A calmaria e alívio de Emil rondou maior parte da sua cabeça, embora houvesse também um leve desconforto. Emil pensara “que bom que se resolveram, espero que consigam desenvolver algum trabalho. Se ele tá sorrindo, acho que é um bom sinal..., mas por que ainda me sinto estranha com isso...?”, tão repentinamente, Emil desfaz de seus pensamentos e volta toda sua concentração para discutir o trabalho. Porém, Marcelo notou seu olhar e indagou, cheio de graça e sarcasmo:
- Eita, bateu ciúme agora? Não vai se desconcentrar! – disse todo sorridente e debochado.
Emil não conteve sua raiva, e disse bruscamente, como se quisesse afogá-lo com suas palavras:
- Alguém pede pra esse menino calar a boca? Não aguento mais ouvir a voz dele, não fala nada aproveitável.
Todo mundo riu da situação, inclusive Marcelo, e mudaram de assunto para evitar que ficasse um típico clima desconfortável no grupo. Embora, como Marcelo de forma perspicaz notou, poderia ser que Emil nutrisse algum sentimento que julgasse profano e o negara. Quem sabe, além de ela, afinal? Ainda assim, se algo ocupasse seus sentimentos, jamais ocultou tamanho amor e consideração pelo que seu melhor amigo escolhia, lutou com ele para afogar seus demônios, mesmo que muitos ainda profanasse suas terras sagradas.
Restando alguns minutos para saída, o professor deu liberdade para os alunos ficarem à vontade e construir seus grupos como planejaram. Professor Marco exigiu que entregasse os nomes dos integrantes do grupo em uma folha e iria anexá-los, na ordem que fosse entregue. Quando Dorian entregou seu papel, Marcelo que estava logo atrás, diz rispidamente, como se jorrasse não só a água fria dentro de um balde, mas arremessasse o balde.
- Aproveita, e pede perdão pro professor de joelhos. Aliás, por que está entregando isso? Nem faz diferença pra você. Quem, em plena consciência, teria paciência em escutar você falando mais de 1 minuto?
Mas Dorian ignorou e continuou na fila, porém, o professor Marco escutou perfeitamente e repreendeu Marcelo no mesmo local que encontrara, reconhecendo o peso de suas palavras. Embora Dorian fosse misterioso, Marco parecia estar ciente de algumas complicações mentais que Dorian sofria e tentava pacientemente “educá-lo”. Marcelo demonstrou sua frustação e recolheu-se em silencio, por mais que quisesse responder, tinha enorme consideração pelo professor Marco.
Dorian, por mais que não tivesse demonstrado sentir o peso de tais palavras mundanas e asquerosas sob seu ver, aquilo ainda foi outro balde para que transbordasse suas emoções. Quando se sentou em sua carteira, próximo a Ângela, de repente, suas palavras foram tomadas por vazio e seu olhar se perdeu. Ângela perguntava algumas vezes, interrompendo suas ideias pautadas para Dorian sobre o trabalho de jornalismo, se estava realmente tudo bem, pois notara que ele afundou em algum pensamento que ela desconhecia, tudo que sabia, era que algo aconteceu na fila.
Após o término da aula, Dorian se despediu de Emil e Ângela rapidamente e partiu para sua casa. Emil ficou preocupada e perguntou o que se passaria, mas Dorian simplesmente partiu. Ângela chamou Emil para acompanhá-la até o professor Marco, mas Emil disse que estava com pressa e queria saber se Dorian estava bem, e assim, saiu rapidamente, não permitindo que Ângela explicasse a situação. Então, Ângela dirigiu-se até Marco e perguntou o que houve:
- Licença, professor, Marco. – disse enquanto adentrava timidamente na sala de aula, com receio de estar incomodando, pediu delicadamente licença e disse: aconteceu alguma coisa com Dorian? Ele, do nada! Mudou e quero saber se houve algo, sabe.
Marco colocou sua mão no rosto e passou seus dedos entre as duas sobrancelhas e desceu até a ponte do nariz, expondo sua raiva e indignação. Soltou sua respiração e disse de forma aflita:
- Ele se desentendeu com um aluno, não vou citar nome. Mas não se preocupe, Dorian ficará bem.
Ângela permaneceu séria, a fim de deduzir e encontrar resposta pelo ocorrido, o que não demorou e disse, furiosa e obstinada:
- Com certeza foi Marcelo sendo inconveniente, cara, com certeza! Ele é um i****a. O senhor o repreendeu??
- Ângela, não posso ficar falando dessas coisas, desculpe. Você é uma boa aluna, mas não vou dizer nada além do necessário! Isso não dá liberdade para eu ceder informações. – Retrucou rispidamente Marco, evitando que a conversa prolongasse – se me der licença, tenho que ir. Até mais, Ângela e se cuida!
Ângela ficou furiosa e indignada com a resposta, mas se conteve e aceitou, mesmo que fosse inconvenientemente! E considerou sua suspeita. Sem mais delongas, pediu desculpa e retirou-se.
Ao chegar em casa, Dorian relembrou dos comentários na sala sobre sua pessoa e manteve-se cabisbaixo até chegar ao chuveiro. Onde pôde se recostar na parede e esconder suas lágrimas nas águas que despencara do chuveiro, sua ferocidade em saber e questionar era admirável, mas ainda e inevitavelmente cedia aos pesos das palavras, assim então lembraria brevemente da empatia. Ao terminar, olhou para o reflexo no espelho em silêncio e domado pela fúria, Dorian encara o espelho como se tivesse diante do seu pior inimigo, e como se este inimigo, fosse culpado por todas as catástrofes de sua vida. Com todo seu ódio, esbalda suas palavras de escarnio e oscila entre o mais chulo ao “certo”, acreditando que através delas tudo seja despejado como sequencias intermináveis de soco, como se um tsunami inundasse todos os espaços da cidade, destruísse e matasse tudo:
- Interminavelmente, isso nunca acaba..., todas as merdas de dia, tenho que olhar para esses rostos asquerosos movido por um falso moralismo, falsa ideia de propagação de liberdade. São todos a mesma podridão daqueles Corvos malditos, desses MERDAS DE POLITICOS EGOCENTRICOS! Eu..., vocês, todos nós lutamos por uma mentira e desestrutura mundial e eu sou a p***a de um estrume?! E AINDA SIM! A CULPA É SUA POR NÃO SABER DE NADA!
Dorian acerta um soco, com toda força no espelho, extravasando sua fúria na dor e no golpe deferido. Em seguida, Dorian retoma sua respiração e sua consciência, fecha os olhos e, de repente, é tomado por indignação pelo ocorrido e diz naturalmente e com cinismo para si:
- Ah..., perdeu o controle de novo, hein. Quantas vezes eu disse: não leve essas coisas a sério, pois tudo se esvai – dizia enquanto amaciava delicadamente a sua ferida na mão direita. Nada faz diferença, ou depende. Tudo que resta, é um sorriso para estampar nesse maldito rosto, não é? Seguir mentindo – Dorian soltou um leve sorriso, como se uma piada mais ou menos engraçada tivesse sido dita, despertando o seu humor. Aos poucos, foi limpando a sua ferida na pia, calma e delicadamente, transparecendo que fosse somente uma sujeira, e não uma ferida. Então prosseguiu:
- Você é melhor que isso..., você nem é como esses imbecis. Apenas siga em frente! – e novamente, gargalhou incansavelmente e sem pudor, com ardor e transbordando de alegria, parecia que uma piada hilária havia sido citada. Por mais doentio que fosse, Dorian agia naturalmente diante disso, sorria, mesmo que não houvesse razão, mesmo que sua mão estivesse ensanguentada, alguma coisa tinha graça. Aliás, o mundo sempre avançou assim, então para ele, agir assim, não era tão incomum, mas uma reflexão do que somos: sorrisos abnóxios por desconhecer a mazela que nos acerca. Dorian pegou o kit de primeiros socorros que se encontrava em uma das gavetas próximo a sua pia, pegou soro fisiológico, esparadrapos, ataduras e fez um curativo em sua mão.
Em seguida, esfregou seus olhos e disse “isso não fará diferença nos meus dias” e saiu do banheiro. Sentou-se no sofá, pegou seu celular e avistou a primeira notícia “Os investimentos dos Corvos, com mais de 500 milhões em ensino e saúde, diminuíram a taxa de desemprego para 3%”, Dorian fechou seu rosto imediatamente e disse “Idiotas... Dissertam sobre um dos maiores criminosos do século 21 como se fosse um herói, o exaltam ainda!”.