. Só sei que não aguento mais me calar.
Ricardo tocou sua mão, o gesto delicado mas cheio de desejo contido. — Eu vou estar ao seu lado. Sempre.
Os dois se olharam longamente, o silêncio denso entre eles. O desejo era palpável, mas também o medo. Ainda não era o momento. Mas sabiam que era inevitável.
Na suíte principal, Beatriz observava tudo através de uma fresta da porta. Seus olhos ardiam de ódio.
— Querem guerra? — murmurou. — Então terão.
E assim, no coração da mansão, os destinos se entrelaçavam: a faísca da rebeldia de Camila, o amor proibido de Ricardo e a fúria vingativa de Beatriz. Uma tempestade estava prestes a explodir.