capítulo 20- Sombras do passado

1490 Palavras
A entrevista ainda ecoava em cada canto da cidade. Os vídeos de Camila encarando as câmeras, dizendo o nome de Beatriz em rede nacional, estavam por toda parte — nas redes sociais, nos portais de notícia, até nos programas de fofoca da manhã. Enquanto metade do país a aplaudia, a outra metade a chamava de mentirosa. Mas, pela primeira vez, Camila sentia que não precisava mais se esconder. Ricardo desligou a TV na sala e olhou para ela, que ainda estava com o rosto cansado, mas um brilho diferente nos olhos. — Você virou o assunto do país. ele disse, se aproximando. Camila suspirou. Eu só disse a verdade. — Sim. — Ricardo concordou. Mas quando a verdade incomoda, ela vira escândalo. Ela riu de leve, sem humor. Parece que eu me tornei especialista nisso. Ele se sentou ao lado dela. — O importante é que você foi corajosa. E agora o público está começando a enxergar quem você realmente é. Camila desviou o olhar, tocando o ventre. — Às vezes me pergunto se estou fazendo o certo. Ricardo segurou sua mão. Está. Por alguns segundos, o mundo pareceu em pausa. Apenas o som da respiração dos dois preenchia o espaço entre eles. Mas o toque das mãos, o olhar demorado… havia algo ali que já não dava mais pra esconder. Camila tentou disfarçar o nervosismo e se levantou. Preciso de ar. Do outro lado da cidade, Beatriz olhava fixamente para as manchetes. “Camila Souza confronta Beatriz Monteiro ao vivo.” “Público se divide após entrevista explosiva.” “Surrogata acusa esposa de empresário em rede nacional.” Ela apertou os lábios com raiva. Maldita… — Senhora Monteiro? a voz do detetive veio da porta. Trouxe o que pediu. Beatriz girou na poltrona. Diga que é bom. Ele entregou uma pasta. O nome dele é Caio Fernandes. Ex-namorado de Camila. Namoraram antes de ela começar o programa de barriga de aluguel. Parece que ele ainda tem sentimentos por ela. Beatriz abriu um sorriso frio. Sentimentos… ou fraquezas? O homem hesitou. Ambos, talvez. Ele está passando por dificuldades financeiras. — Melhor ainda. Beatriz se levantou, aproximando-se lentamente. Dinheiro sempre fala mais alto que moral. Enquanto isso, Camila caminhava pelo jardim da mansão, observando o pôr do sol se esconder entre as árvores. Havia paz ali, ainda que momentânea. Ricardo a observava de longe, os olhos carregados de um sentimento que tentava negar. Mas o coração dele já tinha escolhido há muito tempo. Ele se aproximou devagar. O mundo inteiro pode duvidar de você, Camila. Eu não. Ela virou-se, surpresa com a intensidade da voz dele. Ricardo… — Eu não sei quando isso começou ele continuou. Talvez quando vi o quanto você lutava sozinha. Talvez quando percebi que minha vida sem você seria apenas um vazio confortável. Camila o encarava, confusa, emocionada, assustada. — Não diga isso. sussurrou. Você ainda é casado com Beatriz. — Um casamento morto. ele rebateu. E você sabe disso. Ela abaixou o olhar, lutando contra o impulso de chorar. Isso não muda o que eu sou pra ela… nem o que ela pode fazer. — Eu não tenho medo da Beatriz. disse ele. — Tenho medo de te perder. Por um momento, o mundo pareceu parar. Camila sentiu as palavras dele entrarem fundo, mexendo em tudo o que ela tentava manter sob controle. Mas antes que pudesse responder, o telefone de Ricardo tocou. Ele atendeu. Sim? Do outro lado, uma voz fria: — Senhor Monteiro, aqui é da segurança. Há uma mulher do lado de fora pedindo pra falar com a senhorita Camila Souza. Diz que é alguém do passado dela. Camila arregalou os olhos. Do meu passado? Minutos depois, um carro preto parava na entrada da mansão. Dele desceu um homem de pouco mais de trinta anos, barba por fazer e olhar cansado. Camila levou alguns segundos para reconhecê-lo. — Caio? Ele sorriu de forma nervosa. Oi, Camila. O choque a fez dar um passo para trás. O que você está fazendo aqui? — Eu ele olhou em volta, desconfortável. Precisava te ver. Vi tudo o que estão dizendo sobre você. Eu não podia ficar calado. Ricardo observava à distância, desconfiado. Camila cruzou os braços. Depois de tudo que aconteceu entre nós, você acha mesmo que pode aparecer assim? — Eu sei que errei. disse Caio. Mas eu te amei, Camila. E nunca parei de me importar. As palavras o deixaram vulnerável, mas havia algo em seu tom que não soava sincero o bastante. — Quem te mandou aqui? perguntou Ricardo, se aproximando. — Ninguém. respondeu rápido demais. Eu só quero ajudar. Camila sentiu o coração apertar. Algo não estava certo. — Caio… se foi a Beatriz quem te procurou, me diga agora. Ele desviou o olhar. Eu só quero o melhor pra você, Camila. — Então por que não responde à pergunta? — insistiu Ricardo. Caio suspirou, derrotado. Ela me ofereceu dinheiro pra falar m*l de você. Mas eu não aceitei. Juro. Camila levou a mão à boca, chocada. Meu Deus… ela realmente não vai parar. — Eu só vim te avisar, antes que ela use outra pessoa. disse Caio. Mas eu preciso de ajuda, Camila. Estou sem emprego, sem casa… Ela olhou para ele com piedade. — Eu posso te ajudar, mas não vou me envolver com mentiras. Ricardo o observava com desconfiança. Você já fez o suficiente vindo até aqui. Caio assentiu, cabisbaixo, e se afastou. Mas antes de entrar no carro, olhou para Camila uma última vez. — Cuidado com ela. Beatriz é mais perigosa do que você imagina. Naquela noite, Camila m*l conseguiu dormir. O reencontro com Caio trouxe lembranças dolorosas o amor que não deu certo, a solidão que veio depois. Mas agora havia algo maior em jogo: a vida dela e do bebê. Ela se levantou e foi até o quarto de hóspedes, onde Ricardo estava. Ele ainda estava acordado, revisando documentos no laptop. — Desculpe te incomodar. ela disse, encostando na porta. Eu precisava conversar. — Nunca é incômodo. — respondeu ele, fechando o computador. O que foi? — Eu não sei o que Beatriz está planejando. Mas ela não vai desistir. — Nem nós. disse ele, levantando-se. E dessa vez, não vamos jogar limpo. Camila o olhou, confusa. — Como assim? — Se ela quer guerra, vamos dar a ela o que mais teme: exposição. Ricardo caminhou até a janela. — Amanhã mesmo eu reúno a imprensa. E dessa vez, quem vai responder será Beatriz. Camila o observava, admirando a firmeza na voz dele. — Você vai contra ela por mim? — Por justiça. ele respondeu, se aproximando. — Mas também por você. Os dois ficaram frente a frente. O silêncio entre eles era mais intenso que qualquer palavra. Camila sentiu as lágrimas se formarem nos olhos. — Ricardo, e se ela descobrir? — Então deixaremos que o mundo saiba o que já é impossível esconder. ele disse, tocando o rosto dela com delicadeza. Que eu te amo. Camila recuou, surpresa, o coração disparando. — Não diga isso… — É tarde demais pra negar. ele murmurou. Eu tentei lutar contra isso, Camila. Mas você entrou na minha vida e destruiu tudo o que eu achava que era certo. Ela chorava em silêncio, as emoções transbordando. Eu nunca quis te causar dor. — Você trouxe vida. disse ele, encostando a testa na dela. — E agora eu só quero te proteger. Por um momento, o tempo parou. O toque, o olhar, a respiração ofegante tudo os empurrava para o inevitável. Mas antes que se rendessem ao sentimento, um ruído do lado de fora interrompeu o instante. Um estalo seco, como vidro quebrando. Ricardo virou-se imediatamente, indo até a janela. Lá fora, entre as sombras, uma figura observava a mansão. — Fique aqui. — ele disse, sério. Eu vou ver o que é. Camila agarrou o braço dele. Cuidado! Mas Ricardo já havia saído. Lá fora, o vento soprava forte. Ele caminhou até o portão, procurando algum sinal. Encontrou apenas um envelope no chão, preso por uma pedra. Pegou-o e voltou para dentro. Camila esperava na sala, tensa. — O que é isso? perguntou ela. Ele abriu o envelope. Dentro, uma única foto: Camila e Caio, abraçados a mesma imagem adulterada da TV. E um bilhete escrito à mão: > “Se o amor é sua fraqueza, será também sua ruína. — B.” Camila sentiu o sangue gelar. Ricardo rasgou o papel, jogando-o no chão. — Ela está nos observando. disse ele, firme. Mas agora, Beatriz foi longe demais. Camila respirou fundo, o medo dando lugar à raiva. Então que venha. Porque dessa vez, eu não vou mais correr. Na escuridão de seu apartamento, Beatriz observava as câmeras de segurança escondidas que mandara instalar na mansão. O sorriso dela era gélido. A cada passo que derem juntos, eu estarei vendo. E no reflexo da tela, o rosto dela parecia de uma mulher que não tinha limites.
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