capítulo 15- Máscaras da mentira

1033 Palavras
A manhã parecia comum, mas o silêncio da mansão escondia uma tempestade prestes a estourar. Camila desceu para o café e percebeu os olhares estranhos dos empregados. Alguns desviavam os olhos, outros cochichavam entre si. O desconforto a envolveu como uma sombra. Na mesa, um jornal dobrado aguardava. A manchete estampada em letras garrafais fez seu coração gelar: “Camila Souza: a jovem que vendeu o próprio ventre por luxo e status.” Logo abaixo, uma foto sua — do dia da entrevista — capturada em um ângulo c***l, onde seu sorriso tímido parecia falso. Camila leu as primeiras linhas, sentindo o estômago embrulhar: > “Fontes próximas à família Monteiro revelam que a jovem Camila não é apenas uma barriga de aluguel, mas uma oportunista que sempre sonhou em ascender socialmente. Amigos de infância afirmam que ela se vangloriava de casar-se rico. Agora, vive cercada de luxo, aproveitando-se da generosidade de Beatriz Monteiro.” As mãos dela tremeram. As palavras ardiam como facas. — Não… não é verdade… — murmurou. Ricardo entrou na sala no mesmo instante, com expressão carregada. Viu o jornal e, num gesto de fúria, o arrancou das mãos dela. — Eu devia imaginar! Camila estava pálida. — Eles estão me destruindo, Ricardo. Ele apertou o jornal com força. — Isso tem a marca dela. Só Beatriz teria coragem de encomendar uma difamação dessas. Beatriz apareceu minutos depois, elegante e calma, como se nada tivesse acontecido. Serviu-se de café, sem sequer olhar para Camila. — Que cara é essa, querida? — perguntou, com falsa doçura. Ricardo bateu o jornal na mesa. — Você fez isso! Beatriz levantou as sobrancelhas, surpresa teatral. — Eu? Ora, Ricardo, não me culpe por jornalistas famintos por escândalos. Camila se levantou, trêmula. — Eles inventaram histórias… disseram que eu sempre quis me aproveitar! Beatriz a encarou, fria. — E não é? Você está aqui, vivendo em uma mansão, comendo do bom e do melhor… tudo porque aceitou carregar um filho que não é seu. Não se iluda, Camila: o mundo só está dizendo em voz alta aquilo que todos pensam. As lágrimas ardiam nos olhos de Camila. Ricardo a puxou para perto, protegendo-a. — Basta, Beatriz. Você não vai continuar torturando-a. Beatriz riu, amarga. — Torturando? Estou apenas lembrando a vocês que escolhas têm consequências. As horas seguintes foram um tormento. O telefone da mansão não parava de tocar. Jornalistas, curiosos, até pessoas comuns que encontraram o número em fóruns. As redes sociais estavam inundadas de comentários cruéis. “Golpista.” “Vendida.” “Só quer a fortuna dos Monteiro.” Camila se trancou no quarto, incapaz de olhar para a tela do celular. Sentia-se nua diante do mundo, julgada por pessoas que nunca a conheceram. Ricardo entrou e a encontrou sentada no chão, abraçada às pernas, o rosto enterrado nos joelhos. — Ei… — ele se agachou ao lado dela. — Olha pra mim. Ela levantou o rosto molhado de lágrimas. — Eu não aguento mais, Ricardo. Estão acabando comigo. Ele segurou suas mãos com firmeza. — Escute: você não está sozinha. Eu vou limpar seu nome. — Como? Eles acreditam em tudo que leem. — Então vou fazer com que ouçam de mim. — Ricardo a encarou com determinação. — Se for preciso, darei uma coletiva de imprensa. Direi que tudo isso é mentira. Camila balançou a cabeça, desesperada. — E Beatriz? Ela nunca vai permitir. — Que tente me impedir. — Ele tocou seu rosto, com ternura. — Não vou deixar que destruam você. Por um instante, ela quis acreditar. Mas o medo ainda era maior que a esperança. Naquela noite, Beatriz jantou sozinha. Ricardo se recusara a descer, e Camila permanecia trancada. Mesmo assim, Beatriz parecia satisfeita. Saboreava cada garfada como uma vitória. No silêncio, murmurou: — Um castelo só é forte quando seus inimigos estão no chão. E Camila já está caída. Mas, no fundo, algo a incomodava. Apesar da humilhação pública, Camila ainda não havia desistido. Ainda não havia fugido. Dois dias depois, uma surpresa mudou o rumo dos acontecimentos. Uma jovem repórter, a mesma que entrevistara Camila antes, publicou em seu blog pessoal um texto emocionado defendendo-a. > “Vi de perto uma jovem assustada, mas sincera. Não era ambição nos olhos dela, era dor, era coragem. A história publicada contra Camila Souza é uma deturpação c***l. Não podemos esquecer que por trás das manchetes existe uma pessoa real, com sentimentos e sacrifícios.” O texto viralizou nas redes. Pessoas começaram a questionar a versão difamatória. Camila, ao ler, chorou novamente — mas dessa vez, de alívio. Ricardo apertou sua mão. Viu? Ainda há quem enxergue a verdade. Mas Beatriz, ao descobrir, atirou uma taça contra a parede. — Maldita! gritou. Essa garota insiste em ressurgir! Naquela noite, Camila sonhou com algo diferente. Em vez de correntes ou vozes de julgamento, sonhou com um campo aberto, flores e uma criança correndo em sua direção. Ao acordar, sentiu um sopro de esperança. Tocou o ventre, emocionada. — Eu não vou desistir de você. Não importa o que digam No entanto, Beatriz não descansava. Chamou novamente seu contato jornalista. — Sejam mais cruéis desta vez — ordenou. — Quero escavar o passado dela, inventar se for preciso. Quero que o país inteiro a veja como uma ameaça. O homem hesitou. Senhora Monteiro, há risco de processo… — Eu pago qualquer indenização. Mas a reputação dela precisa ser destruída. Ricardo, desconfiado, começou a investigar. Descobriu movimentações financeiras suspeitas feitas em nome de uma empresa ligada a Beatriz, destinadas ao mesmo jornal que publicara o escândalo. Levou as provas até Camila. Eu sabia. Foi ela. Camila olhou os papéis, incrédula. Ela nunca vai parar, Ricardo. Ele segurou sua mão, decidido. Então vamos enfrentá-la juntos. E pela primeira vez, nos olhos de Camila havia não só medo, mas também determinação. Na suíte, Beatriz encarava o espelho, o rosto sereno mas os olhos em chamas. — Podem me odiar, podem me culpar. Mas ninguém vai roubar o que é meu. E assim, enquanto a guerra silenciosa se intensificava, o destino dos três se entrelaçava cada vez mais, preparando o terreno para uma batalha onde amor, vingança e sobrevivência caminhariam lado a lado.
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