capítulo 22- Entre o silêncio e o vento

1136 Palavras
O silêncio era diferente ali. Não o mesmo silêncio da mansão, cheio de tensão e passos contidos. Era um silêncio de verdade, o tipo que parece conversar com a alma — o som do vento passando entre as árvores, dos grilos à noite e da chuva batendo no telhado de madeira. Camila acordou cedo, com o cheiro de café fresco vindo da cozinha. O chalé era simples, mas acolhedor. As paredes de tijolo aparente guardavam um calor que ela não sentia há muito tempo. A amiga que lhe emprestara o lugar, Helena, deixara uma cesta de frutas e um bilhete: > “O interior cura de jeitos que a cidade não entende. Respira.” Camila sorriu de leve. Respirar era exatamente o que ela precisava aprender de novo. Foi até a varanda, envolta num xale leve, e observou a paisagem. O verde das colinas, o som distante de um riacho, o cheiro de terra e vida. Tudo parecia tão diferente do mundo que ela deixara para trás — aquele onde cada palavra era uma arma e cada gesto, uma ameaça. Mas, mesmo cercada por paz, o coração dela continuava barulhento. --- O vento brincava com o cabelo de Camila, e ela pensava em Ricardo. Nos olhos dele, na forma como a voz se tornava mais baixa quando falava o nome dela. E, por um instante, a lembrança trouxe um nó à garganta. Ela levou a mão ao ventre e o acariciou com ternura. — Ele deve estar bem... — sussurrou, como se o bebê pudesse ouvir. — Deve estar tentando fingir força, do jeito que sempre faz. Os olhos marejaram. Desde que partira, ela ainda não havia chorado. Guardara as lágrimas como se fossem um luxo que não podia se permitir. Mas ali, com o cheiro da chuva e o som dos pássaros, as defesas começaram a ruir. As lágrimas vieram silenciosas, descendo pelo rosto sem aviso. Não era só saudade — era culpa, amor, medo, tudo misturado. Chorou por ele. Chorou por ela. Chorou pelo que poderiam ter sido, e talvez ainda fossem, um dia. --- O barulho de um motor ao longe a despertou de seus pensamentos. Um carro passou pela estrada de terra e seguiu adiante. Camila sentiu o coração acelerar, como se esperasse que Ricardo surgisse ali, de repente, para buscá-la. Mas o carro desapareceu na curva. Ela suspirou, voltando a si. — Você prometeu, Ricardo... — murmurou. — Prometeu não vir. A lembrança da carta o fazia ainda mais presente. Às vezes, antes de dormir, ela o ouvia em pensamentos, como se ele ainda estivesse ali, sentado ao seu lado, falando sobre o futuro que sonhavam ter. --- Nos dias seguintes, Camila começou a se adaptar à nova rotina. Aprendeu a cuidar da pequena horta no quintal, a acender o fogão a lenha e a caminhar descalça pela grama molhada. A vida ali era simples, mas cada gesto trazia uma sensação de controle que ela havia perdido por tanto tempo. À noite, ela escrevia em um caderno antigo que encontrou no chalé. Não era um diário comum — era uma conversa com o bebê. > “Hoje o vento estava forte, e eu quase consegui ouvir sua risada dentro de mim. Às vezes acho que ele carrega mensagens do seu pai. Ele deve estar te esperando também.” Camila fechava o caderno com um carinho quase ritualístico e o deixava sobre a mesa, como se fosse uma carta para o amanhã. --- Certa tarde, ao ir até a cidade vizinha comprar mantimentos, Camila percebeu olhares curiosos. As pessoas sussurravam, discretas, mas o suficiente para que ela entendesse: o rosto dela ainda era conhecido. Alguns lembravam das manchetes. Outros apenas sentiam que já a tinham visto em algum lugar. O coração apertou. Mesmo longe, a sombra de Beatriz ainda a alcançava. Ela voltou para o chalé mais cedo, aflita. Sentou-se à mesa e respirou fundo, tentando se acalmar. “Eu não posso viver com medo”, pensou. “Mas também não posso deixar que o medo me encontre.” Decidiu que, dali em diante, ficaria mais reclusa. Aprenderia a ser invisível por um tempo, até que o mundo esquecesse. --- À noite, quando o luar entrava pela janela, Camila se deitou, abraçando o travesseiro. As mãos descansaram sobre o ventre e, por um instante, ela sentiu o bebê se mover. Um pequeno chute, leve, quase tímido. Um sorriso escapou entre as lágrimas. — Você sentiu isso também, não foi? — murmurou, emocionada. — É como se ele estivesse dizendo que está tudo bem. Aquela sensação de vida dentro dela a fez lembrar que não estava realmente sozinha. Havia amor, havia promessa, havia recomeço. --- Os dias seguintes foram passando em ritmo lento. Camila começou a pintar. Achou algumas tintas guardadas no armário do chalé e, instintivamente, começou a transformar as paredes em lembranças coloridas. Na parede da sala, desenhou um céu alaranjado com duas silhuetas olhando o horizonte. Era ela e Ricardo. E o bebê, ali, no meio do sonho. Pintar se tornou sua maneira de conversar com o tempo. Cada traço era uma tentativa de curar uma saudade que não sabia dizer em palavras. --- Certa manhã, enquanto regava as plantas, ouviu o som do carteiro passando pela estrada. Um envelope foi deixado no portão. Camila se aproximou, curiosa e apreensiva. O coração acelerou — por um instante, achou que pudesse ser dele. Mas não havia remetente. Apenas o endereço escrito à mão. Abriu com cuidado, e dentro havia um pequeno bilhete, com letras firmes e conhecidas: > “Estou cumprindo sua promessa. A casa está vazia sem você. Mas todas as manhãs, abro as janelas e deixo o vento entrar. Ele traz o cheiro da chuva e, com ele, um pouco de você.” Camila sentiu as mãos tremerem. Reconheceria aquela letra em qualquer lugar. Ela sorriu, chorando. Era o jeito dele dizer “estou bem” sem quebrar a promessa. Dobrou o bilhete e o colocou dentro do caderno, junto das cartas para o bebê. --- Mais tarde, sentou-se na varanda, observando o entardecer. O céu começava a mudar de cor — um laranja suave que lembrava o pôr do sol que vira com Ricardo dias antes de partir. Ela sabia que ainda o amava. Mas, pela primeira vez, entendeu que o amor também podia existir na distância, no cuidado silencioso, na espera que não exige nada além de fé. Camila pousou a cabeça sobre os joelhos e sorriu, cansada, mas serena. O vento soprou novamente, balançando as cortinas. E, naquele instante, ela jurou ter ouvido a voz de Ricardo ecoar entre as árvores: — Eu ainda estou aqui. Ela fechou os olhos, deixando o vento tocar o rosto como se fosse o toque dele. E, pela primeira vez desde que se separaram, o silêncio não doeu tanto.
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