Desta vez, Dorian faria orgulhosamente só. Emil o encarou e interpretava a aflição exposta em seu rosto, mesmo que ele ainda deixasse exposto não se importar. A verdade é que é era evidente seu medo de estar só, ser mais um dentre outros, que mesmo na morte ou na vida, ainda tudo se seguiria e, de repente, seriam vagas lembranças do que já existiu e algum dia, estaria aprisionada na memória de alguém..., “que alguém? Sempre teve alguém? E se não tiver? Talvez estas sejam indagações de Dorian”, pensava Emil. Em seguida, seus pensamentos foram interrompidos por um de seus amigos no grupo, que bateu levemente em seu braço para ganhar sua atenção. Emil fechou seu rosto, demonstrando raiva, e bradou veemente, como furacão na zona mais remota destruindo tudo ao seu redor:
- NÃO PRECISA BATER NO MEU BRAÇO, INFERNO!
- Nós tava falando o que cada um ia fazer e até chamamo você! Por isso fiz isso, surtada – disse Marcelo, todo sorridente, encarando a situação de forma cômica.
Emil fechou seus olhos e respirou fundo, passou a mão na testa, fitou com os olhos e disse com toda sua fúria e sabiamente afiada:
- Primeiro, não é nós, e sim, “Estávamos falando”, fala direito. Isso dá agonia, e não bate em meu braço, ele não é seu, então eu surto mesmo. – Demonstrando repudio pelo ato de Marcelo e atingido completamente seu humor.
- Tá andando demais com aquela coisa, não acha? – retrucando rudemente Marcelo.
- Ai, menino, para de falar merda. Foca no trabalho. Aliás, não fala assim dele e nem de ninguém, você nem conhece e fica com essa mania. Se toca, coisa ridícula!
O grupo parou de falar por um momento voltando seus olhos para Emil, totalmente surpreso com sua atitude. Emil respirou fundo e quebrou o clima tenso, dando ênfase para assuntos voltado para o trabalho e sobre o que abordaria, embora todos ainda estivessem perplexos com o ocorrido. Enquanto Emil e os demais debatiam, Ângela se levantou e caminhou naturalmente até Dorian, como se o conhecesse há anos! Dorian se sentara na carteira próxima a janela, e muito atrás da turma. Ao chegar até ele, Ângela sorriu, pôs ambas as mãos na própria coxa, se abaixou e disse com sua voz doce e gentil:
- Tudo bem? Vi que não entrou para um grupo, e esse trabalho parece ser muito extenso para uma pessoa só, não acha? – disse, embora com segurança, ainda tinha receio e repensava se foi a coisa certa a fazer. Vinham inúmeras paranoias que Dorian a atacaria, como os pagãos no m******e contra os saxões.
Dorian virou-se para Ângela, com os olhos um pouco lacrimejantes e com o mesmo olhar avassalador e, para sua surpresa, além dos olhos expurgando lagrimas, mesmo insignificantemente, Dorian sorriu e iluminou seu olhar opaco subitamente, respondendo com entusiasmo:
- Não, quero fazer só. Porém, além de ser a coisa mais estranha diante da minha pessoa, admito minha surpresa e até... – antes que terminasse, Ângela antecipou sua fala, o interrompendo:
- Feliz? Eu sei..., costumo deixar as pessoas felizes – retrucou com um sorriso pela leve descontração, e em seguida disse: vamos! Não perderá nada. A gente se encontra com o grupo e vai desenvolvendo. Vamos lá! Ou você vai me obrigar a deixar o pessoal e formar uma dupla com você? – disse sarcasticamente acompanhado de um sorriso, em seguida, pegou uma cadeira e se sentou ao seu lado.
Dorian fechou seu rosto, demonstrando desconforto pela situação que se encontrou e assim que pôde, falou sem rodeios e com as mais sinceras palavras e desprovida de qualquer gentileza:
- Ângela, para. Não precisa fazer isso. Não tenho i********e com você e não precisa se sentir obrigada a fazer as coisas só porque Emil pediu. Você é melhor que isso.
- E por que Emil pediria isso? E por que seria ela, especificamente? – retrucando rapidamente e removendo quaisquer semblantes de gentileza, de acordo com a mesma face da moeda.
- E seria quem, Ângela? – indagou Dorian, domado por fúria, embora sua entonação mantivesse resguardada.
Ângela respirou fundo, olhou para baixo demonstrando ter naufragado em seus devaneios, e após algum tempo, disse:
- Emil quer que sejamos amigos, sabe, mas isso não seria suficiente para fazer eu me sentar ao seu lado, Dorian. Não acredita nos sentimentos de alguém? – disse com a maior seriedade e sobriedade, como se seu proposito fosse domar uma fera que só pensasse em atacar, e transforma em um animal doméstico, mas ia muito além de um pedido! Além de sentir uma mera misericórdia. Ângela se compadeceu subitamente pela situação de Dorian estar só, como se o compreendesse, como se ali estivesse ela. Dorian, embora tentasse disfarçar, pôde sentir e demonstrar seu sentimento de culpa e arrependimento, mas manteve sua postura conveniente:
- Acredito que isso deve ser descartado, na maior parte do tempo. – Pôs a admirar lado afora da janela, tentando evitar continuidade do assunto. Ângela redarguiu, rapidamente, como se estivesse prestes a cravar uma lâmina:
- Deve ser descartado, mas não pode deixar de se sentir, não é? Olha... – Ângela deu uma leve tapinha em suas costas, e logo, removeu sua mão, como se lembrasse que a pessoa com quem se comunicara e prosseguiu – imagino que deve ser sobrecarregado lidar com as coisas só, ou tentar sempre ficar só. Não sentiu o olhar de todos quando você só foi você mesmo? Não sentiu quando todos se uniram uns aos outros, mas o trataram com indiferença? Sabe como as pessoas se sentem agora, não sabe?
Dorian silenciou-se brevemente, mas apesar das palavras fazer diferença, embora Dorian não estivesse olhando em seus olhos. Ele fechou os punhos e os contraiu, ressentindo toda a situação e correspondendo com sua fúria impiedosamente, como se desejasse que a própria ira de deus algum caísse sobre todos. Dorian respirou fundo como se quisesse se libertar de qualquer resquício de ira alguma e disse:
- Entendi..., estou equivocado, mesmo estando ciente da situação, ainda só me resta raiva, mas entendi o que quis dizer. Você está certa, Ângela. – Disse enquanto tirava os olhos lentamente da janela. Em seguida, pegou sua caneta e seu caderno e simplesmente afastou todos os seus devaneios e disse:
- Então vamos até seu grupo – com um leve sorriso e entusiasmo, como se estivesse disposto a enfrentar um desafio.
- Uau, isso foi surpreendente, mas... – Ângela começa a coçar sua cabeça e soltou um leve sorriso descontraído e disse: é que eu menti, não entrei em um grupo. Eu ia fazer só, mas vi que você estava só aí pensei: isso pode dar merda, mas pode dar certo.
- Ah..., então vamos lá. – Retrucou Dorian enxergando a situação como incomum, mas considerou sua empatia abertamente, para surpresa de ambos, e continuou – Mas, por favor, não fala de signos e tampouco terraplana, prefiro focar no trabalho, se não for incomodo claro.
Ângela revirou os olhos e soltou bruscamente sua respiração, expondo desacordo com a proposta. Logo, elevou levemente sua voz, com ardor, disse:
- Posso concordar parcialmente com o que disse, mas pelo amor, né! Vamos descontrair um pouco. A gente faz o trabalho, se quiser, até nos encontrarmos para debater ou discutir sobre, tem ligaç..., - antes de concluir sua fala, Dorian solta a caneta e faz um leve sinal com as mãos, como se dissesse “para um minutinho”, e demonstrando desacordo com o que seria dito e fala:
- Sem ligações! Odeio. Marcar um local de encontro é mais viável para ambos, não acha? Claro, dependendo da disponibilidade de cada.
- Sempre to disponível, para nossa sorte. – disse com um leve sorriso e entusiasmo, esquecendo completamente a breve situação de conflito e contornando para inúmeras conversas de planejamento sobre o que fariam no trabalho.
Após alguns minutos, Emil olha para ambos e vê sorrisos, e até mesmo, entusiasmo de ambas as partes ao discutir sobre um simples trabalho.