Pré-visualização gratuita 📖 CAPÍTULO 1: O Silêncio das Paredes Brancas
📖 CAPÍTULO 1: O Silêncio das Paredes Brancas
O silêncio naquela casa era quase uma presença física. Não era um silêncio pacífico, do tipo que traz calmaria após um dia longo; era o silêncio da estagnação. Um eco constante que lembrava Olívia, a cada segundo, da escolha que havia feito três anos atrás.
Aos vinte e cinco anos, Olívia olhava-se no espelho do banheiro principal e, às vezes, tinha dificuldade de reconhecer a própria imagem. Seus longos cabelos na cor mel caíam em ondas perfeitas até a altura da cintura, contrastando com sua pele clara. No reflexo, seus olhos claros carregavam uma maturidade que não combinava com a sua idade cronológica. Ela vestia um robe de seda elegante, um dos muitos presentes caros que decoravam seu guarda-roupa. Seus dedos contornavam distraídos as poucas tatuagens que tinha na pele, pequenos traços de rebeldia de uma juventude que parecia ter ficado guardada em uma gaveta trancada.
Ela era a esposa de Otávio. Para o mundo exterior, ela era uma mulher de sorte.
Olívia desceu as escadas de madeira maciça da mansão com passos leves. A casa era impecável. Otávio fazia questão de que ela não precisasse mover um dedo. Ele a provia com o melhor: cartões de crédito sem limite, jantares em restaurantes caros, uma segurança financeira que a maioria das jovens da sua idade m*l ousava sonhar. Otávio tinha cinquenta anos e, embora o tempo e o sedentarismo tivessem cobrado seu preço — deixando-o visivelmente acima do peso e com o semblante permanentemente cansado —, ele era um homem bom. Ele cuidava bem dela. Nunca levantara a voz, nunca a deixara faltar nada, e a tratava com um carinho quase paternal.
E esse era, secretamente, o maior castigo de Olívia.
Na mesa do café da manhã, Otávio já estava sentado, folheando o tablet com o cenho franzido, concentrado em suas ações e negócios. A xícara de café fumegava ao seu lado. Ele tinha 1,70 m de altura, os cabelos grisalhos raleando e a postura de alguém que já havia desistido de lutar contra a gravidade e o tempo.
— Bom dia, querida — disse ele, sem desviar os olhos da tela, esticando a mão roboticamente para o lado.
Olívia aproximou-se, depositou um beijo suave em sua bochecha e segurou sua mão por um segundo.
— Bom dia, Otávio. Dormiu bem? — a pergunta dela era mecânica, uma rotina ensaiada mil vezes.
— O de sempre. Aquela dor nas costas continua me incomodando, acho que preciso trocar o colchão de novo — ele suspirou, finalmente deixando o tablet de lado para olhar para ela. — Você está linda hoje. Esse robe fica bem em você.
— Obrigada — ela sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos.
Ela serviu-se de um pouco de suco. O carinho dele era real, e a gratidão que Olívia sentia por tudo o que ele fizera por ela nos últimos três anos era genuína. Mas a gratidão não conseguia acender o fogo que estava apagado. A vida s****l deles havia morrido de forma lenta e silenciosa no segundo ano de casamento. O sedentarismo de Otávio e seu cansaço crônico transformaram as noites de amor em noites de sono pesado, onde ele dormia como uma pedra antes mesmo que Olívia pudesse deitar-se ao seu lado.
Ela passava as noites encarando o teto, ouvindo o ronco compassado do marido, sentindo seu próprio corpo jovem vibrar com uma energia que não tinha para onde ir. Ela havia aceitado aquilo. Convencera a si mesma de que a paz e a segurança valiam o sacrifício da sua paixão. Ela era a esposa perfeita, a companheira dedicada de um homem mais velho.
Até que, no meio do café da manhã, Otávio limpou a garganta, adotando um tom de voz que misturava hesitação e uma leve preocupação.
— Olívia... preciso te contar uma coisa. Recebi uma ligação ontem à noite, tarde. Era o Lucas.
Olívia parou a xícara no meio do caminho. Ela conhecia o nome, claro. Lucas era o filho do primeiro casamento de Otávio. Sabia pouca coisa sobre ele, além do fato de que o rapaz morava longe com a mãe, era uma espécie de espírito livre e que a relação entre pai e filho sempre fora distante, fria.
— O que houve com ele? — perguntou ela, pousando a xícara.
— Ele terminou a faculdade, ou foi expulso, não entendi bem... A mãe dele está mudando de país e ele decidiu voltar para cá. Ele me pediu um teto por um tempo. Para colocar a vida nos eixos, procurar um rumo.
Otávio suspirou, parecendo ainda mais cansado. Ele olhou para Olívia quase com um pedido de desculpas nos olhos.
— Eu não podia dizer não, Olívia. Ele é meu filho, afinal de contas. Sei que nós temos a nossa rotina, a nossa paz aqui... mas ele chega hoje à tarde. Tudo bem para você?
Olívia olhou para a mesa impecável, para as paredes brancas e silenciosas da casa que pareciam um mausoléu de luxo. Uma pontada de algo que ela não soube identificar — talvez curiosidade, talvez apenas a quebra da monotonia — subiu por sua espinha.
— Claro, Otávio. A casa é sua, e ele é seu filho. Será bem-vindo. Vou pedir para a empregada arrumar o quarto de hóspedes do fim do corredor.
— Obrigado, querida. Você é maravilhosa — Otávio sorriu, visivelmente aliviado, voltando sua atenção para o tablet. Ele não tinha ideia de que estava abrindo as portas da sua fortaleza para o homem que a destruiria por completo.
O restante do dia passou como um borrão. Olívia supervisionou a limpeza do quarto de hóspedes. Ela mesma escolheu os lençóis, sem saber exatamente o porquê de estar prestando tanta atenção àquilo.
Às dezessete horas, o som de um motor potente e barulhento ecoou pela garagem da mansão, quebrando o silêncio sagrado da casa. Olívia, que estava na sala de estar lendo um livro, sentiu seu coração acelerar uma batida sem motivo aparente.
Otávio já caminhava em direção à porta principal. Olívia levantou-se lentamente, ajeitando o vestido casual que havia escolhido, e seguiu o marido.
Quando a porta se abriu, o ar pareceu sumir do ambiente.
Parado no umbral, segurando uma mochila de lona preta jogada displicentemente sobre um dos ombros, estava Lucas.
E ele não parecia em nada com o pai.
Lucas era uma força da natureza. Tinha impressionantes 1,90 m de altura, obrigando Otávio a erguer a cabeça para encará-lo. Seu corpo era largo, forte, evidente sob a camiseta preta justa que usava. A pele morena clara exibia os braços musculosos cobertos por tatuagens intrigantes que sumiam sob as mangas da roupa. O cabelo preto, liso e bem cortado emoldurava um rosto de traços marcantes, maxilar travado e olhos escuros que pareciam analisar tudo ao redor com uma audácia cortante.
— Pai — a voz de Lucas era um barítono profundo, rouco, que pareceu vibrar nas paredes de madeira da sala.
— Lucas... Meu filho. Quanto tempo — Otávio deu um abraço desajeitado no rapaz, batendo em suas costas. O contraste entre os dois era quase doloroso: o pai, baixo, cansado e acima do peso; o filho, alto, imponente e transbordando uma juventude perigosa.
Lucas desfez o abraço e, finalmente, seus olhos escuros pousaram em Olívia.
Ele a mediu de cima a baixo. Não foi um olhar discreto. Foi um olhar lento, que começou em seus pés, subiu pelas curvas do seu corpo sob o vestido, deteve-se nos seus cabelos longos na cor mel e terminou fixo em seus olhos claros. Olívia sentiu a pele queimar, como se aquele olhar estivesse despindo-a no meio da sala.
Um sorriso encantador, mas carregado de uma ponta de malícia, surgiu nos lábios de Lucas.
— E você deve ser a Olívia — disse ele, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre eles de forma que ela precisou inclinar a cabeça para trás para encará-lo. O perfume dele — algo amadeirado, misturado com o cheiro de couro e asfalto — invadiu o olfato dela.
— Sim... Sou eu. Seja bem-vindo, Lucas — ela estendeu a mão, tentando manter a pose de dona de casa madura.
Lucas aceitou a mão dela. Mas, em vez de um aperto formal, sua mão grande, firme e quente envolveu os dedos trêmulos de Olívia por um segundo a mais do que o necessário. Seu polegar roçou de leve nas costas da mão dela antes de soltá-la.
— Obrigado... tia — ele pronunciou a palavra com um tom arrastado, quase imperceptível em sua ironia, enquanto aquele sorriso encantador permanecia em seu rosto.
Olívia engoliu em seco, sentindo um arrepio violento descer por sua espinha. O silêncio daquela casa havia acabado de ser destruído. E, no fundo de sua alma, ela sabia que sua vida perfeita nunca mais seria a mesma.