Eu estou aqui de novo,
Dentro de você
E é tão bom ficar
Mas eu não posso ficar por muito tempo
Eu flutuo em volta de um liquido de hibernação
Num hotel
Ligado à mesa de eletricidade
E me alimentando
Mas a espera me deixa inquieto
Eu chuto a fragilidade pra fora
E grito “eu tenho que ir, socorro”.
Eu explodo e a paz se vai
Sou banhado em luz nova
Eu choro e choro, desconectado!
Um cérebro abandonado colocado em seios
E alimentado por um anjo sonâmbulo
Dorian mexeu novamente em seu celular e colocou a música, em seguida, fez um doce sinal de silêncio seguido de um sorriso. Colocou cerveja no copo de ambos, deixando Emil surpresa, e bebeu alvoroçado e sedento, consentindo completamente em perder rédeas de sua sanidade e moral. Ambos apreciaram em silêncio aproveitando 10 minutos e 07 segundos de música. Dorian entrara em estado contemplativo e apreciativo. Emil deleitou-se do ritmo e seguiu com a mesma intensidade e sorriu levemente. Tomando mais um gole de cerveja. Após longos minutos de silêncio, Emil diz com seu sorriso adocicado e olhar suave envolvidos pela música e o clima do momento:
- Ele se refere ao período gestacional e ao parto. Ele romantizou tudo e ficou realmente muito lindo, principalmente o ritmo da música.
Dorian só concordou com a cabeça e tomou mais um gole. Depois olhou para o açude e contemplou, juntamente com a brisa da música. Emil se levantou e estendeu a mão para Dorian, como se estivesse convidando para dançar. Dorian olhou e perguntou “o que foi?”, mas Emil apenas chacoalhou a mão como se estivesse dizendo “apenas venha”. Dorian se levantou e juntou-se a mesma. Ambos então entrelaçaram suas almas portadas de grandiosidade em uma dança, música e uma bela lua cheia que se escondia aos poucos detrás das nuvens como o sentimento que tanto relutavam, mas sabiam que nem mesmo a nuvem apaga este brilho intenso deste luar? Talvez. Emil se recostou sobre seu ombro sorrindo e então dançavam bem devagar. Embora Emil não tivesse notado, uma leve lágrima caiu do olho esquerdo de Dorian. Ele então disfarçou e a deu o maior abrigo do mundo em um abraço. Quando a música acabou, deu início a outra com o nome “Dauðalogn”, do mesmo grupo, cuja tradução é “Calmaria”. Antes que a música acabasse, Emil diz tão tímida, mas certa, com palavras coberta de amor, tão ávida, mas tão calmamente doce; como a harmonia de uma música em seus lábios. Sim, seus lábios perfeitamente desenhados preenchiam seus ouvidos distraídos, mas ansiosos de se acalentar por um singelo “eu te amo”, com um:
- Jamais te abandonarei.
Dorian soltou um leve sorriso e permaneceu em silêncio. Durante o momento, algumas gotículas despencaram do céu cada vez em proporções maiores. Ambos se desfizeram do abraço, viraram o último copo de cerveja e conduziu-se até o estabelecimento para pagar, mas claro, encerrando aquela noite inesquecível, não poderiam esquecer a gloriosa cachaça. Depois correram imediatamente rumo à chuva como duas crianças desvairadas e inocentes, sedentos para brincar. Pensaram em seguir então para baixo do monumento “Museu de Arte Popular da Paraíba”, para recuperar o mínimo de folego e então, ambos começaram a trocar risos e relembrar coisas de quando eram mais jovens:
- Dorian, você lembra quando alguém estava acenando para outra pessoa e achou que fosse para você? Você retribuiu e com um sorriso, daí a pessoa começou a rir e disse “não é você não, rapaz”.
Dorian sorriu todo desconcertado e descontraído ao relembrar, e até coçou suavemente sua cabeça, mas retrucou todo risonho e nostálgico:
- Como não lembrar? Fiquei constrangido! Realmente achei que era algum conhecido. Lembro também de quando estávamos voltando da pizzaria e chamamos Uber e o motorista disse “vou pegar um atalho”. Você não lembra, mas estava um pouco alcoolizada e disse a ele “você vai pegar p***a nenhuma, segue o GPS aí, meu bom”.
Emil começou a gargalhar e disse:
- Como assim? Claro que lembro! Mas por que atalho? Estávamos bem perto de casa! Ele estava estranho.
- Fala isso só porque ele tinha cara de sapo... E sapos são legais.
- Mas ele é um homem com cara de sapo... E com um carro. Isso muda muito as coisas!
Ambos ficaram rindo e silenciaram por um breve momento. Depois, Dorian cantou levemente “I’m singin in the rain”. Emil soltou um leve sorriso e disse:
- Ele não só canta, viu?
- Claro que não! – disse Dorian enquanto caminhava para fora no monumento rumo a chuva, dançando da forma mais leve possível e do seu jeito.
Emil ficou estupefata e imediatamente sorriu, tapando a boca com as mãos. Dorian continuava com dança leve com algumas gracinhas e cantarolando:
Just siiingin’ in the rain
What a glorious feeling
I’m happy again!
I’m laughing at clouds!
Emil saiu também e ambos foram caminhando pela beira do açude cantando juntos e dançando, com algumas gracinhas e sorrindo. Sentiam um aglomerado enorme de emoção naquele momento. Dentre sorrisos e brincadeiras, dança! Eram almas afora do corpo dançando a eterna música tênue da vida, da biologia, da química. Dorian soltou-se cada vez mais, dançando da forma mais solta possível. Até escorregar e cair no chão. Ao invés de Dorian levantar imediatamente, deitou-se no chão ensopado de chuva e tomando um belo banho no rosto. Emil gargalhou muito! Parando de cantar e deixando Dorian seguir só com a música:
The sun’s in my heart
And I’m ready for love
Let the stormy clouds chase
Everyone from the place
Come on with the rain
Emil foi até Dorian ajuda-lo, porém, para sua surpresa, foi derrubada também. Ambos gargalharam e ficaram no chão... Bêbados. Emil disse “seu i****a” com um sorriso. Dorian se levantou e ajudou Emil, mas tinha dificuldade de se equilibrar. Ao ajuda-la, Dorian quase caiu novamente, mas foi aparado por Emil, assim, ambos ficaram com o rosto próximo e com o olhar fixo um no outro. Nem Emil e tampouco Dorian se lembraram de desligar a música do celular, que por alguns instantes, parecia mais alta que o normal. Estava tocando “Varúð”, de Sigur Rós e estava em 2:37 de música. Ambos não se soltaram, ambos estavam perdidos em um universo não só de arte, biologia ou filosofia. Então puderam enxergar que mergulharam em um mar de sentimentos e pensamentos, fervidos em desejo... Em puro desejo de ter e saber quando pudera ter. Por que negaria isso? Por que agora poderia se dizer “é o fruto proibido” e inibir libido. Emil então foi se aproximando bem devagar e disse,” por favor”, bem ofegante. Foi então que Dorian segurou delicadamente seu rosto, fechou os olhos com Emil e deu o melhor beijo de todos. Emil repousou seu rosto em suas mãos delicadas e beijo apaixonado e misterioso. Emil então o envolveu com seus braços e devolveu o beijo mais intenso possível. Levemente ambos foram se afastando levemente, mantendo o olhar da alma fixo um no outro. Sorriram e saíram correndo como loucos. A essa altura, estavam ainda no “Museu de Arte Popular da Paraíba”. Emil esquecendo praticamente que a qualquer momento pode virar para o açude e cair nele, deitou-se no banco, puxou bruscamente Dorian e o contrapôs entre suas pernas e o beijou fervorosamente, como se tivesse colocado gasolina para apagar chamas remanescentes; desprovidas de pudor, desprovidas de qualquer lei e avassaladora. Depois escutaram “vão pra casa pelo menos, véi”, fazendo com que ambos rissem sem parar. Dorian então se levantou, olhou para o relógio e então disse:
- Já é madrugada! Acho que perdemos a hora. – disse Dorian enquanto sorria –
- Mas nos achamos nela. – disse Emil com um olhar penetrante e um sorriso exacerbadamente provocador –
- É... Vamos pra qual casa?
- A minha está mais próxima!
- O que ainda estamos fazendo aqui, senhorita?