capítulo 21- O silêncio entre nós

1332 Palavras
O amanhecer chegou cinza, como se o céu tivesse decidido chorar no lugar deles. Naquela manhã, Camila acordou com o som distante da chuva batendo na janela. O mundo lá fora parecia tão pesado quanto o que ela sentia por dentro. A entrevista, as ameaças, o reencontro com Caio, a confissão de Ricardo — tudo se misturava dentro dela como uma tempestade sem fim. Ela levantou devagar, segurando o ventre já um pouco mais saliente, e foi até a varanda. O ar estava úmido, e o cheiro de terra molhada trouxe lembranças antigas: a infância simples, os dias em que acreditava que o amor era só coisa bonita dos livros. Mas agora o amor tinha outro rosto. Um rosto que ela via toda vez que Ricardo entrava em um cômodo. --- Na sala, Ricardo olhava fixamente para uma pilha de papéis. Desde o bilhete ameaçador deixado por Beatriz, ele quase não dormira. O rosto cansado, os olhos sombrios. Mas, por baixo de toda aquela tensão, havia algo mais: medo. Medo de perder o que mais amava, e talvez nunca tivesse coragem de ter por inteiro. Quando ouviu os passos dela descendo a escada, levantou a cabeça. Camila parecia ainda mais frágil naquela manhã, envolta num moletom grande demais. — Dormiu um pouco? — perguntou ele, a voz baixa. Ela balançou a cabeça. — Você também não. Por um momento, ficaram ali, apenas se olhando, tentando encontrar consolo um no outro. Ricardo deu um passo à frente. — Eu não vou deixar nada acontecer com você. Camila respirou fundo. — Não é de mim que ela quer se vingar, Ricardo. É de você. — Eu aguento — respondeu ele. — Já vivi com mentiras por tempo demais. Ela o olhou com ternura. — Mas agora as mentiras têm nome. E te cercam. O silêncio se instalou. Era como se cada palavra não dita pesasse mais que o ar entre eles. Camila se aproximou, com cuidado. — Eu sei o quanto tudo isso te custa. Mas o que vai acontecer quando ela resolver atacar de novo? E se for com algo pior? Ricardo segurou as mãos dela. — Então enfrentaremos juntos. Ela o encarou, as lágrimas começando a surgir. — Às vezes, amar também é saber parar antes que tudo desabe. Ele franziu o cenho. — Está dizendo o quê? Camila respirou fundo, como quem se prepara para um golpe. — Que talvez eu precise ir embora. --- As palavras pairaram no ar como uma sentença. Ricardo recuou um passo, incrédulo. — O quê? — É o certo — disse ela, tentando controlar a voz. — Enquanto eu estiver aqui, Beatriz vai continuar atacando. Vai te destruir, Ricardo. — E você acha que eu consigo viver sabendo que te deixei sozinha? — a voz dele falhou. — Que te deixei nas mãos dela? Camila deu um pequeno sorriso triste. — Eu nunca estive sozinha de verdade. E agora tenho alguém dentro de mim por quem lutar. Ele se aproximou, desesperado. — Eu te amo. Camila fechou os olhos. — Eu também. A confissão saiu quase num sussurro, um fio de verdade em meio ao caos. Mas quando ela abriu os olhos, havia uma decisão firme ali — a mesma coragem que Ricardo tanto admirava. — É justamente por te amar que eu preciso ir. --- No andar de cima, o som da chuva aumentava. Ricardo virou-se, andando de um lado pro outro. — Você não pode simplesmente desaparecer. Camila enxugou as lágrimas. — Não vou desaparecer. Só preciso respirar. Pensar longe dessa guerra. — Isso é o que ela quer! — ele gritou, a voz embargada. — Que a gente se separe, que ela vença. Camila deu um passo à frente, tocando o rosto dele. — Ela não vence quando tira você de mim, Ricardo. Ela vence se tirar quem você é. As lágrimas dele começaram a cair, silenciosas. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, como se quisesse gravar cada traço, cada respiração. — Eu nunca imaginei que amar pudesse doer tanto. — Amar nunca foi o problema — respondeu ela, com um sorriso triste. — O problema é o mundo ao redor dele. --- Horas depois, Camila começou a arrumar as poucas coisas que trouxe. A mala pequena sobre a cama parecia insuficiente pra carregar tudo o que ela sentia. No espelho, viu o reflexo de Ricardo encostado à porta, observando-a em silêncio. Ela tentou não encarar, mas o peso daquele olhar era insuportável. — Eu posso pelo menos te levar — disse ele, a voz rouca. — Não. — respondeu ela, fechando o zíper da mala. — Se você me levar, eu não vou conseguir ir. Ricardo desviou o olhar, engolindo em seco. — Onde vai ficar? — Em um lugar tranquilo. Uma amiga da minha antiga cidade tem um chalé no interior. Lá ninguém vai me encontrar. — Beatriz vai procurar. — Deixe que procure — respondeu Camila, mais firme. — A verdade é que o que ela quer destruir não é o que temos, Ricardo. É o que ela nunca teve. Ele deu um meio sorriso triste. — E o que é isso? Camila o encarou. — Amor de verdade. --- A chuva cessou quando ela saiu pela porta. O céu ainda estava pesado, mas um raio tímido de luz atravessava as nuvens. Ricardo caminhou com ela até o carro. Nenhum dos dois disse nada. Não havia mais o que explicar — apenas sentir. Na calçada, Camila virou-se para ele. — Eu prometo voltar. Ricardo respirou fundo, tentando conter o choro. — E eu prometo estar aqui quando fizer isso. Ela se aproximou e, por um instante, o abraçou com força. Um abraço que dizia tudo o que as palavras não conseguiam. Quando se afastaram, os olhos de ambos estavam marejados. — Cuida de você — murmurou ela. — Sempre cuidei de você — respondeu ele, com um sorriso fraco. — Só não sei como cuidar de mim sem você. Camila sorriu, mesmo entre lágrimas. — Aprende. E então, sem olhar pra trás, entrou no carro. Ricardo ficou parado, vendo o veículo se afastar lentamente até desaparecer na curva. O silêncio que ficou depois foi o mais c***l de todos — o som da ausência, o vazio que ecoa mesmo quando tudo parece quieto. --- Naquela noite, Ricardo voltou pra dentro da mansão. Cada canto parecia ecoar a presença dela — o riso suave, o som dos passos, o perfume discreto que ainda pairava no ar. Ele caminhou até o quarto onde ela dormia. As cortinas ainda abertas deixavam a lua entrar, iluminando a cama arrumada. Sobre o travesseiro, um envelope. Ricardo o abriu com as mãos tremendo. “Ricardo, Eu sei que o amor que sentimos não cabe nas regras do mundo em que vivemos. Mas foi o único amor que me fez sentir viva. Não vá atrás de mim agora. Deixe o tempo cuidar das feridas que a gente não soube evitar. Se for pra ser, a vida vai achar um jeito de nos unir sem culpa, sem medo. Cuida do que ficou — do nosso pequeno milagre. — Camila. ” As lágrimas caíram sobre o papel. Ricardo o dobrou com cuidado e guardou dentro da carteira. Depois, olhou para o teto e murmurou: — Eu vou esperar. Nem que leve uma vida inteira. --- No interior, a estrada de terra levava o carro de Camila cada vez mais longe da cidade. Ela observava o horizonte pela janela. As árvores passavam rápidas, e cada quilômetro parecia arrancar um pedaço do coração dela. Mas havia algo novo ali também — uma paz silenciosa, quase triste, mas necessária. Ela pousou a mão sobre o ventre e sussurrou: — Um dia, você vai entender que tudo isso foi por amor. Lá fora, o vento balançava as folhas. O sol, tímido, começava a aparecer por entre as nuvens, como se anunciasse que mesmo as partidas mais dolorosas ainda guardam promessas de recomeço. E, por um instante, Camila acreditou nisso.
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