capítulo 25- o Reencontro do silêncio

1149 Palavras
O vento soprava suave sobre o lago de Santa Clara, fazendo as cortinas do chalé se moverem como se o próprio ar quisesse entrar para acolher tudo o que existia ali. O lugar era simples: uma sala acolhedora, o cheiro de pão recém-saído do forno vindo da cozinha e um quarto que se enchia de luz sempre que o sol nascia. Era naquele pequeno refúgio que Camila tentava, pouco a pouco, se reconstruir. Meses haviam passado desde que ela chegara. Foram dias longos e silenciosos, noites em que a chuva parecia conversar com o coração cansado dela. Dentro de si, uma nova vida crescia — forte, tranquila, cheia de promessas. E a cada pequeno movimento, Camila sentia o mesmo turbilhão: medo e esperança se entrelaçando como se fossem uma só coisa. Todos os dias, ela se sentava na poltrona junto à janela, observando o lago e as cores do céu que mudavam a cada hora. Parecia que o tempo tinha desacelerado, permitindo que ela respirasse depois da tempestade. Mas, mesmo cercada pela calma do interior, havia um nome que o coração dela se recusava a esquecer. Ricardo. Naquela manhã, ela despertou com a lembrança de um sonho. Via o rosto dele com nitidez — os olhos cansados, os lábios se movendo sem som. Era como se ele tentasse dizer algo, mas o vento levava as palavras antes que ela pudesse ouvi-las. Camila levou a mão até o ventre e murmurou, baixinho: — Será que ele pensa na gente, meu amor? O bebê respondeu com um leve movimento, e ela sorriu, com lágrimas contidas. — Eu também acho que sim. O médico da cidade vinha semanalmente para acompanhá-la. Sempre dizia que o bebê estava saudável, que tudo corria bem. Mas o que ele não enxergava era o que existia dentro dela — o vazio, a saudade, a incerteza de quem ama e não sabe se será amada de volta. No vilarejo, todos já a conheciam como a moça do chalé do lago. Era discreta, gentil, sempre com um sorriso sereno. Mas ninguém imaginava o quanto de dor e esperança aquele sorriso escondia. Às vezes, Camila caminhava até a antiga igreja no alto da colina. O cheiro de cera derretida e madeira envelhecida trazia uma paz que o mundo lá fora parecia incapaz de oferecer. Ela se ajoelhava diante do altar e permanecia ali, em silêncio — não para pedir, mas para agradecer por ainda ter forças. Mas, naquela manhã, algo estava diferente. Um aperto inexplicável tomou seu peito — um pressentimento que misturava saudade e urgência, como se o destino estivesse prestes a se reescrever. Ao entardecer, o céu se vestiu de dourado. Camila preparou uma sopa leve, colocou uma música suave e se acomodou na poltrona, olhando o reflexo do lago. Tudo parecia em harmonia, até que um som distante quebrou a calma: o ronco de um motor. Raro, naquela estrada quase esquecida. O coração dela acelerou. Tentou ignorar, mas o barulho ficou mais nítido, mais próximo. Então, dois faróis rasgaram a névoa e iluminaram a cerca em frente ao chalé. Camila se levantou, o corpo trêmulo, o ar preso no peito. “Não pode ser”, pensou. Mas, no fundo, já sabia. Abriu a porta antes que a batida ecoasse. E lá estava ele. Ricardo. O tempo pareceu parar. Ele estava diferente — mais magro, o rosto marcado por noites m*l dormidas. Mas o olhar... o olhar era o mesmo. Carregado de dor, arrependimento e um amor que ainda vivia. Por longos segundos, nenhum som preencheu o espaço entre eles. Apenas o olhar — intenso, hesitante, verdadeiro. — Eu... — a voz dele vacilou. — Eu não sabia se devia vir. Camila segurou o batente da porta, tentando conter as lágrimas. — Por que veio, Ricardo? Ele respirou fundo, firme, mas com os olhos marejados. — Porque eu não sei viver sem saber se você está bem. As lágrimas dela caíram sem resistência. — Eu pedi pra você não vir... — Eu sei. — Ele deu um passo à frente. — Mas já não conseguia ficar longe. O silêncio que se formou entre eles era pesado, cheio de tudo o que não haviam dito. Camila recuou um pouco. — Muita coisa mudou desde que eu fui embora. — Eu sei — respondeu ele, com o olhar voltado para o ventre dela. — E, ainda assim, estou aqui. Ela baixou os olhos. — Eu tentei seguir em frente, Ricardo... tentei esquecer. — E conseguiu? — ele perguntou, num fio de voz. Camila hesitou. O silêncio respondeu por ela. Ricardo se aproximou devagar, com a delicadeza de quem tem medo de quebrar algo precioso. — Eu não vim pedir nada. Vim apenas te ver. Saber que vocês estão bem. — E se eu disser que ainda tenho medo? — a voz dela saiu trêmula. — Eu também tenho. — Ele estendeu a mão. — Mas aprendi que coragem é seguir em frente, mesmo tremendo. Camila o olhou, e por um instante, o mundo pareceu simples outra vez. Como se o tempo tivesse voltado ao primeiro olhar, antes de todas as dores e promessas partidas. Ela deu um passo à frente e se permitiu encostar o rosto no peito dele. Ricardo a envolveu num abraço demorado — o tipo de abraço que parece juntar o que o tempo tentou separar. Ficaram assim, sem palavras. O silêncio, que antes era vazio, agora era abrigo. Quando se afastaram, Camila tocou o rosto dele com ternura. — Você não devia ter vindo. — Eu sei — respondeu, com um meio sorriso triste. — Mas, se não viesse, acho que nunca mais conseguiria respirar. Ela balançou a cabeça, emocionada. — As coisas não são simples, Ricardo. — Nunca foram. — Ele segurou a mão dela. — Mas talvez o amor não precise ser simples pra ser verdadeiro. Camila desviou o olhar, respirando fundo. — Eu não sei o que o futuro reserva. — Eu também não. — Ele sorriu de leve. — Mas quero descobrir com você. Ela pousou a mão sobre o ventre. — Ele mexeu — disse, emocionada. Ricardo arregalou os olhos, a voz embargada. — Posso...? Ela assentiu. Ele se abaixou, tocou a barriga com cuidado, e quando sentiu o movimento, uma lágrima silenciosa escorreu. — Ele sabe que eu tô aqui. Camila sorriu entre lágrimas. — Acho que ele sempre soube. Do lado de fora, o vento voltou a soprar, fazendo as árvores dançarem sob o luar. A noite desceu devagar, e o chalé se encheu de um novo tipo de silêncio — um que não machucava mais. Camila se acomodou na poltrona, e Ricardo sentou-se ao lado. Nenhum dos dois disse nada. Apenas ficaram ali, respirando juntos, como se aquele instante bastasse. E, pela primeira vez em muito tempo, Camila não sentiu medo. Apenas paz. O amor, ela percebeu, nunca tinha partido. Apenas esperou o momento certo para voltar.
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