O amanhecer chegou cinza, como se o céu tivesse decidido chorar no lugar deles.
Naquela manhã, Camila acordou com o som distante da chuva batendo na janela. O mundo lá fora parecia tão pesado quanto o que ela sentia por dentro.
A entrevista, as ameaças, o reencontro com Caio, a confissão de Ricardo — tudo se misturava dentro dela como uma tempestade sem fim.
Ela levantou devagar, segurando o ventre já um pouco mais saliente, e foi até a varanda.
O ar estava úmido, e o cheiro de terra molhada trouxe lembranças antigas: a infância simples, os dias em que acreditava que o amor era só coisa bonita dos livros.
Mas agora o amor tinha outro rosto.
Um rosto que ela via toda vez que Ricardo entrava em um cômodo.
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Na sala, Ricardo olhava fixamente para uma pilha de papéis. Desde o bilhete ameaçador deixado por Beatriz, ele quase não dormira.
O rosto cansado, os olhos sombrios.
Mas, por baixo de toda aquela tensão, havia algo mais: medo. Medo de perder o que mais amava, e talvez nunca tivesse coragem de ter por inteiro.
Quando ouviu os passos dela descendo a escada, levantou a cabeça.
Camila parecia ainda mais frágil naquela manhã, envolta num moletom grande demais.
— Dormiu um pouco? — perguntou ele, a voz baixa.
Ela balançou a cabeça. — Você também não.
Por um momento, ficaram ali, apenas se olhando, tentando encontrar consolo um no outro.
Ricardo deu um passo à frente. — Eu não vou deixar nada acontecer com você.
Camila respirou fundo. — Não é de mim que ela quer se vingar, Ricardo. É de você.
— Eu aguento — respondeu ele. — Já vivi com mentiras por tempo demais.
Ela o olhou com ternura. — Mas agora as mentiras têm nome. E te cercam.
O silêncio se instalou. Era como se cada palavra não dita pesasse mais que o ar entre eles.
Camila se aproximou, com cuidado. — Eu sei o quanto tudo isso te custa. Mas o que vai acontecer quando ela resolver atacar de novo? E se for com algo pior?
Ricardo segurou as mãos dela. — Então enfrentaremos juntos.
Ela o encarou, as lágrimas começando a surgir. — Às vezes, amar também é saber parar antes que tudo desabe.
Ele franziu o cenho. — Está dizendo o quê?
Camila respirou fundo, como quem se prepara para um golpe. — Que talvez eu precise ir embora.
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As palavras pairaram no ar como uma sentença.
Ricardo recuou um passo, incrédulo. — O quê?
— É o certo — disse ela, tentando controlar a voz. — Enquanto eu estiver aqui, Beatriz vai continuar atacando. Vai te destruir, Ricardo.
— E você acha que eu consigo viver sabendo que te deixei sozinha? — a voz dele falhou. — Que te deixei nas mãos dela?
Camila deu um pequeno sorriso triste. — Eu nunca estive sozinha de verdade. E agora tenho alguém dentro de mim por quem lutar.
Ele se aproximou, desesperado. — Eu te amo.
Camila fechou os olhos. — Eu também.
A confissão saiu quase num sussurro, um fio de verdade em meio ao caos.
Mas quando ela abriu os olhos, havia uma decisão firme ali — a mesma coragem que Ricardo tanto admirava.
— É justamente por te amar que eu preciso ir.
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No andar de cima, o som da chuva aumentava.
Ricardo virou-se, andando de um lado pro outro. — Você não pode simplesmente desaparecer.
Camila enxugou as lágrimas. — Não vou desaparecer. Só preciso respirar. Pensar longe dessa guerra.
— Isso é o que ela quer! — ele gritou, a voz embargada. — Que a gente se separe, que ela vença.
Camila deu um passo à frente, tocando o rosto dele. — Ela não vence quando tira você de mim, Ricardo. Ela vence se tirar quem você é.
As lágrimas dele começaram a cair, silenciosas. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, como se quisesse gravar cada traço, cada respiração.
— Eu nunca imaginei que amar pudesse doer tanto.
— Amar nunca foi o problema — respondeu ela, com um sorriso triste. — O problema é o mundo ao redor dele.
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Horas depois, Camila começou a arrumar as poucas coisas que trouxe. A mala pequena sobre a cama parecia insuficiente pra carregar tudo o que ela sentia.
No espelho, viu o reflexo de Ricardo encostado à porta, observando-a em silêncio.
Ela tentou não encarar, mas o peso daquele olhar era insuportável.
— Eu posso pelo menos te levar — disse ele, a voz rouca.
— Não. — respondeu ela, fechando o zíper da mala. — Se você me levar, eu não vou conseguir ir.
Ricardo desviou o olhar, engolindo em seco. — Onde vai ficar?
— Em um lugar tranquilo. Uma amiga da minha antiga cidade tem um chalé no interior. Lá ninguém vai me encontrar.
— Beatriz vai procurar.
— Deixe que procure — respondeu Camila, mais firme. — A verdade é que o que ela quer destruir não é o que temos, Ricardo. É o que ela nunca teve.
Ele deu um meio sorriso triste. — E o que é isso?
Camila o encarou. — Amor de verdade.
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A chuva cessou quando ela saiu pela porta.
O céu ainda estava pesado, mas um raio tímido de luz atravessava as nuvens. Ricardo caminhou com ela até o carro.
Nenhum dos dois disse nada.
Não havia mais o que explicar — apenas sentir.
Na calçada, Camila virou-se para ele. — Eu prometo voltar.
Ricardo respirou fundo, tentando conter o choro. — E eu prometo estar aqui quando fizer isso.
Ela se aproximou e, por um instante, o abraçou com força.
Um abraço que dizia tudo o que as palavras não conseguiam.
Quando se afastaram, os olhos de ambos estavam marejados.
— Cuida de você — murmurou ela.
— Sempre cuidei de você — respondeu ele, com um sorriso fraco. — Só não sei como cuidar de mim sem você.
Camila sorriu, mesmo entre lágrimas. — Aprende.
E então, sem olhar pra trás, entrou no carro.
Ricardo ficou parado, vendo o veículo se afastar lentamente até desaparecer na curva.
O silêncio que ficou depois foi o mais c***l de todos — o som da ausência, o vazio que ecoa mesmo quando tudo parece quieto.
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Naquela noite, Ricardo voltou pra dentro da mansão.
Cada canto parecia ecoar a presença dela — o riso suave, o som dos passos, o perfume discreto que ainda pairava no ar.
Ele caminhou até o quarto onde ela dormia. As cortinas ainda abertas deixavam a lua entrar, iluminando a cama arrumada.
Sobre o travesseiro, um envelope.
Ricardo o abriu com as mãos tremendo.
“Ricardo,
Eu sei que o amor que sentimos não cabe nas regras do mundo em que vivemos.
Mas foi o único amor que me fez sentir viva.
Não vá atrás de mim agora.
Deixe o tempo cuidar das feridas que a gente não soube evitar.
Se for pra ser, a vida vai achar um jeito de nos unir sem culpa, sem medo.
Cuida do que ficou — do nosso pequeno milagre.
— Camila. ”
As lágrimas caíram sobre o papel. Ricardo o dobrou com cuidado e guardou dentro da carteira.
Depois, olhou para o teto e murmurou:
— Eu vou esperar. Nem que leve uma vida inteira.
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No interior, a estrada de terra levava o carro de Camila cada vez mais longe da cidade.
Ela observava o horizonte pela janela. As árvores passavam rápidas, e cada quilômetro parecia arrancar um pedaço do coração dela.
Mas havia algo novo ali também — uma paz silenciosa, quase triste, mas necessária.
Ela pousou a mão sobre o ventre e sussurrou:
— Um dia, você vai entender que tudo isso foi por amor.
Lá fora, o vento balançava as folhas.
O sol, tímido, começava a aparecer por entre as nuvens, como se anunciasse que mesmo as partidas mais dolorosas ainda guardam promessas de recomeço.
E, por um instante, Camila acreditou nisso.