Capítulo 1

1066 Palavras
Eu estou ferrada. Estupidamente ferrada. Bufo pela terceira vez, me apoiando no parapeito da varanda. Já é o décimo apartamento que eu olho hoje, e o décimo que tenho que recusar pelo maldito preço do aluguel. Por que tem que ser tudo tão caro nessa droga de cidade? E olha que o lugar nem é lá tudo isso. Eu juro que vi um rato correndo atrás da porta quando o cara estava me mostrando o apartamento. Eles estão se achando Barbie demais pro meu gosto. Solto um suspiro pesado, vendo que terei que deixar mais uma oportunidade de aluguel para trás. A tentação de ligar para os meus pais me atinge de novo, e, de novo, seguro a vontade. Não posso ceder tão fácil. Tenho que mostrar a eles que posso ser independente. E isso inclui encontrar a droga de um lugar pra ficar com o mínimo de um aluguel decente, a não ser que eu queira morar embaixo da ponte enquanto frequento a Universidade. Droga. Droga, droga, droga. Já estou me afastando da varanda e da vista maravilhosa daqui, contrariada, quando meu celular toca. Desço às escadas enquanto pego o aparelho nas mãos e atendo, ouvindo a voz de Anna. — E aí? Deu certo? — O que você acha? — eu resmungo, ouvindo o som dos meus mini-saltos ecoarem pelo ar conforme desço os degraus. — Nada. Nem pechinchar deu certo. Tava quase me oferecendo pra virar faxineira do prédio inteiro. Minha voz sai tão emburrada quanto eu gostaria, e olho para os lados assim que chego à saída do edifício. Alguns táxis correm pela estrada, ao mesmo tempo em que avisto uns empresários bem de vida caminhando pela calçada; com maletas escuras e paletós estilosos. Tenho que me controlar pra não me ajoelhar aos pés deles e pedir por um pouco de esmola. — Ninguém mandou escolher a cidade dos burgueses, senhora riquinha — debocha Anna, e reviro os olhos para ela conforme caminho para mais perto da estrada, esperando por um táxi. — As coisas por aí parecem ser um absurdo mesmo. Por que não fica na república? — Porque também é caro — eu respondo sombriamente; levantando meu braço para chamar a atenção dos taxistas. Não passa mais nenhum. Maravilha. — Acho que vou ter que me render mesmo. Não vou achar um aluguel barato o suficiente aqui pra minha renda curta. O sonho da vida universitária acabou. Quando conheci a Unens, mais ou menos uns dois anos atrás, fiquei apaixonada pela faculdade. Como é federal, sabia que seria um porre pra passar, mas criar um objetivo grande na adolescência me fez permanecer firme. E é claro que eu também me apaixonei pela cidade, embora não soubesse naquela época que ter dinheiro é uma coisa tão difícil. Riviera é uma cidade linda, mas tudo aqui é caro pra merda. E o fato dela ficar a dois mil quilômetros de distância dos meus pais também foi uma questão um tanto tentadora na hora de escolher. — Por que você não divide o aluguel com alguém? — sugere minha amiga, ao mesmo tempo em que fico na ponta dos pés pra tentar enxergar mais algum táxi vindo. Cadê essas merdas de carro quando se precisa deles? — Daria o preço de um aluguel só se fosse em uma cidade não tão burguesa igual essa aí, mas já seria alguma coisa. Não conhece ninguém que esteja procurando um lugar? — Pior que não — eu murmuro, colocando uma mão na cintura e soltando um suspiro pesado. — E agora tá em cima demais pra eu procurar por alguém. As aulas na Unens já começam na próxima semana. Eu tô muito ferrada, Anna. — Relaxa, preguiçosa, vou procurar pra você algum universitário desesperado e sem-teto. E fica atenta, porque se não tiver jeito vai ter que falar com os seus pais mesmo. Vou dar uma procurada aqui. Boa sorte e qualquer coisa me liga, tipo se tiver feito amizade com algum mendigo ou algo assim. Vou adorar saber dos relatos da vida de uma ex-burguesa. — Cala a boca — eu resmungo, por mais que uma risada me escape. — Tenho que obrigar um uber a me atender agora. Te ligo depois. — Certo. Nós podemos brigar e viver enchendo o saco uma da outra, mas eu não sei o que faria sem a Anna. Somos melhores amigas desde que nos entendemos por gente, ainda que sejamos o contrário uma da outra; enquanto minha amiga tem uma aparência delicada e fofa, com um cabelo loiro escuro de dar inveja, eu pareço mais uma versão sem-graça e menos bonita da Anne Hathaway. Entretanto, apesar desses detalhes, temos uma coisa em comum: o péssimo gosto pra escolher homens. Anna está morando a umas quatro horas de distância daqui, junto com o namorado. Eles brigam mais que gato e rato. E, por algum motivo, continuam voltando um pro outro. Como uma maldição. Sinto falta de ter ela por perto, mas por sorte a tecnologia existe. Se eu ficar um dia sequer sem Anna, sou capaz de surtar. Ainda mais nas circunstâncias nem um pouco favoráveis em que minha vida se encontra desde que me afastei dos meus pais. Quando abro o zíper da minha bolsa e jogo o celular dentro dela, atravessando a rua distraidamente, ouço o som alto de uma moto se aproximando. Se aproximando mesmo. Viro-me no exato instante em que colido com o motoqueiro, que freia bruscamente ao me ver parada no meio da rua. Grito na mesma hora. Tão alto que a avenida toda deve ter escutado. — Você é louco?! — eu berro, sentindo meu coração parar na garganta conforme o doido para a tal moto, começando a tirar seu capacete. — Você podia ter me matado! Ter me feito perder uma perna ou um braço! Qual é o seu problema? Ele não fala nada, apesar de seus gestos corporais apressados indicarem que também está irritado. Fico aqui, parada, ofegante e parecendo uma i****a, enquanto espero que ele tire logo essa droga de capacete e se explique de uma vez. Porém, quando o cara finalmente o faz, sinto outro choque me atingir. Esse ainda maior do que o anterior. Arregalo os olhos, meu corpo gelando imediatamente. Não pode ser. Depois de tanto tempo, a essa distância… não, não, não. Não é possível. Puta que pariu. Acabo de quase ser atropelada pelo meu ex-namorado.
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