A chuva lavava o para-brisa do carro com força, mas Beatriz não via nada além do próprio reflexo no vidro.
O rosto pálido, o batom borrado, os olhos avermelhados — como se a mulher ali fosse apenas o rascunho de quem um dia ela foi.
O volante tremia em suas mãos.
Ela respirava rápido, quase sem perceber.
“Ele a escolheu”, ecoava dentro dela, como uma sentença.
Ricardo, o homem que ela acreditava dominar por completo, havia olhado para outra com o tipo de amor que não se disfarça.
E o pior — agora existia uma criança.
Uma vida que unia o que ela tentou destruir.
A cada quilômetro percorrido, o coração de Beatriz oscilava entre raiva e dor.
Mas, no fundo, o que mais doía era o silêncio.
Ricardo não a odiava.
Ele apenas... não a amava.
E isso, para Beatriz, era o mesmo que morrer.
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Parou o carro no acostamento, desligou o motor e encostou a cabeça no volante.
O som da chuva era o único ruído.
“Como tudo chegou a esse ponto?”, pensou, fechando os olhos.
Ela lembrou do início — das promessas, dos sorrisos falsos nas festas de sociedade, das fotos em revistas que estampavam uma vida perfeita.
Mas, por trás das câmeras, havia solidão.
Um casamento de aparências.
Uma mulher tentando preencher o vazio com controle, dinheiro e vaidade.
E quando Camila apareceu, simples, doce e diferente de tudo o que Beatriz era... o medo tomou forma.
“Ela vai tirar tudo de mim.”
Foi o que pensou, lá no início.
Mas agora, depois de ver o bebê, depois de sentir o olhar de Ricardo... ela sabia: Camila não tirou nada.
Ela apenas recebeu o que Beatriz nunca soube dar.
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As lágrimas começaram a cair, silenciosas.
Beatriz encostou as mãos no rosto e chorou — não como uma inimiga, mas como uma mulher que não sabe mais onde pertence.
Por um instante, quis apenas sumir.
Deixar tudo para trás.
Mas então, algo dentro dela se endureceu outra vez.
— Ele não vai me apagar assim. — murmurou, encarando o retrovisor.
O reflexo mostrou uma mulher diferente.
Os olhos estavam firmes, frios.
O choro secou.
O medo deu lugar a uma determinação sombria.
Ligou o carro novamente, as mãos ainda trêmulas.
Sabia o que precisava fazer — ou pelo menos acreditava saber.
Não deixaria Camila viver o final feliz que ela nunca teve.
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Horas depois, Beatriz estacionou diante de um hotel antigo na estrada.
O letreiro piscava, cansado, e o cheiro de mofo no ar denunciava os anos de abandono.
Entrou com passos firmes, pedindo um quarto qualquer.
O atendente m*l a reconheceu — aquela mulher elegante agora parecia uma fugitiva.
No quarto, jogou a bolsa na cama e tirou de dentro dela uma pasta com documentos, recortes de jornal, fotos amassadas.
Tudo o que tinha de Ricardo e Camila.
Olhou cada foto com calma.
Em uma delas, Ricardo sorria para Camila, o olhar leve.
Beatriz passou o dedo sobre a imagem, sentindo o rosto que um dia beijou, o homem que acreditou possuir.
— Você prometeu — sussurrou, com voz rouca. — Prometeu que eu seria o seu mundo.
As lágrimas voltaram, mas ela as enxugou rapidamente.
O amor virou obsessão, e a obsessão agora era o único combustível que restava.
Pegou o celular e discou um número.
A voz do outro lado atendeu com frieza.
— Preciso que descubra onde ela está hospedada.
— Achei que tinha desistido.
— Eu nunca desisto — respondeu Beatriz, o olhar vazio. — Principalmente quando roubam o que é meu.
Desligou sem esperar resposta.
Depois, foi até o espelho.
O reflexo mostrava uma mulher exausta, mas ainda perigosa.
— Se o amor não me quis — disse baixinho —, o medo vai lembrar o meu nome.
Enquanto isso, no chalé, o amanhecer começou a clarear o céu.
Camila dormia com Gabriel nos braços, e Ricardo a observava em silêncio, alheio à tempestade que se formava fora dali.
Ele acreditava que, depois daquela noite, o pior havia passado.
Mas, do lado de fora, nas sombras, o passado estava só começando a cobrar seu preço.