Pt. 6 Alicerce: Entrelinhas da Arte

1342 Palavras
Quando estava preste a escrever, alguém tocou a campainha repetidas vezes. Dorian se levantou e foi atender. Para sua surpresa, era Emil completamente sublime. Ela estava com um belo vestido transpassado preto e com um batom vermelho escuro. Entrou sem mais delongas em casa e disse: - Estava desconfiando que fosse esquecer-se do que tínhamos marcado. - Quê? – Dorian coçou levemente a cabeça e disse – a previsão do tempo aponta para chuva. Achei que fosse deixar pra lá. Aliás..., não lembro de nenhuma programação com você. - Chuva não é desculpa... E temos carro. - Mas não pretendo sair de carro, prefiro sair a pé e sentir a brisa da natureza. Emil abriu a porta, bem séria, e apontou para fora e disse de forma inflexível, empenhada em tirá-lo de casa: - Vamos? Tem aquele restaurante perto do Açude Velho. Dividimos a conta. - A comida de lá é horrível. – disse Dorian demonstrando indisposição para sair e manter-se bêbado de solidão. - Vamos ao bar, qualquer bar mesmo e então comer uns salgado e depois beber cachaça. Dorian gargalhou levemente e a fitou com os olhos, demonstrando incredulidade pelo que havia sido dito. Então indagou veemente como se aquilo tivesse despertado “levemente” seu interesse: - É sério? - Sim... Não quer se divertir? Sair dessa rotina chata sua? – disse Emil com o sorriso mais doce e cheio de pecado. - Tá... Ganhou meu voto. Vou me vestir. Dorian trocou de roupa rapidamente e convidou Emil para sair. Enquanto caminhavam, Dorian indagou: - Espera... Só um momento: por que veio de vestido? Poderia ter se arrumado de uma forma bem mais à vontade. Quero dizer... não que eu esteja ditando algo. Se você se sente bem, então tudo bem. - É... Realmente achei que fosse até o Bar do Cuscuz, você tem cara dessas coisas, então tentei vestir algo adequado – disse Emil sorridente – - E acertou, mas a comida de lá é terrível. Se quiser ir até lá, pode ser. - Mas lá é horrível! - E me chamou assim mesmo? Emil silenciou-se brevemente, em seguida soltou seu sorriso cínico e singelo, e disse com entusiasmo e ansiosa: - O mais importante é que você está comigo e vamos ficar bêbados! – disse Emil completamente empolgada e erguendo os braços, como se estivesse comemorando um gol. Ao olhar de relance para Dorian, notou as ataduras em sua mão e o pequeno sangramento. Imediatamente indagou: - DORIAN?? Tá sangrando..., o que foi isso?? Tem a ver com o que houve mais cedo? – disse Emil domada por aflição, em seguida, segurou sua mão a fim de investigar, mas de imediato, Dorian puxou de volta sua mão e disse: - Ah, eu..., me acidentei com o espelho, não se preocupe! Vamos logo, por favor, foi só uma besteira. – Retrucou cortando os ramos de uma conversa que levaria até uma raiz, uma raiz que insiste em esconder e envenenar-se só. Emil entendeu e não o pressionou, embora estivesse ficado aborrecida, mas seguiu em frente, respeitando sua decisão e querendo ter uma noite desprovida de aborrecimento para ambas as partes. Ambos então caminharam até o destino, conversando sobre coisas simples da vida, brincando na rua e atraindo olhares do tipo “o que eles estão fazendo?”. Ambos saíam correndo atrás do outro brincando de pega-pega ou apostando corrida de quem chegaria primeiro em determinado local. Conversavam sobre tudo, desde uma fofoca sobre a vizinha da casa ao lado até problemas emocionais ou psicológicos. Embora Emil falasse a coisa mais profunda do que estivesse se passando e Dorian aconselhasse, jamais falava sobre como se sentia ou como estava seu palácio da mente. Fora omissão de seus pensamentos e sentimentos, a amizade deles mantinha-se forte. Eram duas almas inocentes desacorrentadas do mundo, e em harmonia com a natureza do que eram: loucos e desvairados. Ao chegar, ambos pediram pequenas coxinhas de muitos sabores, suco e prosearam sobre Apolíneo e Dionisíaco para repensar sobre a vida: - Acho a reflexão de Friedrich Nietzsche espetacular e bem desenvolvida no livro “O Nascimento da Tragédia” que discorre bem e afirma que nossa natureza Dionisíaca é elementar e prazerosa. Posso entender que tanto Apolo (deus da razão) quanto Dionísio (deus da libido) fazem parte do que somos e o eterno conflito que jaz nos seres sobre qual atender, embora eu desvalorize seu outro ponto de vista dizendo que Dionísio é só fase juvenil. - Onde leu isso? - Minhas pesquisas, Emil, pesquisas... - Não acredita em tudo lê, acredita? - Não... Acredito em tudo que penso, pois é quase o único momento que lembro que sou livre. - “Você pode me acorrentar, você pode me torturar, pode até destruir meu corpo, mas você nunca vai aprisionar a minha mente”, frase de Mahatma Gandhi, o expatriado africano advogado, escritor e ativista que empregou a resistência não violenta para independência da Índia do Reino Unido. Claro que nesse sentido entendemos o que ele quis dizer com esta frase. A luta da Índia oscilou entre violência e não violência para libertar-se enfim em 15 de agosto de 1947 para prender-se em outro conflito, só que interno. Mahatma tentava unir o povo e libertá-los dessa briga e divisão, porém a consequência disso foi seu assassinato pelo próprio e nacionalista hindu Nathuram Godse em 30 de janeiro de 1948. A utilidade disso para nosso diálogo é que não só Apolo ou Dionísio, ou fases! Mas o que muitas vezes pode tirar nossa paz e matar nossa libido, matar nossa razão está em nós. O que acontece aqui fora é só mais uma parcela, uma pequena parte e que estará em nós. Isso cria fases, isso nos traz reflexões para pesar razão x desejo, pois muitas vezes nem tudo pode saciar. Dorian bebeu seu suco, comeu a última coxinha e caiu de cabeça e suas palavras, refletindo profundamente em sua analogia e comparação mantendo seu rosto pensativo e evidentemente tentado a concordar e sem debater sobre. Soltou sua respiração aliviado e disse de forma franca com entonação séria: - Não me atrevo a deslapidar sua reflexão. Está impecável. Embora Mahatma fosse um sexista e pedófilo, lamento - Ad hominem! Isso não tira a relevância de sua luta. Enfim, você poderia dividir a coxinha, não é? - Poderia, mas meia-coxinha não faria diferença no seu estomago. Emil acerta um leve tapa no ombro de Dorian, sorri e diz “palhaço”. Sorriram e levantaram-se, seguindo para fora do parque e rumo ao açude. Lá compraram cerveja, Dorian preferia tomar vinho, mesmo que fosse do mais barato possível, pois não gostava de cerveja. Emil adorava cerveja, principalmente Itaipava. Discutiam então sobre obras, músicas e política fora e dentro do Brasil, dando início ao estado bêbado. Dorian então resolveu comentar sobre a música “Svefn-g-englar” de Sigur Rós, uma banda islandesa de post-rock com elementos melódicos para atribuir ainda mais vivacidade a conversa de ambos! Que se estendia cada vez mais, na mesma medida que se adentrava seus sentimentos e aflorava o mais belo jardim, como se fosse a primavera. Como chamamos as plantas que afloram de uma só vez fora da primavera? Enfim, o que os envolvia atropelava todo mistério, toda dúvida e se tornavam uma junção de cores de fogos de artifícios que desenham o céu. Melhor que isso; asteroides decaindo em fragmentos alastrando o céu com o mais esbelto fenômeno, mas onde esses fragmentos caiem? O que acertam? Vejamos. Ao colocar a música, Dorian descreveu de forma suave e apaixonada sua preferência: - Essa música é perfeita, o seu nome traduzido é: Anjos e Sonâmbulos. - Realmente é linda, mas prefiro as minhas – disse Emil enquanto virava mais um copo de cerveja, perdendo parte de mais alguma moralidade ou senso através da bebida, soltando o seu sorriso inocente, porém timidamente esfacelador para almas que apreciava do mesmo. - Ainda não terminei... Escute a tradução que lerei, depois escute a música – Dorian pausou a música e leu tranquilamente para Emil.
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