Capítulo 4

2261 Palavras
O sol já está forte quando puxo as cortinas do quarto de hotel, fazendo uma careta para a claridade. Involuntariamente, dou um passo para trás, passando a mão pelo cabelo. Já estou caminhando até o banheiro quando ouço o telefone tocar. Paro abruptamente de andar. Fico um tempo assim, estacionada no meio do quarto, com uma cara única de confusão. Por que o telefone está tocando? Estranho. Muito estranho… Caminho até ele enquanto bocejo, fazendo outra careta quando sinto meu bafo matinal. Coloco uma mão na cintura e fecho os olhos quando atendo, praticamente resmungando. — Alô. — Alô? Luane? — O porteiro grita tanto que fico até surpresa com sua animação em plena manhã. Ou talvez seja só porque ele é meio surdo, mesmo. — Do quarto 303? — Isso — eu respondo meio impaciente, quase desligando na cara dele e decidindo voltar pra cama. Não tô pronta pra mais um dia. — Luane Mello. Por quê? — Isso, Luane Mello. Você tem uma visita! Franzo a testa. — Oi? — Chegou agora. Posso permitir que suba? Espera, que merda de hotel é esse aqui? Fala sério. — Quem é a visita? — Sinto-me m*l por estar sendo um pouco grossa com o coitado, mas a situação pede. — Hein? — Ahn… a pessoa pediu pra não ser identificada. Solto uma risada imediata. — Desculpa, mas isso tá me cheirando à roubada. Melhor eu descer e ver quem é por conta própria. — Boa ideia. Vou avisar aqui agora mesmo. — É, faça isso. Devolvo o telefone ao gancho com pressa, marchando contrariada até o banheiro. Enrolo o máximo possível pra escovar os dentes e me trocar, temendo que sejam os meus pais que tenham me encontrado. Coloco um vestidinho jeans e calço o primeiro chinelo que encontro pela frente, saindo do quarto com raiva. Assim que alcanço a recepção, avisto o homem que me ligou (que eu já esqueci o nome, por mais que me culpe por isso) digitando algo sobre o balcão. Olho para os lados calculadamente, procurando a pessoa s*******o que veio atrás de mim. Porém, levo um susto quando ouço uma voz familiar e puramente masculina murmurar em minhas costas: — Olha só quem aprendeu a acordar cedo… Viro-me imediatamente, dando de cara com quem eu menos esperava ver aqui agora. Nickolas. E é claro que ele tinha que falar alguma coisa. Abro um sorriso falso, tentando esconder minha surpresa em vê-lo aqui. — Era você quem me fazia acordar tarde, Miller… sabe, eu queria ficar mais alguns segundos dormindo pra não ter que olhar pra essa sua cara enjoativa. Ele imita meu sorriso, tentando não se mostrar cair na minha. — Continua chata como sempre, pelo visto. — Porém, apesar da fala ofensiva, noto quando seu olhar desvia-se rápido e disfarçadamente para as minhas pernas, expostas sob o vestido. Então seus olhos azuis e frios encontram os meus de novo, agora com uma chama diferente brilhando ali. Merda. Sinto meu corpo arrepiar-se ao ser atingida por uma nova lembrança. Ele pode ser um i****a, mas Nickolas sabe como provocar sensações em mim. Ah, se sabe. Maldito ex. — O que tá fazendo aqui, Miller? — eu falo, por fim, cruzando os braços e as pernas. — E como sabia onde eu tô hospedada? Ele sorri de novo, agora maliciosamente, conforme se aproxima devagar. — A Anna me ligou. — Sua voz está próxima, assim como sua respiração. Engulo em seco. — Disse que você tá precisando de um aluguel. O que veio a calhar, porque eu também tô precisando. Dou um passo para trás, rindo e balançando a cabeça. — Veio atoa, Miller. Não vou dividir um aportamento com você. — Por quê? Tem medo de ainda estar apaixonada? — provoca ele maldosamente, quebrando a distância que eu tinha aumentado e colocando um dedo em meu queixo. A sensação de seu toque, depois de tanto tempo, é estranha e perigosamente boa. — Quem diria… a grande Luane ainda não superou? Sua última frase sai quase num murmúrio, mas é o suficiente pra me encher de raiva. Dou um tapa na mão dele, que a afasta conscientemente. — Superei bem o suficiente pra não ficar seguindo meu ex por aí — eu solto. — Passar bem, Miller. Sugestão recusada. E, assim, passo rapidamente por ele, subindo as escadas do hotel determinada. Entretanto, não demoro a ouvir passos atrás de mim, o que me faz andar mais depressa, até que alcanço meu quarto e corro abrir a porta. Entro no quarto e tento fechá-la na velocidade da luz, mas sinto Nickolas correr como um vulto em minha direção e entrar rápido na frente da porta antes que eu possa batê-la na cara dele. Paro ao mesmo tempo que ele. Ainda estou segurando a porta com força, embora a pressão que Miller faça do outro lado me impeça de ter um avanço. Crispo meus lábios e olho furiosa para ele; que parece se divertir com a situação. Maravilha. Já parecemos duas crianças. — Sai daqui — eu falo, num grunhido feroz. — Me deixa fechar a porta, Nickolas. Agora. Ele fica um tempo em silêncio, deixando que fiquemos naquela proximidade que, ao mesmo tempo em que parece fazer uma eternidade em que não ficamos, me passa a sensação de que fora ontem mesmo. Então, diz: — Não. — Sua voz é baixa, rouca, e soa como uma ordem. Como ele costumava fazer quando me beijava. — Me deixa entrar, Luane. — Não. — Agora. — Nunca. Porém, sou pega de surpresa quando sua expressão se fecha, tanto que seu rosto vira um semblante único de fúria. A testa enrugada, os lábios apertados. Os olhos faiscando. Como ele costumava fazer na época da escola, quando alguém olhava para mim nos corredores. A expressão de machão que não ficava apenas na pose; era o seu modo perigoso ativado, aquele modo que fez com que terminássemos. O modo que pode causar encrenca. Antes que eu seja capaz de fazer ou falar algo, Nickolas rosna: — Olha só, Luane, eu não tô nem aí se você quer ficar com esse orgulho de merda ativado. Acontece que eu tô sem dinheiro, aquela universidade vai ser a única coisa que garante o meu futuro e eu preciso da merda de um lugar pra ficar. Ou você aceita e a gente divide o aluguel, ou eu fico plantado na porta desse hotelzinho barato pelo resto da semana. Sua escolha. Dou risada, de pura descrença. Não é possível que ele esteja me ameaçando. — Por favor, Miller. Eu não acredito nem por um segundo que você não tenha encontrado um lugar pra ficar. Acha que vou cair nessa? Ele semi-cerra os olhos, o braço ainda fazendo pressão contra a porta para mantê-la aberta. — Se você, riquinha, não conseguiu, então por que eu tenho? Sou muito mais provável de estar nessa situação do que você. Agora sou eu quem fecho a cara. — Riquinha seu r**o. Se eu ainda tivesse debaixo da saia da minha mãe, não estaria tendo que aguentar ver você na minha frente agora. Tô tentando ser independente, e isso inclui ficar longe do meu ex-namorado. Porque, caso você tenha se esquecido, Nickolas, terminamos há um ano. Não te devo mais nada. — Um ano? — Ele arqueia a testa, aqueles olhos intensos fixados em mim. — Que eu saiba, fazem apenas dez meses. Fico surpresa por ele saber a data exata. Muito surpresa. Mas é claro que escondo isso, fingindo estar entediada. — Se quiser ficar plantado aí fora pelo resto do dia, pode ficar. Eu tenho mais o que fazer. Já estou me afastando, pretendendo pegá-lo desprevenido e fechar a porta na sua cara, quando Nickolas é mais rápido novamente, colocando o pé sobre ela e fazendo com que eu pare meus movimentos num pulo. Enrugo os olhos. Ele, porém, abre um sorriso unicamente malicioso. — E quem disse que eu vou ficar aqui fora? Dessa vez, não escondo minha cara alarmada quando entendo o que ele quer dizer. — Não, Nickolas. Você não vai entrar aqui. De jeito nenhum. A risada baixa que ele solta, por mais que eu saiba que é maldosa e ameaçadora, causa uma pontada no meu coração. p**a merda. Não, não, não. Não posso reativar esses sentimentos. Se fizer isso, irei pro fundo do poço junto dele, como da última vez. Não coloque tudo a perder, Luane. Não agora. Não outra vez. Não outra vez. — Não vou? — murmura ele. — Bom, isso é o que nós vamos ver. Antes que eu possa raciocinar, Nickolas já me empurrou para dentro do quarto e veio junto, as mãos ao redor dos meus ombros. Sentir seus dedos quentes em contato com a minha pele é uma sensação um tanto nostálgica. Nostálgica e perigosa. E eu sei disso. Sei que preciso dar um jeito de afastá-lo, de resolver a situação, antes que a única coisa certa que meus pais já me falaram na vida volte a se tornar verdade. Nickolas Miller é uma grande perdição. — Pronto — diz ele num grunhido; o esboço de um sorriso ainda neste rostinho ridículo. — Parece que eu já tô dentro. Por alguns segundos, fico sem fala. Tudo o que consigo fazer é controlar minha respiração e permanecer com uma cara de irritada, olhando nos olhos deles e sentindo aqueles dedos macios em meu braço. Meu estômago começa a dar indícios de um frio na barriga, sensação essa que era tão comum com ele naquela época, quando resolvo que preciso impedir isso logo antes que piore. Por isso, empurro-o com força pelo abdômen, fazendo com que as costas de Nickolas choquem-se contra a porta já fechada, e recuo. — Não me toque, Miller. — Minha voz é baixa, mas cheia de frieza enquanto trinco os dentes. — Não te dei o maldito direito. A respiração dele está ofegante, e Nickolas mantém os olhos em mim conforme permanece grudado à porta, sorrindo como se tivesse ganhado uma briga. Porque talvez ele tenha. — Tá bom. Então vamos fazer um acordo. — Ele levanta o queixo, parecendo se divertir com toda essa situação. Fico com ainda mais raiva dele por isso. — Você aceita dividir o aluguel comigo em algum lugar daqui, e eu prometo não te tocar mais em nenhum momento. — Ele faz uma pausa, aumentando o sorriso. — A não ser que você queira. Solto uma risada de escárnio. — Sem chance. Já estou me virando em direção ao banheiro quando o ouço completar: — Boa sorte pedindo dinheiro pros velhos, então. Paro de andar. Respiro fundo antes de me virar para ele de novo. Nickolas permanece na mesma posição, tranquilo. Como se tivesse certeza de que eu vou aceitar. Maldito. Maldito, maldito! — E teria alguma condição? — eu pergunto, depois de um minuto de silêncio, cruzando os braços. — Pra morarmos no mesmo lugar? Ele n**a devagar. — Nenhuma. Pode ficar quanto tempo quiser. Huum… então, se eu ficasse dois dias hospedada com ele e depois achasse outra pessoa querendo dividir o aluguel, não teria mais Nickolas Miller enchendo meu saco, e, de quebra, ainda poderia me livrar dele. Não correria o perigoso risco de ficar perto do meu ex-namorado e ainda poderia ir embora no mesmo dia, se quisesse. Parece-me um acordo vantajoso. Huum… Acho que, também, alguns dias não matam, né? Até porque, já consigo ter bem mais autocontrole do que teria um tempo atrás. Eu vou aguentar. Claro que vou. E posso passar o tempo todo longe dele, apenas para garantir. Há diversas maneiras de sair sã dessa roubada. — Tá, eu aceito. Ele permanece impassível, mas um pequeno brilho diferente passa rapidamente por seu rosto, algo que apenas quem o conhece bem notaria; indicando que gostou da minha resposta. — Mas… com uma condição — eu continuo, aumentando o tom, conforme me aproximo dele e levanto um dedo em sua frente. — Você vai parar com essas acusações chatas. Não vai mencionar nada sobre o nosso passado; somos ex’s e apenas isso. Não vai me tocar nem tentar invadir meu espaço pessoal. Entendido? Ele está relaxado quando responde: — Claro. Algo no fundo de mim me diz que há uma pequena (grande) chance de ele não cumprir com a promessa, mas decido acreditar. Não posso me dar ao luxo de pensar muito quando estou prestes a dormir embaixo da ponte, afinal. — Ótimo. Vamos ficar no prédio Riviera — Eu anuncio, já me virando quando o ouço retrucar. — O lugar cheio de florzinhas ridículas na entrada? De jeito nenhum. Vamos pro Amenas. Já conferi o preço do aluguel lá e fica bem tranquilo dividindo. Nós vamos pra lá. — Só porque você quer! — eu rebato, me virando de novo. — Nós vamos pro Riviera. É isso ou nada feito. — Vamos pro Amenas — ele repete com ênfase, abrindo um sorriso m*****o. — É isso ou nada feito. Ele repetindo minha frase é, ao mesmo tempo, irritante e atraente. Que ódio! Respiro fundo, contando até três mentalmente. — Tá bom. Nenhum dos dois. Vamos pro Vila Torres. É perto da Unens e fica a um preço acessível dividindo. Assim ninguém ganha. — Já estou caminhando até o guarda-roupa, pegando o carregador do meu celular pra conectá-lo à tomada, quando olho para o Miller de novo, arqueando um pouco a testa. — Combinado? Ele demora pra responder, puxando um cigarro do bolso e o acendendo. Aqui dentro. Nickolas puxa o ar do maço e o solta antes de dizer: — Combinado, Luaninha.
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