A madrugada caiu pesada sobre o chalé. Do lado de fora, o vento passava entre as árvores como um aviso antigo, e a lua, escondida entre nuvens, parecia espiar o que estava prestes a acontecer.
Camila dormia m*l há dias. A gravidez avançava com peso e ansiedade, e cada movimento do bebê trazia uma mistura de dor e ternura. Mas naquela noite, algo mudou.
Um espasmo atravessou o corpo dela, profundo e instintivo. Acordou ofegante, levando a mão ao ventre.
— Não… ainda não… — murmurou, tentando se levantar.
Outro aperto veio, mais forte. Ela respirou fundo, lutando contra o pânico. O quarto parecia girar, e a lembrança de Ricardo dormindo no quarto ao lado lhe deu forças.
— Ricardo… — chamou, com a voz fraca. — Ricardo!
Em segundos, ele surgiu à porta, o rosto tenso, o olhar confuso de quem acorda de um sonho e cai direto no medo.
— O que foi? — perguntou, aproximando-se.
Camila segurou a mão dele com força. — Acho que está chegando a hora.
Por um instante, o tempo parou. Ele olhou para ela, depois para o ventre, e o coração começou a bater descompassado.
— Agora? Mas… ainda faltam algumas semanas. — O pânico escapou na voz.
— Eu sei… — sussurrou ela, suando frio. — Mas ele não quer esperar.
As horas seguintes foram um borrão de sons e respirações entrecortadas. O chalé, antes calmo, tornou-se palco de uma urgência silenciosa. Ricardo fazia o que podia — buscava toalhas, água, tentava ligar para a médica da vila, mas o sinal do telefone sumira com a tempestade que se formava do lado de fora.
— O tempo fechou — disse ele, olhando pela janela. — Nenhum carro vai passar por essa estrada agora.
Camila o olhou com medo e coragem ao mesmo tempo. — Então vamos ter que ser fortes juntos.
Ricardo ajoelhou-se ao lado dela. — Eu não vou sair daqui, ouviu?
Ela assentiu, os olhos marejados. — Eu sei.
O relógio marcava quase três da manhã quando a primeira contração forte a fez gritar. Ricardo segurou sua mão com força, tentando esconder o próprio desespero.
— Respira, amor… — dizia, tentando manter a calma. — Eu tô aqui.
Camila chorava, mas o olhar carregava algo maior que a dor — uma força que vinha do instinto, do amor, do medo de perder e da coragem de dar vida.
— Se acontecer alguma coisa comigo… — começou ela, entre lágrimas.
— Não fala isso! — ele interrompeu, a voz embargada. — Você vai ficar bem. Vocês dois vão ficar bem.
Ela sorriu, exausta. — Então promete… promete que vai amar ele por nós dois, se eu não conseguir.
Ricardo apertou os olhos, sentindo o nó na garganta. — Eu te prometo, mas você vai estar aqui pra ver.
O tempo perdeu o sentido. A dor e o amor se misturavam em cada respiração. A chuva caiu pesada, batendo contra os vidros, como se o mundo lá fora também sentisse a intensidade daquele momento.
E então, um choro. Fraco no início, depois mais forte, mais vivo.
Ricardo olhou incrédulo — o bebê estava ali, nos braços trêmulos de Camila, envolto em uma toalha improvisada. O som daquele choro cortou o ar como um milagre.
Camila olhou para o pequeno, as lágrimas caindo sem controle. — Ele… ele é lindo…
Ricardo riu entre soluços, encostando a testa na dela. — Vocês dois são.
Ela o encarou, o rosto iluminado pela luz branda da madrugada. — Como vamos chamá-lo?
Ricardo ficou em silêncio por alguns segundos, e então sussurrou: — Gabriel.
Camila sorriu. — Anjo…
— O nosso anjo — completou ele.
As horas seguintes foram de calma e silêncio. O bebê dormia entre eles, e Camila, exausta, repousava com um sorriso leve. Ricardo não conseguia desviar o olhar. Cada pequeno som, cada respiração dela, era uma lembrança de que o amor ainda pode vencer o medo.
Mas a paz, como sempre, era frágil. Do lado de fora, entre as sombras das árvores, um farol distante cortou a estrada molhada. Um carro parou.
Ricardo se levantou, o instinto em alerta. — Quem estaria aqui a essa hora…? — murmurou, indo até a janela.
Lá fora, uma silhueta feminina desceu do carro, o guarda-chuva n***o em contraste com a luz dos relâmpagos. Mesmo à distância, ele a reconheceu.
Beatriz.
O coração de Ricardo disparou. Ela estava ali. E, pela primeira vez, ele sentiu o verdadeiro medo — não o de perder o amor, mas o de precisar lutar por ele.
Camila, ainda fraca, percebeu a mudança no semblante dele. — O que foi?
Ricardo respirou fundo. — Fica calma, tá? Eu já volto.
Ela tentou se levantar, mas ele a impediu com um gesto. — Cuida do Gabriel.
E saiu, com o peso de quem sabe que o amor, às vezes, precisa ser protegido com o corpo e com a alma.
Lá fora, a chuva recomeçava, e Beatriz, parada diante do portão, parecia uma sombra do passado que insistia em voltar. Os olhos dela, frios, encontraram os dele.
— Então é aqui que você se escondeu… — disse ela, com um sorriso amargo.
Ricardo respirou fundo, molhado pela chuva. — Não estou mais me escondendo, Beatriz.
— E ela? — perguntou, olhando para o chalé. — Ainda acha que pode ficar com o que é meu?
Ricardo deu um passo à frente. — Nada disso é seu, Beatriz. Nunca foi.
O trovão cortou o céu, e o som ecoou entre eles como uma sentença. Dentro do chalé, o choro de Gabriel soou — fraco, distante, mas suficiente para incendiar o olhar de Beatriz.
— Então… é verdade. — disse ela, com a voz fria. — Ele existe.
Ricardo sentiu o corpo gelar. — Vai embora, Beatriz. Não faz isso.
Mas o brilho nos olhos dela dizia o contrário. A tempestade, afinal, ainda não havia terminado.