capítulo 24- o custo de ficar

1153 Palavras
As semanas pareciam derreter em meses, mas para Ricardo o tempo continuava parado. O relógio da sala marcava a mesma hora de quando Camila partira — ele não teve coragem de ajustá-lo. Parecia, de modo inconsciente, tentar prender o instante em que ela ainda estava ali, respirando o mesmo ar que ele. A mansão, outrora símbolo de sucesso, transformara-se em um mausoléu. Os corredores reverberavam com ecos do passado, e cada detalhe guardava o peso de uma lembrança. Ricardo tentara reconstruir a vida. Fazia terapia, retornara ao trabalho com mais foco, mas nada preenchia o espaço deixado por Camila. O amor dela tornara-se uma espécie de bússola silenciosa — e cada passo longe dela o fazia se perder um pouco mais. Certa manhã, enquanto tomava café, recebeu uma ligação do advogado da família. A voz do outro lado soou cautelosa. — Senhor Ricardo, talvez seja melhor vir ao escritório. Surgiram alguns documentos… antigos. — Que tipo de documentos? — perguntou, franzindo a testa. — Relacionados à Fundação Beatriz. Há transações suspeitas e… envolvem o seu nome. O sangue dele gelou. Beatriz. Mais uma vez, ela surgia das sombras. — Estou indo — respondeu, encerrando a ligação. O escritório ficava no centro da cidade. Ricardo entrou apressado, cumprimentou o advogado com um aceno rápido e acomodou-se diante da mesa. O homem deslizou uma pasta grossa para ele. Dentro, cópias de contratos e extratos bancários. — São transferências de dois anos atrás — explicou o advogado. — Mas foram efetuadas após a sua assinatura. — O problema é que há indícios de falsificação. Ricardo folheou as páginas, o estômago embrulhando a cada linha. Os valores eram expressivos — e iam direto para contas ligadas a empresas fantasmas. — Quem mais tinha acesso a esses documentos? — perguntou, em voz baixa, mas firme. — Apenas a senhora Beatriz. O advogado fez uma pausa. — Ela registrou as doações como se fossem iniciativa dela. Isso pode abrir um processo, Ricardo. Ele respirou fundo, tentando contêiner o impulso de esmurrar a mesa. Aquela mulher não apenas tentava destruir o amor dele — agora, pretendia destruir seu nome. — Deixe tudo comigo — disse, levantando-se. — Vou resolver isso eu mesmo. Quando chegou em casa, Beatriz já o esperava. Sentada na sala, elegante como sempre, cruzava as pernas com a tranquilidade de quem acredita estar no controle. — Recebeu minha pequena lembrança? — questionou, com um sorriso quase doce. Ricardo aproximou-se lentamente, os olhos frios. — Por que está fazendo isso? Ela deu de ombros. — Porque você precisa lembrar de quem te ergueu. — Ninguém me ergueu, Beatriz. — Não subestime — retrucou ela, a voz corta. — Quando a conheci, você era um homem quebrado, sem ambição, sem nome. Fui eu quem te ensinou a jogar. — E você acha que isso é amor? — perguntou, incrédulo. — Eu te dei tudo, Ricardo. — Beatriz ergueu-se e aproximou-se dele. — E o que ela te deu? Uma barriga e um escândalo? A raiva dele transbordou antes que pudesse contê-la. — Ela me deu o que você nunca teve: a verdade. O silêncio que se seguiu foi cortante. Beatriz o encarou por longos segundos, e pela primeira vez algo em seu semblante vacilou. — Então é isso? Vai jogar tudo fora por uma mulher que te deixou? — Ela não me deixou — respondeu ele, firme. — Ela me salvou. Beatriz sorriu, mas o sorriso era frágil, marcado por uma dor interna. — Você sempre foi bom em acreditar em contos de fadas. Ricardo deu um passo à frente. — E você sempre foi hábil em destruir o que não entende. Por um momento, os dois permaneceram frente a frente, respirando o mesmo ar carregado de raiva e mágoa. Até que ele virou as costas e subiu as escadas sem olhar para trás. Beatriz o observou partir, os olhos marejados — mas o orgulho falou mais alto que o remorso. Horas depois, Ricardo estava em seu escritório, olhando fixamente para o ultrassom que Camila enviara. O bebê já deveria estar bem grande agora. Talvez ela sentisse os primeiros chutes. Talvez falasse com ele antes de dormir. Esses pensamentos o dilaceravam e, ao mesmo tempo, o mantinham vivo. Ele abriu a gaveta e retirou uma das cartas que havia escrito para ela. Leu em silêncio, e algo dentro dele finalmente cedeu. Não podia mais esperar. O medo de perdê-la definitivamente era maior do que o medo de enfrentar Beatriz, o escândalo ou o passado. — Basta — murmurou. — Preciso vê-la. Pegou o celular, ligando para um contato antigo — uma amiga de Camila, chamada Helena. A ligação demorou a ser atendida. — Ricardo? — a voz do outro lado soou surpresa e hesitante. — Sei que você prometeu não contar nada — disse, direto. — Mas preciso saber se ela está bem. Houve silêncio, seguido de um suspiro. — Ela está bem… dentro do possível. A gravidez está quase no oitavo mês. Mas ela chora muito. Ricardo fechou os olhos, o peito apertando. — Onde ela está, Helena? — Não posso dizer. Ela me fez prometer. — Por favor. — A voz dele vacilou pela primeira vez. — Não quero confundi-la nem forçar nada. Só quero ver se ela está segura. Do outro lado, Helena hesitou. Depois de um longo silêncio, respondeu: — Ela está em Santa Clara, num chalé perto do lago. Ricardo respirou fundo. — Obrigado. — Ricardo… — a voz dela soou preocupada. — Pense bem no que vai fazer. Ela ainda tem medo. — Eu também — respondeu ele, e desligou. Naquela noite, Ricardo preparou a mala. Não levou muita coisa — apenas o essencial, e o envelope com o ultrassom. Frente ao espelho, pela primeira vez em meses, olhou-se de verdade. Os olhos cansados, o rosto marcado, mas havia ali algo novo: decisão. Sabia que aquela viagem não seria apenas um reencontro — seria um acerto de contas com tudo que ficou m*l resolvido. Antes de partir, deixou um bilhete sobre a mesa, dirigido a Beatriz: “Você pode ter meu passado. Mas o meu futuro não te pertence. ” Pegou as chaves do carro e saiu. A noite estava fria, e a estrada parecia se estender até o infinito. Cada quilômetro era um passo em direção ao que mais temia — e ao que mais desejava. O vento batia forte contra o vidro, e o som do motor misturava-se às batidas aceleradas do coração. Ricardo não sabia o que encontraria em Santa Clara. Mas tinha certeza do que deixava para trás: um amor ferido, ainda vivo. E, no fundo, acreditava em uma verdade simples — alguns silêncios só podem ser curados pelo reencontro. Ricardo não sabia o que encontraria em Santa Clara. Mas tinha certeza do que deixava para trás: um amor ferido, ainda vivo. E, no fundo, acreditava em uma verdade simples — alguns silêncios só podem ser curados pelo reencontro.
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