O sol da manhã atravessava as cortinas pesadas da mansão Monteiro quando Camila acordou. Ainda sentia os resquícios da noite anterior: o coração acelerado, as lágrimas que secaram em seu rosto, a sensação de ter enfrentado o mundo e, de alguma forma, ter sobrevivido.
Sentou-se na beira da cama, passou a mão pelo ventre e sussurrou:
— Nós conseguimos…
O celular vibrava sem parar sobre a mesa de cabeceira. Centenas de notificações: mensagens de desconhecidos, convites de entrevistas, hashtags com seu nome. A simples visão daquilo a deixou zonza.
Ricardo entrou no quarto, carregando uma bandeja de café da manhã. — Bom dia, guerreira.
Camila arqueou as sobrancelhas, surpresa. — “Guerreira”?
— É o que estão chamando você nas redes. — Ele depositou a bandeja na mesa. — Você não faz ideia do impacto que causou ontem.
Ela pegou o celular com mãos trêmulas e leu alguns comentários:
“Camila me fez acreditar de novo na força das mulheres.”
“Ela é mais do que um contrato, é um ser humano.”
“Se fosse comigo, eu nunca teria coragem. Camila, obrigada por dar voz a tantas de nós.”
As lágrimas voltaram a escorrer. — Eu… não sabia que tanta gente poderia me apoiar.
Ricardo se sentou ao lado dela. — Sempre soube que você era especial. Agora o mundo também sabe.
Por um instante, ficaram em silêncio, o olhar dele fixo nos olhos dela. O ambiente pareceu carregar algo invisível, quase palpável, até que Camila desviou o olhar, constrangida.
Enquanto isso, Beatriz lia os jornais com as mãos trêmulas de raiva. Todas as manchetes destacavam Camila como “a mulher que ousou falar”. Alguns colunistas até a comparavam a símbolos de resistência.
— Isso não vai ficar assim… — ela murmurou, atirando o jornal no chão.
Ligou para o detetive novamente. — Preciso de algo mais forte. Quero provas, algo que manche a imagem dela de uma vez por todas.
— Senhora, já espalhamos alguns boatos, mas estão sendo abafados pelo apoio público.
— Então crie provas! — Beatriz gritou. — Invente, falsifique, não me importa! Essa mulher não vai roubar o meu marido nem a minha reputação.
Camila, ainda emocionada com a onda de apoio, decidiu dar um passo ousado. — Quero sair de casa hoje. Quero sentir o mundo lá fora.
Ricardo hesitou. — Tem certeza? Pode ser perigoso.
— Tenho. — Ela apertou o vestido contra o ventre. — Preciso saber se o apoio é real ou só palavras na internet.
Relutante, ele concordou.
Horas depois, os dois saíram juntos pela primeira vez desde o escândalo. Camila usava óculos escuros e um lenço simples, mas mesmo assim algumas pessoas a reconheceram na rua.
Um casal se aproximou. — Você é a Camila, não é? — perguntou a mulher, emocionada. — Eu vi sua live… e queria dizer obrigada. Você falou por tantas de nós.
Camila ficou sem palavras.
Outra pessoa apareceu logo atrás, um jovem de mochila. — Camila, posso tirar uma foto com você? Minha mãe se emocionou ontem, ela também passou por algo parecido.
Camila olhou para Ricardo, insegura, mas ele apenas sorriu e acenou positivamente. Ela aceitou, ainda tímida.
O coração dela se encheu de algo novo: esperança.
Mas, a poucos metros de distância, um homem observava e tirava fotos escondidas. Um dos capangas de Beatriz, pronto para transformar qualquer detalhe em munição contra Camila.
De volta à mansão, Camila se jogou no sofá, exausta mas feliz. — Eu não sabia que seria assim. Ver pessoas me olhando não com ódio, mas com carinho… foi incrível.
Ricardo sentou ao lado dela, os olhos brilhando de orgulho. — Você não imagina o quanto está inspirando as pessoas.
Camila suspirou. — E você? Não tem medo do que isso pode causar para sua imagem?
Ele sorriu, sério. — Minha imagem nunca me importou tanto quanto você.
O silêncio que seguiu foi carregado de uma tensão elétrica. Camila desviou o olhar, mas não conseguiu esconder o rubor que subiu às suas bochechas.
No andar de cima, Beatriz assistia às imagens enviadas pelo capanga: Camila sorrindo nas ruas, sendo fotografada com desconhecidos, tocando seu ventre com carinho.
— Ela está se alimentando desse apoio… — Beatriz murmurou, com os olhos estreitos. — Então vamos transformá-lo em veneno.
Pegou o celular e ligou para um jornalista sensacionalista. — Tenho uma pauta para você. Uma bomba. Quero que publique hoje.
O jornalista, curioso, perguntou: — Qual é a pauta?
Beatriz sorriu de forma sombria. — Que Camila Souza não é apenas uma barriga de aluguel. Ela é uma aproveitadora que seduziu o próprio contratante.
Do outro lado da linha, o homem engasgou. — Isso é grave, senhora Monteiro. Tem provas?
— Terá, em algumas horas.
Enquanto isso, Camila se recolhia ao jardim da mansão, o coração leve pela primeira vez em muito tempo. Mas ainda não sabia que, a poucos quilômetros dali, a manchete que poderia virar sua vida de cabeça para baixo já estava sendo preparada.
O fim de tarde chegou com uma brisa suave, e Camila, ainda animada pela experiência nas ruas, decidiu descansar na varanda da mansão. Fechou os olhos e se deixou embalar pelo vento. Por alguns instantes, acreditou que tudo poderia, enfim, entrar nos eixos.
Mas a ilusão durou pouco. Ricardo surgiu apressado, o rosto tenso, o celular na mão.
— Camila, temos um problema.
Ela abriu os olhos, assustada. — O que aconteceu?
Ele lhe mostrou a tela. Em letras garrafais, estampava-se a manchete de um dos portais mais lidos do país:
“Camila Souza: a barriga de aluguel que seduziu o contratante. Escândalo na família Monteiro.”
O chão pareceu desaparecer sob seus pés.
— Não… não pode ser… — Camila murmurou, a voz embargada. — Eu nunca… eu jamais faria isso…
Ricardo segurou suas mãos com firmeza. — Eu sei. É mentira. É obra da Beatriz.
Mas o celular vibrava sem parar com notificações, comentários, compartilhamentos. As redes sociais estavam em chamas.
No quarto de cima, Beatriz brindava com uma taça de champanhe, assistindo às primeiras reações.
— É isso. — murmurou, satisfeita. — Vamos ver até onde sua coragem vai agora, Camila.
Ao lado dela, o detetive mostrava as “provas” fabricadas: fotos borradas, supostos prints de mensagens adulteradas, até mesmo um áudio editado.
— O bastante para destruir qualquer reputação. — ele afirmou.
Beatriz sorriu. — Excelente trabalho.
Na varanda, Camila se levantou, caminhando de um lado para o outro, em desespero. — Ricardo, o que eu faço? Todos vão acreditar nisso. Já não bastava me chamarem de barriga de aluguel, agora vão me chamar de… — a voz falhou. — De destruidora de lares.
Ricardo se aproximou, segurando-a pelos ombros. — Camila, olhe para mim. — Seus olhos estavam firmes. — Você não está sozinha. Nós vamos enfrentar isso juntos.
Ela balançou a cabeça, chorando. — Mas como? Eles têm provas, têm meios… Eu não tenho nada além da minha palavra.
— E a sua palavra vale mais do que todas as mentiras. — disse ele, decidido.
As horas seguintes foram caóticas. Jornais sensacionalistas repetiam a manchete, programas de TV exibiam as imagens adulteradas. Alguns apresentadores falavam com tom de condenação, outros fingiam neutralidade, mas todos alimentavam a dúvida no público.
No celular de Camila, mensagens agressivas começaram a surgir:
“Sabia que era interesseira.”
“Tudo calculado desde o início.”
“Coitada da esposa traída.”
Ela desligou o aparelho, incapaz de ler mais.
Ricardo entrou na sala com semblante sombrio. — Os advogados já estão em contato com a imprensa. Vamos processar cada um desses veículos.
— Mas até lá… — Camila murmurou, abraçando o ventre. — Até lá, minha vida vai ser destruída.
Na manhã seguinte, ao sair discretamente da mansão para uma consulta médica, Camila percebeu o peso da exposição. Alguns transeuntes cochichavam ao vê-la passar. Uma mulher murmurou alto o bastante para que ela ouvisse:
— É ela. A amante do patrão.
Camila apertou os olhos, lutando para não chorar. Ricardo caminhava ao lado dela, tentando protegê-la dos olhares.
De repente, uma jovem se aproximou. — Camila! — disse, nervosa. — Eu vi sua live… eu acredito em você. Não escute o que dizem.
Camila a olhou surpresa, emocionada. A moça sorriu timidamente. — Você deu voz a muitas mulheres. Não deixe que calem a sua.
Essas palavras foram como um bálsamo em meio ao caos.
Mais tarde, de volta à mansão, Camila encontrou forças para falar com Ricardo. — Eu não quero fugir, não quero me esconder. Se Beatriz acha que vai me silenciar com mentiras, está enganada.
Ricardo se aproximou, orgulhoso. — O que você pretende fazer?
— Quero dar outra entrevista. Mas desta vez… olho no olho, em rede nacional.
Ele a encarou em silêncio por um momento, depois sorriu de canto. — Você é mais forte do que imagina.
No entanto, do outro lado da cidade, Beatriz já tramava o próximo passo. Sentada em sua sala luxuosa, mexia no celular, observando o caos que criara.
— Você pode ter vencido uma batalha, Camila… mas eu vou vencer a guerra.
Seus olhos brilharam com determinação sombria.
Naquela noite, sozinha em seu quarto, Camila se deitou exausta, mas não derrotada. Tocou o ventre e sussurrou:
— Eles podem tentar me destruir, mas não vou deixar. Nem por mim, nem por você.
Do lado de fora, Ricardo observava em silêncio, o coração dividido entre o amor que crescia e a guerra que sabia estar apenas começando.