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Eu voltei da viagem como se não tivesse voltado de verdade.
Ainda tinha a sensação da morte da minha mãe grudada em mim — como se o mundo tivesse parado naquele dia e eu tivesse sido obrigada a continuar andando mesmo assim.
Mas ninguém perguntou como eu estava.
Ninguém perguntou se eu queria voltar.
Meu pai só decidiu.
Decidiu que eu não tinha escolha.
Decidiu que a minha vida podia ser organizada como um contrato.
Um casamento.
Um fazendeiro bilionário. Viúvo há quatro anos.
E minha irmã… outro acordo. Outro homem rico. Outro destino vendido como se fosse normal.
Eu não tive voz em nada disso.
Quando cheguei e vi o nome dele sendo dito como se fosse sentença, eu já entendi que não era discussão. Era fato.
E então ele apareceu.
Afonso.
E junto dele… uma criança.
Uma menina de uns cinco anos. Pequena demais pra estar naquele tipo de situação. Olhando tudo com aqueles olhos atentos, como se já tivesse aprendido cedo demais a não confiar em ninguém.
Bia.
Aquilo me quebrou de um jeito estranho, porque não era só sobre mim.
Era sobre ela também.
Eu não queria aquilo. Não queria aquele homem. Não queria aquele destino. Não queria um cartório como cenário da minha vida inteira desmoronando.
Mas eu estava ali mesmo assim.
Com um vestido branco simples.
Bonito demais pra uma mulher que estava sendo empurrada pra uma vida que não escolheu.
Minhas mãos estavam frias.
Eu sentia o peso do silêncio entre todos nós como se fosse um julgamento.
Afonso estava firme. Postura dura, controlada demais. Como se aquilo fosse só um processo burocrático — e não uma mudança irreversível na minha vida.
Eu queria gritar.
Mas minha garganta não saía som.
Porque, no fim, eu já tinha entendido uma coisa:
ninguém ali estava me pedindo
O cartório parecia menor do que deveria.
Ou talvez fosse eu que estivesse grande demais por dentro — cheia de pensamentos, sufocada, sem espaço pra respirar.
O som do papel sendo virado parecia alto demais. Cada assinatura sendo preparada soava como uma decisão que não podia ser desfeita.
Alguém falou meu nome.
Eu demorei um segundo pra entender que era comigo.
Quando me aproximei da mesa, senti o olhar dele em mim.
Afonso.
Não era um olhar agressivo. Nem gentil.
Era… controlado.
Como se ele estivesse me avaliando sem dizer nada. Como se já tivesse decidido algo sobre mim antes mesmo de eu chegar ali.
Eu peguei a caneta.
Minhas mãos tremiam.
Eu odiei isso.
Assinar deveria ser simples. Um gesto rápido. Mas naquele momento parecia que eu estava entregando algo que nunca mais voltaria pra mim.
Minha vida.
Quando terminei, soltei a caneta devagar, como se isso pudesse atrasar o inevitável.
Silêncio.
O oficial continuou falando coisas que eu nem consegui processar direito. Palavras legais. Frases formais. Tudo muito distante da realidade do que aquilo significava.
Então eu senti uma presença pequena perto de mim.
A menina.
Bia.
Ela não falou nada no começo. Só ficou ali, me olhando como se estivesse tentando entender quem eu era dentro daquilo tudo.
Eu me abaixei um pouco, sem pensar.
— Oi… — minha voz saiu baixa.
Ela não respondeu de imediato.
Olhou pra Afonso.
Depois pra mim de novo.
E finalmente falou, quase num sussurro:
— Você vai ficar aqui?
Aquilo me travou.
Porque não era uma pergunta simples.
Era uma pergunta de criança que já tinha perdido demais pra confiar em qualquer resposta.
Eu não sabia o que dizer.
E pela primeira vez desde que tudo começou… eu senti v*****e de chorar.
Mas antes que eu pudesse responder, senti a mão dele — firme, segura — tocando levemente no ombro da menina.
Afonso.
— Bia — ele disse baixo, mas com autoridade. — depois você pergunta isso.
Ela abaixou o olhar.
E eu entendi, naquele segundo, que aquela casa não era só dele.
Era dela também.
E eu estava entrando num lugar onde já existiam feridas antigas… antes mesmo de eu chegar.
O silêncio voltou.
Mais pesado ainda.
E quando ele falou comigo pela primeira vez, a voz dele foi calma demais pra situação:
— Vamos terminar isso.
Eu levantei o olhar.
E naquele instante, eu soube.
Não era o fim de uma assinatura.
Era o começo de algo que eu ainda não sabia se ia conseguir suportar.