capítulo 27- Entre a vida e o amor

981 Palavras
A madrugada caiu pesada sobre o chalé. Do lado de fora, o vento passava entre as árvores como um aviso antigo, e a lua, escondida entre nuvens, parecia espiar o que estava prestes a acontecer. Camila dormia m*l há dias. A gravidez avançava com peso e ansiedade, e cada movimento do bebê trazia uma mistura de dor e ternura. Mas naquela noite, algo mudou. Um espasmo atravessou o corpo dela, profundo e instintivo. Acordou ofegante, levando a mão ao ventre. — Não… ainda não… — murmurou, tentando se levantar. Outro aperto veio, mais forte. Ela respirou fundo, lutando contra o pânico. O quarto parecia girar, e a lembrança de Ricardo dormindo no quarto ao lado lhe deu forças. — Ricardo… — chamou, com a voz fraca. — Ricardo! Em segundos, ele surgiu à porta, o rosto tenso, o olhar confuso de quem acorda de um sonho e cai direto no medo. — O que foi? — perguntou, aproximando-se. Camila segurou a mão dele com força. — Acho que está chegando a hora. Por um instante, o tempo parou. Ele olhou para ela, depois para o ventre, e o coração começou a bater descompassado. — Agora? Mas… ainda faltam algumas semanas. — O pânico escapou na voz. — Eu sei… — sussurrou ela, suando frio. — Mas ele não quer esperar. As horas seguintes foram um borrão de sons e respirações entrecortadas. O chalé, antes calmo, tornou-se palco de uma urgência silenciosa. Ricardo fazia o que podia — buscava toalhas, água, tentava ligar para a médica da vila, mas o sinal do telefone sumira com a tempestade que se formava do lado de fora. — O tempo fechou — disse ele, olhando pela janela. — Nenhum carro vai passar por essa estrada agora. Camila o olhou com medo e coragem ao mesmo tempo. — Então vamos ter que ser fortes juntos. Ricardo ajoelhou-se ao lado dela. — Eu não vou sair daqui, ouviu? Ela assentiu, os olhos marejados. — Eu sei. O relógio marcava quase três da manhã quando a primeira contração forte a fez gritar. Ricardo segurou sua mão com força, tentando esconder o próprio desespero. — Respira, amor… — dizia, tentando manter a calma. — Eu tô aqui. Camila chorava, mas o olhar carregava algo maior que a dor — uma força que vinha do instinto, do amor, do medo de perder e da coragem de dar vida. — Se acontecer alguma coisa comigo… — começou ela, entre lágrimas. — Não fala isso! — ele interrompeu, a voz embargada. — Você vai ficar bem. Vocês dois vão ficar bem. Ela sorriu, exausta. — Então promete… promete que vai amar ele por nós dois, se eu não conseguir. Ricardo apertou os olhos, sentindo o nó na garganta. — Eu te prometo, mas você vai estar aqui pra ver. O tempo perdeu o sentido. A dor e o amor se misturavam em cada respiração. A chuva caiu pesada, batendo contra os vidros, como se o mundo lá fora também sentisse a intensidade daquele momento. E então, um choro. Fraco no início, depois mais forte, mais vivo. Ricardo olhou incrédulo — o bebê estava ali, nos braços trêmulos de Camila, envolto em uma toalha improvisada. O som daquele choro cortou o ar como um milagre. Camila olhou para o pequeno, as lágrimas caindo sem controle. — Ele… ele é lindo… Ricardo riu entre soluços, encostando a testa na dela. — Vocês dois são. Ela o encarou, o rosto iluminado pela luz branda da madrugada. — Como vamos chamá-lo? Ricardo ficou em silêncio por alguns segundos, e então sussurrou: — Gabriel. Camila sorriu. — Anjo… — O nosso anjo — completou ele. As horas seguintes foram de calma e silêncio. O bebê dormia entre eles, e Camila, exausta, repousava com um sorriso leve. Ricardo não conseguia desviar o olhar. Cada pequeno som, cada respiração dela, era uma lembrança de que o amor ainda pode vencer o medo. Mas a paz, como sempre, era frágil. Do lado de fora, entre as sombras das árvores, um farol distante cortou a estrada molhada. Um carro parou. Ricardo se levantou, o instinto em alerta. — Quem estaria aqui a essa hora…? — murmurou, indo até a janela. Lá fora, uma silhueta feminina desceu do carro, o guarda-chuva n***o em contraste com a luz dos relâmpagos. Mesmo à distância, ele a reconheceu. Beatriz. O coração de Ricardo disparou. Ela estava ali. E, pela primeira vez, ele sentiu o verdadeiro medo — não o de perder o amor, mas o de precisar lutar por ele. Camila, ainda fraca, percebeu a mudança no semblante dele. — O que foi? Ricardo respirou fundo. — Fica calma, tá? Eu já volto. Ela tentou se levantar, mas ele a impediu com um gesto. — Cuida do Gabriel. E saiu, com o peso de quem sabe que o amor, às vezes, precisa ser protegido com o corpo e com a alma. Lá fora, a chuva recomeçava, e Beatriz, parada diante do portão, parecia uma sombra do passado que insistia em voltar. Os olhos dela, frios, encontraram os dele. — Então é aqui que você se escondeu… — disse ela, com um sorriso amargo. Ricardo respirou fundo, molhado pela chuva. — Não estou mais me escondendo, Beatriz. — E ela? — perguntou, olhando para o chalé. — Ainda acha que pode ficar com o que é meu? Ricardo deu um passo à frente. — Nada disso é seu, Beatriz. Nunca foi. O trovão cortou o céu, e o som ecoou entre eles como uma sentença. Dentro do chalé, o choro de Gabriel soou — fraco, distante, mas suficiente para incendiar o olhar de Beatriz. — Então… é verdade. — disse ela, com a voz fria. — Ele existe. Ricardo sentiu o corpo gelar. — Vai embora, Beatriz. Não faz isso. Mas o brilho nos olhos dela dizia o contrário. A tempestade, afinal, ainda não havia terminado.
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