capítulo 16- vozes que despertam

1727 Palavras
O sol nascia tímido, pintando o céu em tons de dourado quando Camila abriu os olhos. O quarto ainda estava silencioso, mas havia algo diferente naquela manhã: o som distante de notificações em seu celular, vibrando sem parar. Com o coração acelerado, pegou o aparelho. As telas das redes sociais estavam tomadas por mensagens inesperadas: “Camila, você não está sozinha.” “Admiro sua coragem.” “Não deixe que te calem, você é mais forte do que pensa.” A mesma repórter que havia publicado o texto em defesa dela agora compartilhava um vídeo curto, relembrando as palavras de Camila na entrevista: “Não sou apenas uma barriga de aluguel. Sou parte dessa história.” O vídeo viralizava. Pessoas comentavam, dividiam, criavam debates. Alguns ainda a criticavam, mas muitos estavam começando a ver nela não um escândalo, mas uma mulher real, vulnerável e forte ao mesmo tempo. Camila levou a mão ao peito, emocionada. — Estão me ouvindo… Horas depois, na sala da mansão, Ricardo a encontrou com o celular nas mãos, os olhos marejados. — Aconteceu algo? perguntou, preocupado. Ela mostrou a tela. — Eles… estão me defendendo. Estão acreditando em mim, Ricardo. Pela primeira vez, não me sinto invisível. Ricardo sorriu, um alívio percorrendo seu semblante cansado. — Eu disse que sua voz tinha poder. O mundo precisava ouvi-la. Camila respirou fundo. — Mas tenho medo. E se Beatriz… Ele a interrompeu com firmeza: — Chega de medo. Você já foi exposta, difamada, humilhada. E ainda está de pé. Isso assusta mais do que qualquer arma de Beatriz. O olhar intenso dele a fez estremecer. Por um instante, esqueceu da dor e sentiu apenas a estranha proximidade entre eles, carregada de algo proibido. Do outro lado da casa, Beatriz assistia a tudo pelas redes, incrédula. A reportagem que ela encomendara havia se transformado em uma fagulha para algo que não esperava: simpatia por Camila. — Não, não, não… — murmurava, andando de um lado a outro do quarto. — Essa garota deveria estar destruída, não idolatrada! Ligou para o jornalista novamente. — Vocês não fizeram direito o trabalho. — Senhora Monteiro — respondeu ele, cauteloso —, não podemos controlar como o público reage. Beatriz quase jogou o telefone contra a parede. — Então eu mesma vou controlar. Se o povo gosta de mártires, eu darei a eles uma pecadora. Seus olhos brilharam de fúria, já planejando algo ainda mais sombrio. À tarde, Ricardo propôs algo inesperado a Camila. — Quero que dê uma declaração pública. Só você, sem intermediários. Ela arregalou os olhos. Está louco? Beatriz jamais vai permitir. — Não precisa permitir. — Ele segurou sua mão, firme. — O mundo precisa ouvir de você, não de jornalistas pagos, não de mim. Só de você. Camila hesitou, o medo evidente. — Eu nunca falei para tanta gente. E se eu travar? E se eu piorar tudo? — Você já falou uma vez, lembra? — Ele sorriu, lembrando da entrevista. — E calou um salão inteiro. Você não travou. Você brilhou. Camila mordeu os lábios, nervosa. — E se eles não acreditarem? Ricardo inclinou-se levemente, a voz suave mas carregada de convicção: — Eles já acreditam. Só falta você acreditar também. O coração dela disparou. Não sabia se era pelas palavras ou pela proximidade dele. Talvez pelos dois. À noite, deitada, Camila não conseguia dormir. As vozes da dúvida ainda ecoavam, mas, acima delas, surgia algo novo: a vontade de não ser apenas um corpo alugado, uma peça descartável no tabuleiro de Beatriz. Ela se levantou e foi até o espelho. Olhou para o próprio reflexo, tocou o ventre levemente arredondado. — Não sou só barriga de aluguel — murmurou. — Sou mais do que isso. E, pela primeira vez, acreditou nas próprias palavras. Enquanto isso, Beatriz ligava para um detetive particular. — Quero tudo sobre a vida dela. Cada detalhe sujo, cada deslize. Amigos, vizinhos, parentes. Nada pode ficar oculto. Do outro lado da linha, a voz respondeu: — Vai custar caro. — Dinheiro não é problema. Mas preciso que essa menina seja reduzida a pó. Beatriz desligou, olhando o reflexo no espelho. — Ninguém rouba o meu lugar. Ninguém. Na manhã seguinte, Camila acordou decidida. Procurou Ricardo na biblioteca da mansão. — Eu aceito. Ele ergueu os olhos dos papéis que revisava. — Aceita o quê? — Falar. Dizer a minha verdade. Do meu jeito. Ricardo sorriu, um sorriso que misturava orgulho e ternura. — Então vamos preparar tudo. E assim, enquanto a mansão se tornava palco de uma guerra silenciosa, a jovem que fora vista como uma sombra começava a se erguer. Ainda assustada, ainda vulnerável, mas com uma centelha de coragem que crescia a cada batida de seu coração. E, em algum lugar entre o medo e a esperança, nascia também um desejo impossível de ser contido. O salão menor da mansão foi preparado às pressas. Não havia câmeras profissionais, nem jornalistas; apenas um tripé improvisado com o celular de Ricardo, pronto para transmitir em tempo real. Camila olhava o aparelho como se fosse um monstro. A garganta seca, as mãos trêmulas. — Eu não sei se consigo — murmurou, dando um passo para trás. Ricardo se aproximou, a voz calma, mas firme. — Você já enfrentou coisa muito pior do que uma câmera. Isso não é um tribunal, não é Beatriz. É só você. — E milhões de pessoas do outro lado da tela — retrucou ela, nervosa. Ele sorriu levemente. — Que verão uma mulher de verdade, não uma caricatura. Antes de começar, Ricardo sugeriu que ensaiassem. — Imagine que está falando apenas comigo. Olhe para mim, não para a câmera. Camila respirou fundo. — Eu… eu me chamo Camila Souza. Sou… sou barriga de aluguel. As palavras saíram hesitantes, como se cada sílaba fosse um peso. Ricardo balançou a cabeça. — Não. Você não é barriga de aluguel. Você aceitou ser, por um motivo. Diga isso. Camila tentou de novo. — Eu me chamo Camila Souza. Aceitei ser barriga de aluguel porque… porque quis ajudar uma família a realizar um sonho. Sua voz saiu mais firme dessa vez. Ricardo sorriu. — Melhor. Agora fale de você. O que sente, o que teme, o que deseja. Camila fechou os olhos, as lágrimas surgindo. — Sinto medo. Medo de não ser lembrada como pessoa, mas apenas como um corpo. Temo que meu filho… — ela parou, corrigindo-se rapidamente —, o filho que carrego, nunca saiba que fui mais do que isso. Ricardo se aproximou, os olhos marejados também. — Isso. Essa é a sua verdade. É isso que precisam ouvir. No corredor, Beatriz observava escondida. A cada palavra que escapava da boca de Camila, sua raiva crescia. Não suportava ver aquela garota transformar dor em força, fraqueza em coragem. — Não vai durar — sussurrou para si mesma, voltando para o quarto. — Eu vou calá-la antes que seja tarde. Pegou o telefone e ligou para o detetive. — Preciso de resultados rápidos. Qualquer coisa que manche a imagem dela. — Estamos investigando vizinhos e conhecidos antigos. Há comentários sobre um romance m*l resolvido na cidade natal dela. Beatriz sorriu, satisfeita. — Perfeito. Amplie isso. Quero que pareça um escândalo. Enquanto isso, Camila continuava o ensaio. Ricardo a incentivava a improvisar, a falar como se conversasse com uma amiga. — As pessoas não precisam de frases perfeitas. Precisam sentir que é verdadeiro — disse ele. Ela assentiu, o olhar brilhando com uma força nova. — Então vou falar do que mais dói. — Do quê? — perguntou ele, curioso. Camila respirou fundo. — De como é viver aqui. De como é conviver com alguém que tenta apagar quem eu sou. Ricardo ficou em silêncio. Sabia que ela falava de Beatriz, mas também sabia que tornar isso público seria um passo arriscado demais. — Cuidado, Camila. Não revele tudo de uma vez. Ela pode usar contra você. — Mas se eu não falar, nunca vou me libertar — respondeu, determinada. Ele a olhou com admiração. Pela primeira vez, via em Camila não apenas uma jovem assustada, mas uma mulher pronta para enfrentar tempestades. Mais tarde, sozinha em seu quarto, Camila pegou um caderno e começou a escrever. Palavras que vinham direto da alma: memórias da infância simples, os medos da gravidez, os julgamentos que a feriam, mas também os sonhos que ainda guardava. Enquanto escrevia, lágrimas escorriam, mas também sorrisos surgiam. Cada frase era como um tijolo erguendo uma nova versão de si mesma. No fim da noite, fechou o caderno e sussurrou: — Estou pronta. Ricardo a encontrou no jardim na manhã seguinte, o caderno em mãos. — Quer ouvir? perguntou ela, tímida. Ele assentiu, e Camila começou a ler. Sua voz tremia no início, mas logo se firmou, carregada de emoção. Falava de dor, mas também de esperança; de humilhação, mas também de dignidade. Quando terminou, Ricardo tinha os olhos marejados. — Está perfeito. Não mude uma palavra. Ela sorriu, aliviada. — Então vou falar assim, do meu jeito. Ele a encarou por um instante longo demais, e algo não dito pairou entre eles. Um desejo contido, um sentimento perigoso. Ricardo desviou o olhar, respirando fundo. — Eu vou estar ao seu lado. Sempre. Naquela noite, Beatriz reuniu a equipe de empregados. — Ninguém, ouviram bem? Ninguém deve ajudar Camila com essa ideia absurda. Se alguém gravar, transmitir ou apoiar, estará fora desta casa no mesmo instante. Os empregados assentiram, aterrorizados. Mas no fundo, alguns já começavam a sentir simpatia pela jovem que desafiava a patroa. Camila, em seu quarto, olhava novamente para o espelho. Não via mais apenas medo no reflexo. Via também uma mulher que descobria a própria voz. E ao tocar o ventre, murmurou: — Eu vou lutar por nós dois. Mesmo que o mundo inteiro esteja contra. Do lado de fora, Beatriz a observava pela fresta da porta, o olhar cheio de veneno. — Lute o quanto quiser, Camila. Eu sempre estarei um passo à frente. Assim, entre ensaios emocionados, juras silenciosas e conspirações ocultas, uma guerra invisível se intensificava dentro da mansão Monteiro. Uma batalha não apenas de poder, mas de identidades: a de uma mulher que tentava renascer, e a de outra que se recusava a perder o trono. E quando a câmera fosse finalmente ligada, não seria apenas uma transmissão ao vivo. Seria o início de uma revolução.
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