Capítulo 2

1101 Palavras
Nickolas Miller também arregala os olhos ao me ver. Ele segura o capacete no ar, como se tivesse se esquecido da existência do objeto por um momento. Noto sua garganta se movendo, indicando que ele engoliu em seco. Puta merda. Quais as chances? Quais as malditas chances? Antes que eu possa controlar, uma enxurrada de lembranças me atingem. Sorrisos com covinhas, olhos azuis vivos, aquele rosto próximo ao meu… Não, Lua. Pare agora. Afastando os pensamentos, resolvo aproveitar da surpresa e deixar que a raiva assuma o controle quando olho para ele de novo, alarmada. — O que tá fazendo aqui? Meu tom de voz não sai nem um pouco gentil. Ótimo. — O que eu tô fazendo aqui? — rebate ele rapidamente, tão irritado quanto eu. — O que você tá fazendo aqui! Tá me seguindo? Solto uma gargalhada alta, de puro escárnio. — Te seguindo? Nem em mil anos, Miller. Pode tirar seu cavalinho da chuva. Agora desembucha logo. O que tá fazendo aqui? Hein? Sim, estamos os dois discutindo bem no meio da rua. Por sorte essa parte da cidade não é tão movimentada quanto as outras, ainda que eu note uma senhorinha passando pela calçada e nos lançando um olhar acusador. Sendo assim, eu trato logo de cruzar os braços e desviar o olhar, esperando impacientemente pela resposta dele. Porém, o i****a fica apenas me olhando, os olhos semi-cerrados, pensando em algo. Sinto raiva por ainda conhecê-lo tão bem. Por saber que ele está me analisando, pensando. Tentando tirar proveito da situação. E sinto raiva por seu queixo permanecer num formato tão perfeito, por sua mandíbula ser tão bem desenhada e pelo formato atraente de sua boca… argh, concentra, Luane. Que ódio! Todavia, não posso negar que ele mudou, embora a pose de bad boy m*l-feita continue a mesma. Nickolas usa uma jaqueta preta de couro, tem uma corrente de prata pendurada no pescoço e uma barba rala crescendo no rosto. A aparência de moleque não existe mais. Não… agora ele é um homem. Bizarro como as pessoas podem mudar tanto em tão pouco tempo. — Ah, é claro — diz Nickolas finalmente, apoiando o capacete num dos espelhos retrovisores da moto. Sua voz é tediosa e debochada, o que me faz temer suas próximas palavras. — A Unens. Tinha que ser. Ele fala tão baixo que quase parece que está falando consigo mesmo. E eu permaneço de braços cruzados, franzindo a testa enquanto processo suas palavras. Unens. A universidade que nós planejamos ir juntos quando ainda namorávamos. Puta merda. Não é possível. Não é possível que ele esteja vindo estudar aqui também. Nickolas sabia que essa faculdade era o meu sonho. Então resolveu escolher justo a mesma? Vir justo pra Riviera? Sabendo que eu estaria aqui? Isso só me faz sentir ainda mais raiva dele. Tanta raiva que eu poderia gritar, berrar, puxar os cabelos. i****a, i****a, i****a! Eu odeio ele. Odeio o Miller. E odeio estar vendo-o na minha frente agora, depois de tudo isso e de todo esse tempo, com uma moto de playboy e esse rostinho lindo. Inferno! — É, a Unens — eu repito tediosamente. — A faculdade que eu escolhi. Abro um sorrisinho de deboche quando o vejo me olhar surpreso. Sim, canalha, a faculdade que eu escolhi primeiro. Então pode ir lá pro outro lado do mundo, por favor. Obrigada. Entretanto, para a minha tristeza, ele não demora a abrir um sorrisinho debochado também, que faz suas covinhas serem expostas nas bochechas, e diz: — Que nós escolhemos, amor. Borbulho de raiva com sua frase de merda e com a ênfase no “nós”. Não existe um nós, c*****o! — Não me chame de amor — eu rosno, me aproximando dele. Meu pé já começa a doer de ficar nesses saltos desconfortáveis. — Você não tem esse direito, Miller. Não mais. Respeite pelo menos isso. Sei que escolhi a coisa certa a se dizer, pois sua expressão se fecha de novo com a pequena menção ao nosso passado. Noto quando ele segura com força no guidão, os dedos da mão ficando brancos, como se tentasse se controlar. Se é de raiva ou de outro motivo, eu já não sei. Ainda assim, me sinto desconfortável na posição em que me encontro, de pé no meio de uma rua vazia e com frio, enquanto o bonitão fica sentado nessa moto estilosinha. Fala sério. — Você continua a mesma — murmura ele, mantendo os olhos fixados em mim conforme pega o capacete de novo, colocando-a na cabeça. Seus olhos parecem brilhar de algo forte demais, que eu não pude identificar ser fúria ou outra coisa. Apesar disso, fico surpresa com sua pressa. Jurava que ele insistiria em ficar mais um pouco, apenas para me provocar. — Bom, melhor eu ir que ganho mais. E, da próxima vez, vê se olha pros lados se não quiser ser atropelada. Apesar do conselho, sua voz é seca, ríspida. Observo-o ligar a moto, o som do motor envolvendo o ambiente silencioso. Saio com pressa de sua frente para ele não passar por cima de mim, abraçando meu próprio corpo, e me sentindo meio estranha com a situação. Por um segundo, sinto algo r**m em vê-lo prestes a ir. Depois de tanto tempo… e, ainda assim, pareço a mesma Luane do colegial. Não fico feliz em me dar conta disso. Penso em dizer mais alguma coisa quando ele acelera mais, olhando uma última vez para mim. Porém, antes que algo realmente r**m possa acontecer, eu grito: — Até nunca mais, Miller. E me viro, voltando a caminhar pela calçada. Menos de um segundo depois, o som do motor explode, e ele parte na moto. Algo se revira em meu estômago com isso, e chego a ficar meio assustada com a violência com que Nickolas partiu. Uma emoção que eu não sei definir me invade. Argh, eu odeio, odeio quando não sou capaz de controlar ou definir o que eu sinto. É uma sensação extrema de desconforto, de vulnerabilidade. Que nos faz pensar que, se tratando de certas coisas, não temos absolutamente controle nenhum, por mais que tentamos. Estamos expostos, à berlinda dos acontecimentos. Tento não pensar em nada, e não me sentir estranha, quando pego um uber um pouco mais tarde e vou para o hotel, vendo o dia escurecer. Encontrar alguém do nosso passado sempre nos faz ficar reflexivos, estranhos. Ainda mais alguém que me marcou tanto, que me fez sentir tanto. É engraçado como a raiva e a tristeza podem ser uma linha tão tênue.
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