Pt.3 Alicerces: Entrelinhas da Arte

1338 Palavras
- Não podemos ter um relacionamento, nem ficar mais. Você tem a mente voltada nisso... Em criar um relacionamento, mas quero só ficar assim mesmo. Sei lá, somos grandes amigas, né? E não consigo pensar em você de outro jeito, mas foi bom. Espero que esteja tudo bem. Amo sua amizade e espero tê-la ainda. Ângela demonstrou levemente sua tristeza, como se seu chão de expectativas desabasse, mas agradeceu a sinceridade e prosseguiu com a conversa: - Obrigada por não me iludir como os demais – devolveu Ângela soltando um leve sorriso e tirando o foco e seriedade da situação. - Disponha. – Devolvendo o sorriso e mudando subitamente de assunto, a fim de descontrair ou expurgar a tristeza do momento –, estou precisando de alguns conselhos seus. Quero falar sobre algo com Dorian, mas temo a reação dele. Ele tem alguns problemas e não quero trazer mais. - O que seria e por quê? - O problema com minha mãe. Ele ficaria preocupado e provavelmente ia pensar nisso o tempo todo... Até tentaria ajudar, mas quero que ele se preocupe com ele. Então só falarei que irei viajar para São Paulo e me formar em medicina lá. Já pensava em desistir do jornalismo, então uni o útil e o agradável. – disse com pesar em suas palavras, ocupando o ambiente entre ambas com amargura. - Entendo... Então não vai falar sobre sua mãe com ele? Que ela está m*l? Você pode recusar a ajuda dele, ora. – Retrucou Ângela com objetividade, sem titubear. - Ele não pode fazer nada, de qualquer forma. Eu iria deixá-lo preocupado e isso não tem serventia. – disse Emil totalmente incerta, demonstrando seus contrastes de ideia e sentimentos. - Ok..., mas o que tenho a ver com isso? Tipo, não mudou de assunto tão de repente por causa da nossa situação, né? O que seria? - Tente se aproximar dele... Ser uma amiga. Ele me preocupa muito, você sabe. Preciso de outros olhos, pois sei o que acontecerá depois. - Emil, ele m*l olha para minha cara. Acha que sou qualquer uma e indigna de ter sua amizade. Desde quando o vi, ele só anda e fala com você. Ele sofre bullying por isso, por ser o “diferentão”. De qualquer forma, ele não precisa de mim, e tampouco, eu dele. – Retrucou Ângela frustrada e indignada com a ideia, enxergando-a como algo fútil e sem necessidade. - Você veio com ideia de terraplana, tentou encontrar sentido em astrologia com argumentos e tudo que tinha direito. Fora que ainda veio militar na frente dele! E eu disse que devia evitar, porque ele não gosta! Os assuntos que ele seleciona, podem ser dos mais rasos aos mais profundos. Na verdade, é tanta coisa que ele gosta. Vocês se dariam bem, são mais parecidos do que pensam, é que ele é bem fechado e cheio de frescura. – disse Emil com um doce sorriso. Ângela cruzou os braços, franziu a testa, demonstrando profundo indignação pelo que tinha sido exposto: - Assuntos selecionados por ele? Mas ele é muito chato! E eu nem tentei persuadir ele, tentei puxar assunto, só tive mais atitude que ele. Dorian tem a mania de achar que tudo que ele é e pensa vale mais que tudo. Não sei por que anda com ele por aí, eu não andaria. ENFIM. Emil sorriu, olhou perdidamente para algum local, como se tivesse vendo Dorian, como se tudo ali não existisse mais e respirou fundo, como se estivesse prestes a libertar-se de algum sentimento mais imenso que a própria Via-Láctea, como se estivesse expressando cuidadosa e artisticamente sobre cada detalhe de uma obra. Emil estava prestes a esculpir em mármore e a mais cara das sedas pacientemente: - A loucura dele bateu com a minha. Temos uma conexão. É como um livro de poesias, como obras de arte ou livro repleto de metáforas e neologismos que só você entende e pode ler cada vez mais e ficar mais curiosa ainda pelos mistérios. Não tem ninguém além de mim que possa entendê-lo, assim como ninguém melhor que ele para me entender. – disse certeiramente, como se seu proposito fosse esclarecer sua relação com Dorian e evitasse conversa além do necessário – Ângela sorriu, compreendeu o propósito do que tinha sido exposto, e a fitou com os olhos, dando a entender que nada mais precisava ser esclarecido. Então, de repente, sua expressão tornou-se cabisbaixa. Abaixou a cabeça e soltou um leve sorriso, e disse, com certa admiração entrelaçada com raiva: - Vejo essa conexão e sinto inveja, talvez vocês não se assumam porque querem farrear por aí. Ou sei lá por quê. Talvez seja porque vocês preferem assim, pois não corre risco de acabar com uma boa amizade. Relacionamentos são complicados, afinal. - É... Acho que não nos enxergamos como um casal. Estamos bem assim. – disse Emil como se estivesse sendo rondada por dúvidas, mas não só por um mar, mas pelo próprio dilúvio. - Tenho que ir agora, qualquer coisa, a gente se fala por lá, mana. Não queremos chegar atrasada, Dorian destruiu o humor do professor, como pôde notar – disse Emil, olhando para o relógio, demonstrando aflição pelo tempo e ao recordar do fato. Ângela soltou uma singela gargalhada, afirmou com cabeça e então ambas partiram para sala de aula. Por algum fato curioso, um dos dois negava, ou ambos negavam em ter que vivenciar um romance, pensavam em uma obra de arte, que apenas necessitava de interpretação, mas não significa que um ou outro a pintou ou que um dia pode acrescentar cores. Acontece que isto estava longe de ser compreendido, longe de ter uma base artística que interpretasse e definisse a distância de se aprofundar em um mundo sensível, frágil e propenso a desmoronar a qualquer momento. Na cabeça de Emil e Dorian, uma mente v***a e desprovida de sentimentos, uma vida que mutila a alma e escapa de ideias renovadas ou retrógadas de amor evitava essa romantização da biologia. Não importa! De qualquer forma, o amor ou a romantização da biologia, sempre é inconveniente, que em momentos de desespero, acaba sendo conveniente. Ao chegar na sala, Emil sentiu um clima tenso e desconfortável alastrando-se para cada canto da sala, desde o ocorrido. Os olhos cheios de julgamentos, as bocas repletas de escárnio e lamúrias, como se estivesse planejado meios, dos mais absurdos possíveis, para apedrejar Dorian. Por mais que ele demonstrasse seguro de sua postura, Emil tinha receio de todas as suas aflições; das mais profundas ou rasas, mas qual ou quem é você agora diante disso, ela se perguntava. Todos os maus tratos gerados na vida escolar, quando mais jovem, prevaleceram sobre todos os amores, afagou todos os sonhos, amor e esperança, como o fumante que traga incansavelmente para matar seu vício. Quem você quer matar Dorian? Sua paz, até o mais efêmero resquício de felicidade foi roubado por meras pratas de Judas, mas quem você assassina? Somente os mais íntimos o conheciam, como a família e Emil – não que Emil representasse não ser sua família, pelo contrário, talvez fosse a única que ele entregue atenção maior que o sol perante todos os planetas, sem intervalos que cedesse a lua. Emil desviou seus pensamentos ao escutar o professor divulgar sua atividade em grupo, evidenciando a quantidade e destacando que é opcional ter um grupo. Seriam grupos de quatro pessoas para dissertar detalhes sobre a história do jornalismo. A sala ficou agitada, muitos gritavam “vem, vem” ou “cola aqui, rápido”, e até lamentos de “pô, já tô aqui, não vai dar”. Emil e Ângela sempre eram as primeiras a serem escolhidas, e Dorian, entrava em um grupo porque era o que restava e o professor acabava obrigando alguém aderi-lo. Por mais que Emil o amasse, ela sabia o quão rígido era Dorian ao elaborar seus trabalhos, então ela entrava no primeiro grupo que a requisitassem, tanto pela vantagem de poupar trabalho excessivo e pelas demais amizades.
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