A manhã seguinte trouxe um silêncio denso à mansão Monteiro. Camila se levantou cedo, os olhos marcados pela falta de sono, mas a determinação pulsava dentro dela como nunca antes.
Enquanto tomava café na cozinha, o telefone vibrou sobre a mesa. Era uma ligação de uma produtora de TV.
— Senhorita Camila Souza? — a voz do outro lado soou educada, mas ansiosa. — Estamos acompanhando tudo o que tem acontecido, e o nosso programa quer te dar espaço para contar a sua versão ao vivo.
Camila fechou os olhos por um momento. O coração batia acelerado.
— Ao vivo?
— Sim. Em rede nacional. Amanhã à noite.
Por alguns segundos, o silêncio tomou conta da linha. Camila respirou fundo antes de responder:
— Eu aceito.
Ricardo entrou na cozinha pouco depois, vendo o brilho inconfundível nos olhos dela. — O que aconteceu?
— Recebi um convite para falar em rede nacional. — Ela disse, tentando soar firme. — Vou limpar meu nome, Ricardo.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois assentiu. — Se é isso que você quer, eu estarei com você.
Camila sorriu com gratidão, mas algo dentro dela tremia. Não era medo de falar — era o pressentimento de que Beatriz não ficaria parada.
De fato, na cobertura luxuosa da cidade, Beatriz observava as notícias em seu tablet. Assim que ouviu sobre a entrevista, soltou uma risada amarga.
— Então ela vai se expor de novo… — murmurou. — Perfeito.
Ela se levantou, caminhando até a janela com uma taça de champanhe na mão. Seu reflexo no vidro parecia o de uma mulher prestes a entrar em guerra.
Pegou o celular e discou um número.
— Quero que descubram tudo sobre o passado de Camila Souza — ordenou ao detetive. — Família, amigos, antigos empregos… qualquer coisa que eu possa usar.
— Certo, senhora Monteiro. — respondeu a voz do outro lado. — Já ouvi rumores de um ex-namorado.
Beatriz sorriu friamente. — Ótimo. Encontre-o. E me traga até ele.
À noite, Camila caminhava sozinha pelo jardim da mansão. As flores pareciam mais vivas sob a luz da lua, mas o peso em seu peito era inegável.
Ricardo apareceu logo atrás, as mãos nos bolsos.
— Você está preocupada.
Ela deu um sorriso fraco. — É muita coisa, Ricardo. Eu só queria paz.
— Paz é algo que raramente vem fácil pra quem fala a verdade. — Ele se aproximou, o olhar suave. — Mas vale a pena.
Por um instante, os dois ficaram em silêncio. O vento soprou entre eles, como se empurrasse suas almas uma para a outra. Ricardo estendeu a mão e, sem dizer nada, apenas segurou a dela.
Camila sentiu o coração acelerar. Não havia necessidade de palavras. Aquele toque bastava.
Mas, dentro da mansão, uma sombra os observava pela janela: Beatriz.
O olhar dela se encheu de raiva. — Se é guerra que ela quer, vai ter.
No dia seguinte, a cidade estava em polvorosa. As redes sociais explodiam com a notícia da entrevista. Alguns defendiam Camila, outros prometiam boicotar o programa.
Na emissora, a produção ajustava o cenário. Luzes, câmeras, roteiros. Tudo pronto.
No camarim, Camila olhava para o espelho. A maquiagem leve realçava sua serenidade. Ainda assim, as mãos tremiam.
— Nervosa? — Ricardo perguntou, entrando no camarim.
Ela sorriu. — Com medo, na verdade.
— Isso é bom. — Ele disse. — Significa que você se importa.
Camila respirou fundo. — E se eles me atacarem ao vivo?
— Então olhe para mim. — Ricardo disse, se inclinando um pouco. — Eu estarei bem ali, na primeira fileira.
Enquanto isso, Beatriz chegava discretamente à emissora por uma entrada lateral. Trazia um envelope em mãos. Dentro dele, havia fotos de Camila com um homem desconhecido — imagens manipuladas que sugeriam i********e.
Ela entregou o envelope a um repórter de colarinho amarrotado. — Faça as perguntas certas, e o país inteiro vai odiá-la antes que a entrevista termine.
— E o pagamento? — o homem perguntou.
— Depositado. — respondeu Beatriz com frieza.
Minutos antes da transmissão, Camila já estava no estúdio. O apresentador, um homem experiente, aproximou-se com um sorriso falso. — Fique tranquila, Camila. Será uma conversa justa.
Mas o tom da voz dele não convencia.
A contagem regressiva começou: 3… 2… 1…
— Boa noite, Brasil! — anunciou o apresentador. — Hoje, recebemos aqui Camila Souza, a mulher que dividiu opiniões no país inteiro.
Camila manteve o olhar firme, mas sentia o suor frio escorrer pelas costas.
— Camila, você tem sido chamada de muitas coisas: heroína, vítima… e também manipuladora. O que tem a dizer sobre isso?
Ela respirou fundo. — Tenho a dizer que sou humana. E que, por trás de cada manchete, há uma história real.
O apresentador sorriu, satisfeito com a resposta. — Mas, recentemente, novas informações surgiram. — Ele levantou um envelope. — Você poderia nos explicar quem é o homem dessas fotos?
As imagens apareceram na tela. Camila ficou pálida. Eram fotos adulteradas, mostrando-a em um suposto encontro romântico.
— Isso é mentira! — ela exclamou. — Essas fotos são falsas!
Ricardo se levantou da plateia, indignado. — Isso é uma armadilha!
O apresentador tentou conter o caos. — Por favor, senhor Monteiro, sente-se!
Mas o público reagia em choque. As redes sociais explodiam em tempo real.
Camila, respirando com dificuldade, olhou fixamente para a câmera.
— Eu não sou essa mulher das fotos. — disse, a voz trêmula mas firme. — E quem espalhou isso sabe muito bem o que está fazendo.
O apresentador insistiu: — Então está dizendo que foi vítima de uma armação?
— Sim. E sei exatamente quem está por trás. — Ela fez uma pausa dramática. — Beatriz Monteiro.
Um murmúrio tomou conta do estúdio. Ricardo se aproximou do palco, os olhos fixos nela.
— Durante meses — continuou Camila —, fui humilhada, acusada e ameaçada. Mas não vou mais me calar.
As lágrimas escorreram, mas sua voz não vacilou. — Tudo o que fiz foi por amor. Não por dinheiro, não por fama. Por amor à vida que carrego dentro de mim.
Por alguns segundos, o estúdio ficou em silêncio.
O apresentador, sem saber como reagir, apenas murmurou: — Voltamos já… após o intervalo.
Nos bastidores, Ricardo a abraçou com força. — Você foi incrível.
Camila chorava. — Eles vão continuar me atacando, Ricardo.
— Então que ataquem. — Ele disse. — O país inteiro viu a verdade nos seus olhos.
Ela o olhou por um momento, sem palavras. Então, sem pensar, o abraçou mais forte.
Mas, do lado de fora, Beatriz observava a cena pela tela do celular. A raiva a consumia. — Você pode ter ganho o público hoje, Camila… mas eu ainda tenho cartas para jogar.
Ela desligou o telefone, o olhar gelado. — E quando eu usar o seu passado contra você… nem o amor de Ricardo vai te salvar.
Horas depois, já em casa, Camila deitou-se exausta, mas com uma sensação nova no peito. Não era mais apenas medo. Era força.
Ela tocou o ventre e sussurrou:
— A verdade está do nosso lado.
Do corredor, Ricardo a observava, um misto de orgulho e amor nos olhos. Mas sabia que a batalha estava longe de terminar — porque agora Beatriz havia cruzado uma linha sem volta.
E a guerra entre as duas mulheres estava prestes a atingir o ponto mais perigoso.