As semanas pareciam derreter em meses, mas para Ricardo o tempo continuava parado.
O relógio da sala marcava a mesma hora de quando Camila partira — ele não teve coragem de ajustá-lo.
Parecia, de modo inconsciente, tentar prender o instante em que ela ainda estava ali, respirando o mesmo ar que ele.
A mansão, outrora símbolo de sucesso, transformara-se em um mausoléu.
Os corredores reverberavam com ecos do passado, e cada detalhe guardava o peso de uma lembrança.
Ricardo tentara reconstruir a vida.
Fazia terapia, retornara ao trabalho com mais foco, mas nada preenchia o espaço deixado por Camila.
O amor dela tornara-se uma espécie de bússola silenciosa — e cada passo longe dela o fazia se perder um pouco mais.
Certa manhã, enquanto tomava café, recebeu uma ligação do advogado da família.
A voz do outro lado soou cautelosa.
— Senhor Ricardo, talvez seja melhor vir ao escritório. Surgiram alguns documentos… antigos.
— Que tipo de documentos? — perguntou, franzindo a testa.
— Relacionados à Fundação Beatriz. Há transações suspeitas e… envolvem o seu nome.
O sangue dele gelou.
Beatriz.
Mais uma vez, ela surgia das sombras.
— Estou indo — respondeu, encerrando a ligação.
O escritório ficava no centro da cidade.
Ricardo entrou apressado, cumprimentou o advogado com um aceno rápido e acomodou-se diante da mesa.
O homem deslizou uma pasta grossa para ele.
Dentro, cópias de contratos e extratos bancários.
— São transferências de dois anos atrás — explicou o advogado. — Mas foram efetuadas após a sua assinatura.
— O problema é que há indícios de falsificação.
Ricardo folheou as páginas, o estômago embrulhando a cada linha.
Os valores eram expressivos — e iam direto para contas ligadas a empresas fantasmas.
— Quem mais tinha acesso a esses documentos? — perguntou, em voz baixa, mas firme.
— Apenas a senhora Beatriz.
O advogado fez uma pausa. — Ela registrou as doações como se fossem iniciativa dela. Isso pode abrir um processo, Ricardo.
Ele respirou fundo, tentando contêiner o impulso de esmurrar a mesa. Aquela mulher não apenas tentava destruir o amor dele — agora, pretendia destruir seu nome.
— Deixe tudo comigo — disse, levantando-se. — Vou resolver isso eu mesmo.
Quando chegou em casa, Beatriz já o esperava.
Sentada na sala, elegante como sempre, cruzava as pernas com a tranquilidade de quem acredita estar no controle.
— Recebeu minha pequena lembrança? — questionou, com um sorriso quase doce.
Ricardo aproximou-se lentamente, os olhos frios. — Por que está fazendo isso?
Ela deu de ombros. — Porque você precisa lembrar de quem te ergueu.
— Ninguém me ergueu, Beatriz.
— Não subestime — retrucou ela, a voz corta. — Quando a conheci, você era um homem quebrado, sem ambição, sem nome. Fui eu quem te ensinou a jogar.
— E você acha que isso é amor? — perguntou, incrédulo.
— Eu te dei tudo, Ricardo. — Beatriz ergueu-se e aproximou-se dele. — E o que ela te deu? Uma barriga e um escândalo?
A raiva dele transbordou antes que pudesse contê-la.
— Ela me deu o que você nunca teve: a verdade.
O silêncio que se seguiu foi cortante.
Beatriz o encarou por longos segundos, e pela primeira vez algo em seu semblante vacilou.
— Então é isso? Vai jogar tudo fora por uma mulher que te deixou?
— Ela não me deixou — respondeu ele, firme. — Ela me salvou.
Beatriz sorriu, mas o sorriso era frágil, marcado por uma dor interna. — Você sempre foi bom em acreditar em contos de fadas.
Ricardo deu um passo à frente. — E você sempre foi hábil em destruir o que não entende.
Por um momento, os dois permaneceram frente a frente, respirando o mesmo ar carregado de raiva e mágoa.
Até que ele virou as costas e subiu as escadas sem olhar para trás.
Beatriz o observou partir, os olhos marejados — mas o orgulho falou mais alto que o remorso.
Horas depois, Ricardo estava em seu escritório, olhando fixamente para o ultrassom que Camila enviara.
O bebê já deveria estar bem grande agora.
Talvez ela sentisse os primeiros chutes.
Talvez falasse com ele antes de dormir.
Esses pensamentos o dilaceravam e, ao mesmo tempo, o mantinham vivo.
Ele abriu a gaveta e retirou uma das cartas que havia escrito para ela.
Leu em silêncio, e algo dentro dele finalmente cedeu.
Não podia mais esperar.
O medo de perdê-la definitivamente era maior do que o medo de enfrentar Beatriz, o escândalo ou o passado.
— Basta — murmurou. — Preciso vê-la.
Pegou o celular, ligando para um contato antigo — uma amiga de Camila, chamada Helena.
A ligação demorou a ser atendida.
— Ricardo? — a voz do outro lado soou surpresa e hesitante.
— Sei que você prometeu não contar nada — disse, direto. — Mas preciso saber se ela está bem.
Houve silêncio, seguido de um suspiro.
— Ela está bem… dentro do possível. A gravidez está quase no oitavo mês. Mas ela chora muito.
Ricardo fechou os olhos, o peito apertando. — Onde ela está, Helena?
— Não posso dizer. Ela me fez prometer.
— Por favor. — A voz dele vacilou pela primeira vez. — Não quero confundi-la nem forçar nada. Só quero ver se ela está segura.
Do outro lado, Helena hesitou.
Depois de um longo silêncio, respondeu:
— Ela está em Santa Clara, num chalé perto do lago.
Ricardo respirou fundo. — Obrigado.
— Ricardo… — a voz dela soou preocupada. — Pense bem no que vai fazer. Ela ainda tem medo.
— Eu também — respondeu ele, e desligou.
Naquela noite, Ricardo preparou a mala.
Não levou muita coisa — apenas o essencial, e o envelope com o ultrassom.
Frente ao espelho, pela primeira vez em meses, olhou-se de verdade.
Os olhos cansados, o rosto marcado, mas havia ali algo novo: decisão.
Sabia que aquela viagem não seria apenas um reencontro — seria um acerto de contas com tudo que ficou m*l resolvido.
Antes de partir, deixou um bilhete sobre a mesa, dirigido a Beatriz:
“Você pode ter meu passado.
Mas o meu futuro não te pertence. ”
Pegou as chaves do carro e saiu.
A noite estava fria, e a estrada parecia se estender até o infinito.
Cada quilômetro era um passo em direção ao que mais temia — e ao que mais desejava.
O vento batia forte contra o vidro, e o som do motor misturava-se às batidas aceleradas do coração.
Ricardo não sabia o que encontraria em Santa Clara.
Mas tinha certeza do que deixava para trás: um amor ferido, ainda vivo.
E, no fundo, acreditava em uma verdade simples —
alguns silêncios só podem ser curados pelo reencontro.
Ricardo não sabia o que encontraria em Santa Clara.
Mas tinha certeza do que deixava para trás: um amor ferido, ainda vivo.
E, no fundo, acreditava em uma verdade simples —
alguns silêncios só podem ser curados pelo reencontro.