capítulo 17- A voz da verdade

1148 Palavras
O relógio marcava sete da noite. A mansão estava mergulhada em silêncio, mas a atmosfera carregada anunciava que algo importante estava prestes a acontecer. No salão menor, o tripé com o celular de Ricardo aguardava. A tela já mostrava a contagem regressiva para o início da transmissão. Camila estava diante do espelho, o coração disparado. Vestia um vestido simples, branco, que ela mesma escolhera. Não queria luxo nem sofisticação: queria ser ela mesma. — Está pronta? — Ricardo perguntou, entrando discretamente. Ela respirou fundo. — Não sei se alguém algum dia está pronto para isso. Ele sorriu, tocando de leve sua mão. — Às vezes, estar pronto não é ter certeza. É só ter coragem para dar o primeiro passo. Camila olhou para ele, os olhos marejados. — E se eu falhar? — Então falhará sendo verdadeira. — Ricardo respondeu com firmeza. — E a verdade, Camila, sempre vence. No andar de cima, Beatriz observava tudo pelas câmeras de segurança. Estava de braços cruzados, o olhar cheio de veneno. — Ingênua… — murmurou. — Acredita mesmo que algumas palavras podem apagar a mancha de ser uma barriga de aluguel? Pegou o celular e ligou para o detetive. — Quero que publique aquele dossiê hoje mesmo. Não importa se ainda não está completo. Ela não pode se erguer. Do outro lado da linha, o homem hesitou. — Mas, senhora Monteiro, isso pode soar forçado… — Faça! — ela ordenou, desligando em seguida. De volta ao salão, Ricardo ajustou o tripé. — Quando a luz vermelha acender, você começa. Lembre-se: não precisa olhar para o público. Olhe para mim. Camila assentiu, ainda nervosa. Sentou-se, respirou fundo e fechou os olhos por alguns segundos. Quando a contagem regressiva terminou, a luz vermelha acendeu. A transmissão estava no ar. No início, ela ficou em silêncio. O número de espectadores começou pequeno, mas subia rapidamente. Camila finalmente abriu a boca. — Boa noite… Meu nome é Camila Souza. Talvez vocês já tenham ouvido falar de mim. Fez uma pausa, o coração disparando. Ricardo sorriu, encorajando-a com um aceno discreto. — Muitos me conhecem como “a barriga de aluguel da família Monteiro”. Um título que me reduziu a algo que não sou. — A voz dela tremeu, mas não parou. — Hoje, decidi falar não como manchete, não como escândalo, mas como pessoa. O número de espectadores já passava de mil. — Eu não sou perfeita. Tenho medos, tenho falhas. Mas aceitei esse contrato porque acreditava estar ajudando a realizar um sonho. Não pensei no julgamento, não pensei nas críticas. Só pensei que, de alguma forma, poderia transformar minha vida e a de outras pessoas. A cada palavra, Camila parecia crescer diante da câmera. — Mas nunca imaginei que seria vista como alguém sem coração, sem alma. Como se eu fosse apenas um corpo alugado. As lágrimas desceram, mas ela não desviou o olhar. — Eu não sou apenas um ventre. Sou uma mulher. E por trás dessa decisão existe dor, existe sacrifício, mas também existe amor. Os comentários disparavam em tempo real: “Corajosa!” “Estamos com você, Camila!” “Finalmente alguém falando a verdade.” Mas havia também os cruéis: “Vendida.” “Farsa.” “Quer se fazer de vítima.” Camila engoliu em seco, mas continuou. — Sei que alguns não vão acreditar em mim. Sei que muitos vão continuar me julgando. Mas hoje não falo para eles. Falo para quem já se sentiu invisível, para quem já foi reduzido a uma palavra c***l, a um rótulo injusto. Sua voz ganhou firmeza. — Eu não vou mais me calar. No quarto de cima, Beatriz assistia furiosa. — Ela vai pagar caro por isso. Atirou o copo de vinho contra a parede, o líquido escorrendo como sangue. Camila respirou fundo e prosseguiu. — Carrego dentro de mim uma vida. E cada batida do coração desse bebê me lembra que não sou apenas passageira nessa história. Sou parte dela. E mereço ser lembrada por quem sou, não pelo que o contrato diz. O chat explodiu em mensagens de apoio. O público já passava de dez mil pessoas. Ricardo sentia os olhos arderem. Nunca vira Camila tão forte, tão autêntica. — Você é incrível… — murmurou, baixinho, sem perceber que as câmeras ainda gravavam. Camila o olhou por um instante, emocionada, antes de se voltar novamente para a tela. — Obrigada por me ouvirem. E obrigada por me lembrarem que, mesmo em meio ao ódio, ainda há esperança. Com isso, encerrou a transmissão. O salão ficou em silêncio. Camila respirava rápido, o coração a mil. — Eu… eu consegui? — perguntou, sem acreditar. Ricardo sorriu, emocionado. — Conseguiu. E foi mais do que isso. Você conquistou corações. Camila deixou escapar um riso nervoso, misturado a lágrimas. — Eu pensei que ia desmaiar. — Mas não desmaiou. — Ele tocou sua mão com delicadeza. — Você brilhou. Por um instante, ficaram apenas se olhando, presos em um silêncio cheio de coisas não ditas. Ricardo parecia prestes a se aproximar mais, mas se conteve. — Preciso checar as reações na imprensa. Ele saiu, deixando Camila sozinha com a sensação de ter dado o passo mais importante de sua vida. Enquanto isso, Beatriz já articulava sua vingança. Ligou para o detetive novamente. — Quero que espalhem imediatamente aquele boato sobre um romance obscuro do passado dela. Use redes sociais, fóruns, perfis falsos. Quero ver a imagem dela afundar até o amanhecer. — Senhora Monteiro, isso pode parecer forjado. — Então façam parecer real! — gritou ela, exasperada. Na internet, a repercussão da live crescia. Programas de TV comentavam, colunistas escreviam artigos. Camila não era mais apenas a barriga de aluguel dos Monteiro: agora, era vista como símbolo de resistência, uma mulher que ousava expor sua dor. Mas junto com a onda de apoio, começaram a surgir comentários estranhos: supostos “amigos de infância” dizendo que ela tinha casos escondidos, que era interesseira desde jovem. Ricardo percebeu a movimentação e voltou correndo até Camila. — Já começaram. Estão tentando sabotar o que você construiu. Ela suspirou, cansada. — Eu já esperava. — Mas não podemos deixar barato. — Ele se aproximou, olhando-a nos olhos. — Você não está sozinha, Camila. Não mais. Na madrugada, Camila se deitou, exausta. Mas, ao fechar os olhos, não viu correntes, nem julgamentos. Viu rostos desconhecidos, pessoas que comentavam palavras de apoio. Sentiu, pela primeira vez em muito tempo, que tinha valor. Tocou o ventre e sussurrou: — Estamos vencendo, meu amor. Aos poucos, estamos vencendo. Do lado de fora, Ricardo observava pela porta entreaberta, um sorriso triste nos lábios. Ele sabia que a guerra contra Beatriz estava longe de terminar, mas também sabia que algo poderoso havia nascido naquela noite: a voz de Camila. E talvez, junto com essa voz, estivesse nascendo algo ainda mais perigoso entre eles dois. Algo que poderia destruir tudo.
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