— Hoje é o último dia da minha reserva aqui — eu falo, fechando os olhos por um momento. — Ferrou demais.
Estou jogada na cama, observando o teto, enquanto converso com Anna pelo telefone. A tevê está ligada, simplesmente porque eu me sinto melhor com algum som preenchendo o ambiente. Espero me distrair e resolver minha situação do aluguel enquanto converso com a minha melhor amiga, embora não esteja adiantando muito.
— É, garota, tu tá na fossa. Mas por sorte sua Anna perfeita aqui vai te salvar. Achei uma solução.
Opa.
— Achou? — Me sento na cama imediatamente, empolgada. — Me conta agora.
— Bom, depois que você me mandou aquela mensagem contando o que aconteceu contigo hoje mais cedo, foi fácil. O Miller também tá atrás de aluguel. Pelo visto vocês dois são uns despreparados irresponsáveis. Stalkeei uma galera na internet e mandei mensagem pra ele. Miller também não tá achando um preço bom. Então, é só vocês dois dividirem o aluguel de algum lugar, como eu falei antes. Assim não fica tão caro e de quebra você ainda ganha um macho. Amou?
Fico quieta. Por um longo, longo tempo.
— Anna, você enlouqueceu?! — eu digo finalmente, falando mais alto do que pretendia. — Ele é meu ex-namorado. Não quero ver ele nem pintado de ouro. O que te faz pensar que eu aceitaria isso? E ainda tem coragem de falar que eu ganharia um macho? Nickolas não é um macho, é no máximo um garotinho irritante. Não vou aceitar.
Tá bom, nós duas sabemos que isso não é verdade, especialmente em relação à aparência totalmente máscula que ele está agora; mas vou deixar esse detalhe de lado.
— Então boa sorte pedindo dinheiro pros seus pais. — Posso notar que ela está ficando irritada e impaciente apenas pelo tom de voz. Não a culpo. — Porque, pelo menos por enquanto, isso seria o ideal, Luane. Você viu ele agora pouco, e nem foi tão estranho assim. Vocês m*l se veriam, ficariam em quartos opostos ou sei lá. E, quando você começar a ir pras aulas, vai encontrar um punhado de universitário procurando apartamento pra dividir. Provavelmente vai ter que aguentar o Miller por no máximo uma semana. Duas, no máximo. A Unens é grande demais pra você não achar outra pessoa.
Respiro fundo, assistindo a um bando de pinguins andar em fila pela televisão enquanto penso no que ela disse. Sei que Anna é inteligente e prática, mas pra ela é fácil falar. Minha amiga não sabe como é ficar perto de um ex-namorado de verdade, já que sempre volta com o ex. E ela não sabe como é ficar perto do Miller. Nem eu sei, e tenho medo disso. Tenho medo das coisas que posso sentir mesmo depois de tanto tempo separados. Tenho medo de me machucar de novo.
E também, não estou nem um pouco disposta a aguentar as provocações da parte dele. Coisas como: “tô indo num encontro com uma mina que ama açaí”, só porque eu odeio, ou: “vou escalar uma montanha semana que vem”, só porque uma vez eu disse que jamais faríamos isso. Coisas comuns de ex-namorados, simplesmente para provocar o outro. Coisas que eu não suporto.
Enfim, são milhares de contras e praticamente nenhum pró. Seria loucura da minha parte aceitar. Tão loucura quanto participar de um reality show em que você casa com alguém às cegas ou aceitar nadar numa piscina de baratas só pra ganhar um prêmio. São maluquices. Coisas que nenhum ser humano com o mínimo de noção e consciência aceitaria.
Não dá. Com certeza não. Nickolas Miller que fique no buraco dele.
E é exatamente isso que eu digo a Anna. Ela, porém, continua insistindo, dizendo que seria uma oportunidade pra esclarecermos o que ficou m*l-resolvido e pra que eu vire amiga do meu ex. Amiga. Fala sério. Anna deve achar que vivemos no mundo encantado da Disney.
Entretanto, nessa mesma noite, estou quase indo dormir quando recebo uma mensagem da minha mãe. Chego a fazer uma careta para a tela enquanto leio.
“E aí, encontrou um lugar pra ficar?”
“Eu sei que não. Me liga amanhã e eu te empresto o dinheiro. Pare de fugir do seu futuro, Luane. Você sabe que não pode escapar de certas coisas.”
“Vou aguardar seu retorno. Boa noite.”
Fiquei tão, mas tão irritada que tive que me segurar pra não mandar ela se ferrar. Eles adoram me controlar. Se eu aceitar o dinheiro, sei que abrirei uma porta de vigia pra minha vida na faculdade que jamais poderá ser fechada. Eles terão direitos sobre mim, como sempre tiveram, e o mínimo de liberdade que eu conquistei nesse meio-tempo irá facilmente pro espaço.
Deixei ela no vácuo de propósito, e custei a pegar no sono. Ficava me remexendo nas cobertas, a voz da Anna não saindo da minha cabeça. Nem a mensagem da minha mãe, e muito menos o encontro bizarro que tive com Miller hoje.
Por isso, quando não aguento mais, arranco o travesseiro da cara e pego o celular na mesinha de cabeceira, bufando conforme coloco-o em minha frente e desbloqueio a tela; iluminando levemente a escuridão do quarto.
Sem pensar, clico no aplicativo que eu queria e digito o perfil dele. Logo aparece sua foto. Clico outra vez, sendo direcionada diretamente para a sua página.
Este perfil é privado. Siga para ver as atualizações de nickmillersf.
— Droga — eu murmuro, bufando e fechando os olhos conforme jogo o celular para longe na cama.
Isso que dá stalkear ex. Bem-feito, Luane.
E, como eu sou teimosa e extremamente orgulhosa, não vou me render à solução da Anna de jeito nenhum. De jeito nenhum.
Acabo resolvendo ir dormir, esperando que, quando acordar na manhã seguinte, um milagre caia sobre mim e eu encontre alguma alma bondosa pra dividir um lugar.
Esperando desesperadamente.
Até porque, não deve ser tão difícil assim, né? Devem haver milhares de pessoas procurando um apartamento por aí pra ficar. Ser um universitário em plena crise no Brasil é prova suficiente de que tá todo mundo na fossa. Mesmo que eu não tenha encontrado ninguém quando procurei, e mesmo que Anna também não tenha encontrado ninguém, não significa que eu esteja perdida. É claro que não. A oportunidade certa vai aparecer, e eu vou me livrar rapidinho da terrível possibilidade de dividir um lugar com Nickolas Miller.
Por um segundo, chego a querer cogitar o motivo de tamanha negação pra isso, mas corto o pensamento antes que ele tenha a oportunidade de me torturar. É o Miller, a pessoa mais perigosa da face da terra pra manter perto de mim. É o ex que eu só vou poder rever daqui 30 anos, quando estiver casada e feliz. A vida precisa colaborar e seguir o roteiro.
Não vou precisar vê-lo de novo. Claro que não. O encontro de hoje mais cedo foi apenas um surto coletivo, daqueles que irei me lembrar daqui uns anos com muita dificuldade. Um momento passageiro, perdido entre milhares de outros sem importância. Eu vou encontrar um lugar pra ficar, vou dividir um apartamento com alguém super legal e jamais irei ver Miller novamente.
E é com essa certeza que eu vou dormir nesta noite, garantindo que está tudo no lindo e perfeito controle.