capítulo 14- Vozes silenciadas Vozes que despertam

1069 Palavras
O relógio da mansão marcava nove da manhã quando os primeiros carros começaram a estacionar diante do portão principal. Jornalistas, fotógrafos e até uma pequena equipe de TV desciam com seus equipamentos, prontos para registrar cada detalhe da vida dos Monteiro. Camila observava da janela, o coração martelando no peito. Vestia um vestido azul discreto, diferente das cores provocativas que Beatriz costumava impor. Tinha tomado essa decisão sozinha, sem pedir permissão. E esse pequeno ato já era uma forma de resistência. A porta se abriu bruscamente. Beatriz entrou, impecável como sempre, de vermelho intenso. — Que ousadia é essa? — perguntou, olhando para o vestido azul. — Eu mandei deixarem preparado o verde esmeralda. Camila respirou fundo. — Não vou usar. Este me representa melhor. Beatriz estreitou os olhos, mas manteve o sorriso frio. — Veremos se continua com essa coragem diante das câmeras. O salão principal estava transformado em cenário. Flores ornamentavam a mesa, quadros haviam sido trocados de posição para um fundo mais “sofisticado” e a equipe de filmagem ajustava luzes. Ricardo chegou elegante, mas o semblante denunciava o cansaço. Ao ver Camila de azul, seus olhos brilharam de orgulho. Um gesto simples, mas que falava mais do que mil palavras. Beatriz cumprimentou os jornalistas com falsa hospitalidade. — Estamos felizes em recebê-los. A história que vão ouvir hoje é inspiradora. Camila engoliu em seco. Inspiradora… ou humilhante? A entrevista começou com perguntas protocolares. Ricardo respondia sobre negócios, Beatriz falava da “importância de constituir família”. Tudo parecia ensaiado. Até que uma repórter se voltou para Camila. — E você, como se sente sendo escolhida para algo tão íntimo e grandioso? Beatriz apertou a mão de Camila discretamente, como quem dá ordens. Mas Camila respirou fundo e decidiu: não seria mais uma marionete. — No começo, me senti perdida — respondeu, olhando diretamente para a câmera. — As pessoas não entendem o peso disso. Acham que é apenas dinheiro, contrato… mas é muito mais. É vida. É responsabilidade. A sala ficou em silêncio por um instante. Até os jornalistas se inclinaram, interessados. Beatriz sorriu falsamente. — Claro, Camila é modesta. Sempre soubemos que ela era a escolha perfeita. Mas Camila não se deixou interromper. — Nem sempre fui perfeita. Tive dúvidas, tive medo. Ainda tenho. Mas carrego dentro de mim uma criança que vai mudar destinos. Não sou apenas barriga de aluguel. Sou parte dessa história. Os fotógrafos dispararam flashes. Ricardo observava com emoção crescente. Beatriz, por sua vez, apertava os dentes sob o sorriso. A repórter aproveitou o gancho. — Você sofreu muito preconceito desde que essa decisão foi exposta? Camila engoliu em seco, mas não desviou. — Sim. p************s, julgamentos. Fui chamada de interesseira, vendida. Mas ninguém pergunta como é abrir mão de si mesma para dar algo tão grande a outra pessoa. Um murmúrio correu entre os jornalistas. Era um depoimento cru, humano. Muito diferente da versão polida que Beatriz queria vender. Ricardo tocou discretamente o braço de Camila, em apoio silencioso. Ela olhou para ele e encontrou força para continuar. — Eu não sou um escândalo. Eu sou alguém que escolheu acreditar em um sonho. Mesmo que esse sonho, às vezes, pareça não ser meu. As palavras ecoaram pelo salão, carregadas de emoção. Beatriz interveio rapidamente, rindo. — Bom, acredito que todos entendam a intensidade hormonal da gravidez. Camila é sensível, mas está sob os melhores cuidados. Os jornalistas não se deixaram enganar. As câmeras estavam todas voltadas para Camila. Uma fotógrafa comentou baixinho, mas audível: — Ela é incrível… Beatriz apertou o copo de cristal em sua mão até quase quebrá-lo. Após quase duas horas de entrevistas, a equipe se retirou, visivelmente impressionada. Ricardo os acompanhou até a porta, enquanto Camila permanecia no salão, exausta mas aliviada. Quando o último carro deixou a propriedade, Beatriz se aproximou, o olhar faiscando. — Você me envergonhou. Camila, ainda ofegante, ergueu o queixo. — Eu falei a verdade. — Verdade? — Beatriz riu, sarcástica. — Verdade é aquilo que o dinheiro pode comprar. O resto são devaneios. Camila deu um passo à frente, firme. — Pode me chamar do que quiser, mas hoje fui ouvida. E nada do que você fizer pode apagar isso. Beatriz ficou em silêncio por um segundo, surpresa com a ousadia. Mas logo recuperou o controle. Aproximou-se, tão perto que Camila podia sentir o perfume intenso. — Então aproveite, querida. Porque amanhã, ninguém mais lembrará de você. Só lembrarão de mim. E saiu, deixando o ar carregado de ameaça. Ricardo voltou minutos depois, encontrando Camila ainda no salão. Ela parecia frágil e forte ao mesmo tempo, como uma chama vacilante que insistia em não se apagar. — Você foi brilhante — disse, a voz cheia de admiração. — Nunca vi alguém tão corajoso. Camila sorriu timidamente. — Não sei se foi coragem. Talvez só cansaço de me calar. Ricardo a encarou com intensidade. — Seja o que for… mudou tudo. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de algo proibido. Ele deu um passo em direção a ela, mas se conteve. O risco era grande demais. — Preciso cuidar de você — murmurou, antes de se afastar. Camila ficou sozinha, o coração acelerado. Sentia medo, mas também uma estranha esperança. Como se, pela primeira vez, tivesse encontrado sua voz. Na suíte principal, Beatriz ligava para um conhecido na redação de uma revista de fofocas. — Quero uma matéria diferente — disse, fria. — Não essa baboseira emotiva. Quero que mostrem a verdade sobre Camila. A versão suja. A versão que destrói reputações. Do outro lado da linha, o jornalista hesitou. — Senhora Monteiro, não sei se é… ético. Beatriz estreitou os olhos. — Ético é um luxo que poucos podem pagar. O senhor quer o dinheiro ou não? A resposta veio rápida: — Sim, claro. Beatriz sorriu. — Ótimo. Então destrua-a. Na madrugada, Camila sonhou novamente. Desta vez, não com correntes, mas com vozes. Vozes que gritavam seu nome, algumas de apoio, outras de ódio. No sonho, ela erguia as mãos e gritava de volta, mas não conseguia ouvir sua própria voz. Acordou ofegante, com o coração acelerado. Foi até a janela e viu Ricardo no jardim, sozinho, olhando para o céu. Por um instante, quis correr até ele. Mas ficou imóvel, observando de longe. Sabia que entre eles havia algo que Beatriz jamais perdoaria. E, no fundo, sentia que a batalha estava apenas começando.
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