Capítulo 4

803 Palavras
Melinda Acordei com o som do vento batendo na janela, uma sensação de inquietação me envolvendo, como se o próprio ar estivesse carregado de tensão. O quarto estava escuro, mas a luz da lua se infiltrava pelas frestas da cortina, lançando sombras estranhas nas paredes. A cada movimento, o medo parecia me consumir um pouco mais, como uma sombra que não me deixava. Eu não sabia o que era pior: o que Damom fazia comigo ou o que eu estava começando a sentir. Eu tentei ignorar, afasta-me do pensamento insano que insistia em invadir minha mente. Não, eu não podia me deixar levar por ele. Não podia me entregar ao jogo que ele queria que eu jogasse. Mas, no fundo, uma parte de mim sabia que já estava mais envolvida do que eu gostaria de admitir. O silêncio da casa foi interrompido pela porta do meu quarto se abrindo lentamente. Eu não precisei olhar para saber quem era. Era ele. Damom. Ele entrou como uma sombra, com passos silenciosos, mas carregados de uma presença avassaladora. Ele não precisava de palavras para fazer o ar parecer pesado, como se estivesse preenchendo cada canto da sala com algo que eu ainda não entendia. Algo que me assustava, mas ao mesmo tempo me atraía de uma maneira irracional. Ele me observava, como sempre fazia. Era impossível esconder qualquer coisa dele. Ele via através de mim de uma maneira tão brutal que me fazia questionar minha própria sanidade. — Dormiu bem? — Ele perguntou, e sua voz era suave, mas havia um toque de ironia nela, como se estivesse rindo da minha tentativa de resistência. Eu não disse nada. Não sabia o que dizer. O medo me paralisava, mas algo mais também estava lá, algo mais sombrio. Uma parte de mim queria gritar, queria se libertar daquilo, mas havia outra parte, mais sombria, que se sentia estranhamente confortável na prisão que Damom havia criado para mim. Ele não esperou pela minha resposta. Caminhou até a cama, parando bem ao meu lado. O cheiro dele estava tão perto que eu podia senti-lo em meus pulmões, uma mistura de tabaco, couro e algo mais selvagem, inconfundível. — Você não está fugindo, Melinda. — Ele murmurou, como se fosse uma observação, não uma afirmação. Eu me encolhi ligeiramente, tentando não demonstrar o quão afetada eu estava por suas palavras, mas meu corpo traía qualquer tentativa de manter o controle. Eu estava tão presa à sua presença que não conseguia mais diferenciar o que era meu e o que era dele. Damom se inclinou levemente, e seus olhos não saíam dos meus. Ele parecia estar me estudando, como se procurasse algo nas profundezas da minha alma, algo que ele soubesse que eu ainda não havia encontrado. — Você acha que é forte, não é? — Ele disse, sua voz baixa e cheia de intensidade. — Você acha que pode lutar contra mim, mas sabe o que acontece quando tentamos lutar contra algo que já nos tem, não é? Eu engoli em seco. Ele estava certo. Havia algo nele que já me dominava de formas que eu não entendia. Eu queria lutar, mas sabia que não teria forças para vencer. — O que você quer de mim? — Eu perguntei finalmente, minha voz saindo mais baixa do que eu gostaria, mas era a única coisa que eu conseguia dizer. Damom sorriu, um sorriso torto, cheio de segundas intenções. Ele sabia exatamente o que eu queria saber, mas não ia me dar a resposta. Ele gostava de brincar com a incerteza, com o medo que me consumia. Gostava de me ver perdida, sem saber o que esperar dele. — Eu já disse, Melinda. O que eu quero de você é que entenda o jogo. — Ele se afastou ligeiramente, deixando-me com a sensação de vazio que sempre vinha depois de suas palavras. — Você vai entender que não há escape. Não para você. Não para mim. Aquelas palavras se arrastaram pelo meu corpo como uma corrente fria. Não havia mais espaço para dúvidas, para esperanças. Eu estava tão presa que não sabia mais se queria lutar ou se havia me entregado, de alguma forma, ao que Damom me oferecia. Ele se virou para sair, mas antes de fechar a porta, ele lançou uma última frase, que fez o ar dentro do quarto se apertar ainda mais. — Não se engane, Melinda. Você já está mais perto de me pertencer do que imagina. Quando a porta se fechou atrás dele, a solidão me envolveu mais uma vez. Mas não era uma solidão comum. Era uma solidão amarga, aquela que vem com o peso de saber que, por mais que você tente fugir, você nunca vai sair da teia. E eu sabia que Damom estava certo. Eu já havia sido capturada. Não havia mais volta.
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