capítulo 18-Ecos da verdade

1584 Palavras
O sol da manhã atravessava as cortinas pesadas da mansão Monteiro quando Camila acordou. Ainda sentia os resquícios da noite anterior: o coração acelerado, as lágrimas que secaram em seu rosto, a sensação de ter enfrentado o mundo e, de alguma forma, ter sobrevivido. Sentou-se na beira da cama, passou a mão pelo ventre e sussurrou: — Nós conseguimos… O celular vibrava sem parar sobre a mesa de cabeceira. Centenas de notificações: mensagens de desconhecidos, convites de entrevistas, hashtags com seu nome. A simples visão daquilo a deixou zonza. Ricardo entrou no quarto, carregando uma bandeja de café da manhã. — Bom dia, guerreira. Camila arqueou as sobrancelhas, surpresa. — “Guerreira”? — É o que estão chamando você nas redes. — Ele depositou a bandeja na mesa. — Você não faz ideia do impacto que causou ontem. Ela pegou o celular com mãos trêmulas e leu alguns comentários: “Camila me fez acreditar de novo na força das mulheres.” “Ela é mais do que um contrato, é um ser humano.” “Se fosse comigo, eu nunca teria coragem. Camila, obrigada por dar voz a tantas de nós.” As lágrimas voltaram a escorrer. — Eu… não sabia que tanta gente poderia me apoiar. Ricardo se sentou ao lado dela. — Sempre soube que você era especial. Agora o mundo também sabe. Por um instante, ficaram em silêncio, o olhar dele fixo nos olhos dela. O ambiente pareceu carregar algo invisível, quase palpável, até que Camila desviou o olhar, constrangida. Enquanto isso, Beatriz lia os jornais com as mãos trêmulas de raiva. Todas as manchetes destacavam Camila como “a mulher que ousou falar”. Alguns colunistas até a comparavam a símbolos de resistência. — Isso não vai ficar assim… — ela murmurou, atirando o jornal no chão. Ligou para o detetive novamente. — Preciso de algo mais forte. Quero provas, algo que manche a imagem dela de uma vez por todas. — Senhora, já espalhamos alguns boatos, mas estão sendo abafados pelo apoio público. — Então crie provas! — Beatriz gritou. — Invente, falsifique, não me importa! Essa mulher não vai roubar o meu marido nem a minha reputação. Camila, ainda emocionada com a onda de apoio, decidiu dar um passo ousado. — Quero sair de casa hoje. Quero sentir o mundo lá fora. Ricardo hesitou. — Tem certeza? Pode ser perigoso. — Tenho. — Ela apertou o vestido contra o ventre. — Preciso saber se o apoio é real ou só palavras na internet. Relutante, ele concordou. Horas depois, os dois saíram juntos pela primeira vez desde o escândalo. Camila usava óculos escuros e um lenço simples, mas mesmo assim algumas pessoas a reconheceram na rua. Um casal se aproximou. — Você é a Camila, não é? — perguntou a mulher, emocionada. — Eu vi sua live… e queria dizer obrigada. Você falou por tantas de nós. Camila ficou sem palavras. Outra pessoa apareceu logo atrás, um jovem de mochila. — Camila, posso tirar uma foto com você? Minha mãe se emocionou ontem, ela também passou por algo parecido. Camila olhou para Ricardo, insegura, mas ele apenas sorriu e acenou positivamente. Ela aceitou, ainda tímida. O coração dela se encheu de algo novo: esperança. Mas, a poucos metros de distância, um homem observava e tirava fotos escondidas. Um dos capangas de Beatriz, pronto para transformar qualquer detalhe em munição contra Camila. De volta à mansão, Camila se jogou no sofá, exausta mas feliz. — Eu não sabia que seria assim. Ver pessoas me olhando não com ódio, mas com carinho… foi incrível. Ricardo sentou ao lado dela, os olhos brilhando de orgulho. — Você não imagina o quanto está inspirando as pessoas. Camila suspirou. — E você? Não tem medo do que isso pode causar para sua imagem? Ele sorriu, sério. — Minha imagem nunca me importou tanto quanto você. O silêncio que seguiu foi carregado de uma tensão elétrica. Camila desviou o olhar, mas não conseguiu esconder o rubor que subiu às suas bochechas. No andar de cima, Beatriz assistia às imagens enviadas pelo capanga: Camila sorrindo nas ruas, sendo fotografada com desconhecidos, tocando seu ventre com carinho. — Ela está se alimentando desse apoio… — Beatriz murmurou, com os olhos estreitos. — Então vamos transformá-lo em veneno. Pegou o celular e ligou para um jornalista sensacionalista. — Tenho uma pauta para você. Uma bomba. Quero que publique hoje. O jornalista, curioso, perguntou: — Qual é a pauta? Beatriz sorriu de forma sombria. — Que Camila Souza não é apenas uma barriga de aluguel. Ela é uma aproveitadora que seduziu o próprio contratante. Do outro lado da linha, o homem engasgou. — Isso é grave, senhora Monteiro. Tem provas? — Terá, em algumas horas. Enquanto isso, Camila se recolhia ao jardim da mansão, o coração leve pela primeira vez em muito tempo. Mas ainda não sabia que, a poucos quilômetros dali, a manchete que poderia virar sua vida de cabeça para baixo já estava sendo preparada. O fim de tarde chegou com uma brisa suave, e Camila, ainda animada pela experiência nas ruas, decidiu descansar na varanda da mansão. Fechou os olhos e se deixou embalar pelo vento. Por alguns instantes, acreditou que tudo poderia, enfim, entrar nos eixos. Mas a ilusão durou pouco. Ricardo surgiu apressado, o rosto tenso, o celular na mão. — Camila, temos um problema. Ela abriu os olhos, assustada. — O que aconteceu? Ele lhe mostrou a tela. Em letras garrafais, estampava-se a manchete de um dos portais mais lidos do país: “Camila Souza: a barriga de aluguel que seduziu o contratante. Escândalo na família Monteiro.” O chão pareceu desaparecer sob seus pés. — Não… não pode ser… — Camila murmurou, a voz embargada. — Eu nunca… eu jamais faria isso… Ricardo segurou suas mãos com firmeza. — Eu sei. É mentira. É obra da Beatriz. Mas o celular vibrava sem parar com notificações, comentários, compartilhamentos. As redes sociais estavam em chamas. No quarto de cima, Beatriz brindava com uma taça de champanhe, assistindo às primeiras reações. — É isso. — murmurou, satisfeita. — Vamos ver até onde sua coragem vai agora, Camila. Ao lado dela, o detetive mostrava as “provas” fabricadas: fotos borradas, supostos prints de mensagens adulteradas, até mesmo um áudio editado. — O bastante para destruir qualquer reputação. — ele afirmou. Beatriz sorriu. — Excelente trabalho. Na varanda, Camila se levantou, caminhando de um lado para o outro, em desespero. — Ricardo, o que eu faço? Todos vão acreditar nisso. Já não bastava me chamarem de barriga de aluguel, agora vão me chamar de… — a voz falhou. — De destruidora de lares. Ricardo se aproximou, segurando-a pelos ombros. — Camila, olhe para mim. — Seus olhos estavam firmes. — Você não está sozinha. Nós vamos enfrentar isso juntos. Ela balançou a cabeça, chorando. — Mas como? Eles têm provas, têm meios… Eu não tenho nada além da minha palavra. — E a sua palavra vale mais do que todas as mentiras. — disse ele, decidido. As horas seguintes foram caóticas. Jornais sensacionalistas repetiam a manchete, programas de TV exibiam as imagens adulteradas. Alguns apresentadores falavam com tom de condenação, outros fingiam neutralidade, mas todos alimentavam a dúvida no público. No celular de Camila, mensagens agressivas começaram a surgir: “Sabia que era interesseira.” “Tudo calculado desde o início.” “Coitada da esposa traída.” Ela desligou o aparelho, incapaz de ler mais. Ricardo entrou na sala com semblante sombrio. — Os advogados já estão em contato com a imprensa. Vamos processar cada um desses veículos. — Mas até lá… — Camila murmurou, abraçando o ventre. — Até lá, minha vida vai ser destruída. Na manhã seguinte, ao sair discretamente da mansão para uma consulta médica, Camila percebeu o peso da exposição. Alguns transeuntes cochichavam ao vê-la passar. Uma mulher murmurou alto o bastante para que ela ouvisse: — É ela. A amante do patrão. Camila apertou os olhos, lutando para não chorar. Ricardo caminhava ao lado dela, tentando protegê-la dos olhares. De repente, uma jovem se aproximou. — Camila! — disse, nervosa. — Eu vi sua live… eu acredito em você. Não escute o que dizem. Camila a olhou surpresa, emocionada. A moça sorriu timidamente. — Você deu voz a muitas mulheres. Não deixe que calem a sua. Essas palavras foram como um bálsamo em meio ao caos. Mais tarde, de volta à mansão, Camila encontrou forças para falar com Ricardo. — Eu não quero fugir, não quero me esconder. Se Beatriz acha que vai me silenciar com mentiras, está enganada. Ricardo se aproximou, orgulhoso. — O que você pretende fazer? — Quero dar outra entrevista. Mas desta vez… olho no olho, em rede nacional. Ele a encarou em silêncio por um momento, depois sorriu de canto. — Você é mais forte do que imagina. No entanto, do outro lado da cidade, Beatriz já tramava o próximo passo. Sentada em sua sala luxuosa, mexia no celular, observando o caos que criara. — Você pode ter vencido uma batalha, Camila… mas eu vou vencer a guerra. Seus olhos brilharam com determinação sombria. Naquela noite, sozinha em seu quarto, Camila se deitou exausta, mas não derrotada. Tocou o ventre e sussurrou: — Eles podem tentar me destruir, mas não vou deixar. Nem por mim, nem por você. Do lado de fora, Ricardo observava em silêncio, o coração dividido entre o amor que crescia e a guerra que sabia estar apenas começando.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR