— Ele foi atrás de você!? — Anna não consegue segurar a gargalhada. — Não acredito. Achei que ele fosse te mandar uma mensagem ou sei lá, como uma pessoa normal. Não creio que o Miller apareceu aí. Como ele descobriu onde você tava?
— Ué, pensei que fosse você quem tinha contado pra ele — eu falo, ao mesmo tempo em que tiro mais uma peça de roupa do armário e a levo até a minha mala, espalmada na cama. — Não duvido que ele tenha ido de hotel em hotel me procurar. O Miller é louco.
— Disso não posso discordar. Mas então quer dizer que quando ele sugere você aceita, hein?
Reviro os olhos, mesmo que ela não possa ver.
— Não começa, Anna. Só aceitei porque tô desesperada mesmo. Quando você sugeriu, eu ainda esperava que um milagre caísse sobre mim e eu achasse outra pessoa. Mas agora é óbvio que isso não vai acontecer.
— É, não vai. Pelo menos por enquanto.
— Queria que você estivesse aqui pra poder quebrar esse galho pra mim. Morar com o Miller vai ser um pesadelo.
— Um pesadelo por ser seu ex-namorado ou por ser o único ex-namorado que você não esqueceu?
— Ei, que nunca esqueci completamente — eu corrijo, seca. — Mas só porque me marcou muito. De resto, já estou total superada.
— Uhum. Poderia até apostar contigo sobre isso, mas acho que nem teria graça. Nós duas já sabemos da verdade, mesmo…
— Tô me irritando em falar com você, sabia? — eu digo rispidamente, caminhando com pressa até o armário de novo pra pegar o resto das roupas. Puxo-as com força dali pelo cabide, despejando nelas minha frustração. — Me irritando muito.
Anna ri de novo, o que me deixa ainda mais nervosa.
— Tá bom, vamos mudar de assunto, então. Pra onde o Miller foi?
— Não sei e nem quero saber. Ele saiu logo depois que resolvemos a coisa do aluguel.
Ok, talvez eu esteja mentindo quando diga que não sei e não quero saber. Nickolas parecia tão desesperado pra que eu aceitasse o acordo, tão no meu pé, que fiquei meio surpresa quando ele foi embora logo depois, apagando o cigarro e me dando uma despedida curta e grossa. Apenas um simples “falou aí”. Continuava tranquilo, relaxado; como se o mundo fosse um morango.
E eu tenho de confessar que fiquei extremamente curiosa para saber pra onde ele foi. Por mais que tenha encontrado com Nickolas ontem, por pura coincidência, e que Miller tenha enchido o saco da minha melhor amiga, eu não sei mais nada sobre a vida dele, assim como imagino que ele não saiba nada da minha. Mas Nickolas é assim. Chegou todo ousado, como se fosse o dono do pedaço, conversando comigo e me provocando como se nos víssemos todo dia. Ele sempre possuiu esse jeito.
Se alguém nos viu discutindo no hotel hoje mais cedo, aposto que jamais imagina que não nos víamos há quase um ano. Posso até rir sozinha pensando no fato. Nickolas pode ter sido um babaca, mas ele é uma daquelas pessoas extremamente marcantes. Alguém do qual você jamais esquece quando conhece. Alguém que se diferencia, que se destaca. Tanto pela energia quanto pelas atitudes… sejam estas boas ou r.uins.
E é claro que, como ele não me deve mais satisfações, não iria me dizer para onde foi. Ainda assim, fiquei curiosa. Pensando se envolvia alguma vida agitada, segredos, amigos… mulheres.
Chega, Luane. Vocês terminaram. E você está muito bem sozinha.
— Bom, então me avisa assim que chegar no Vila Torres — continua Anna, assumindo um tom descontraído de voz ao mudar de assunto. — Tô curiosa pra saber como é o lugar. Principalmente se o apartamento é grande ou pequeno…
Balanço a cabeça quando ela ri, ainda que não consiga evitar um sorriso.
— Você não presta, Anna Vieira. Espero que saiba disso.
— Tenho plena noção, meu amor.
Solto uma risada baixinha, apoiando o celular em meu ombro enquanto uso as duas mãos para dobrar as últimas peças de roupa. Penso em perguntar à Anna sobre Pedro, mas ela parece tão feliz que seguro a minha língua. Os dois vivem brigando, afinal. Nunca vi relacionamento mais conturbado. Fico com pena da minha amiga, especialmente por agora morarmos longe demais pra que eu possa acompanhá-la de perto. Se olhasse em seu rosto, saberia exatamente o que está acontecendo.
E a curiosa que habita em mim também não ajuda muito nas coisas. Sei o quanto Anna é boa em esconder seus sentimentos e manipular estes. Ela consegue te enganar tão direitinho que você demora séculos para notar quando algo está indo m*l. E, conhecendo o babaca do Pedro, sei que as coisas não ficam bem com ele por muito tempo.
Faço uma nota mental pra perguntar à Anna sobre isso outra hora.
— Bom, agora tenho que desligar. — Solto um suspiro cansado quando seguro o celular contra o ouvido novamente, fechando minha mala e levando-a ao chão. — Vou almoçar. E também quero dar uma olhada na cidade pra ver se esbarro coincidentemente com algum universitário precisando dividir o aluguel. Tudo no natural.
— Teimosa até dizer chega… e negando o destino querendo te juntar ao Miller novamente… — debocha ela, fazendo-me revirar os olhos conforme arrasto a mala pesada até a porta. Inferno, por que eu tenho que ter tanta roupa?
— Deus me livre de ter um destino assim. Só se for castigo.
— Castigo é meu namorado, Luane. No seu caso é apenas fogo no r**o, mesmo.
Fico surpresa por ela mencionar Pedro. Huum… se chamou de namorado é porque eles devem estar bem.
— Sinceramente? Acho que nós devíamos desistir dos machos e ir morar numa ilha isolada.
— Acho uma ótima ideia. O limite de dedo podre nosso já foi estourado com sucesso.
Dessa vez, rimos com vontade da nossa própria desgraça.
— Nem me fale.
Conversamos por mais alguns minutinhos conforme termino de organizar minhas coisas, e combino de mandar fotos para ela do Vila Torres mais tarde. Como o hotel não tem almoço incluso no pacote, tive que me virar em alguma lanchonete por aí, e por sorte achei uma tranquila perto de um bar. Comi por lá mesmo, recebendo mais e mais mensagens da minha mãe. Ignorei todas.
Já estava saindo da lanchonete quando recebi uma mensagem de Nickolas.
Eae, Lua. Já tô aqui em frente ao tal prédio. Vem logo. Tchau.
Sinto um deja-vú por vê-lo me chamar de Lua. Um deja-vú um tanto desconfortável. Mas, o resto da frase faz com que eu não foque tanto nisso. “Vem logo”. Quem ele pensa que é pra mandar em mim desse jeito? Fala sério.
Já estou irritada quando enfim consigo pegar todas as minhas coisas e dar saída no Hotel. Peço um uber, que demora uma eternidade pra chegar. Por sorte Miller não manda mais nada, e eu agradeço ansiosa ao motorista assim que ele estaciona em frente ao edifício.
Saio apressada do carro, arrastando minha mala e equilibrando as bagagens de mão pelos braços. Observo o prédio por algum tempo, admirada, até que tomo forças para entrar.
A moça que nos alugaria o apartamento já estava lá, e ficou meio assustada quando me viu chegar com toda a bagagem. Fiquei envergonhada de explicar pra ela a minha situação, mas no fim acabei tendo que falar. Sendo assim, entramos nós duas para conhecer o local, por mais que Miller já tenha sumido.
Não vi ele em nenhum momento durante a explicação da dona, que me disse se chamar Silvia. O apartamento, apesar disso, mostrou-se perfeito; espaçoso apesar do preço, com dois quartos (um do lado do outro, embora eu tente ignorar esse detalhe), e tudo já incluso: fogão, geladeira, microondas, máquina de lavar… jamais conseguiria pagar se fosse o preço todo do aluguel. Mesmo sendo metade terei que trabalhar feito uma condenada, mas já é alguma coisa.
Agora estamos na sala de estar, e a Silvia (que deve ter uns quarenta anos) está sentada sobre o sofá, enquanto eu permaneço de pé em frente a ela vendo-a organizar uma papelada. A achei bem rápida até em fechar o contrato conosco, o que me fez temer por um segundo caso um de nós dois atrase o aluguel.
— E então, vai morar aqui com quem? — pergunta ela distraidamente, os olhos ainda na papelada.
— Ahn… com meu ex.
A mulher me lança um olhar de esguelha imediatamente.
Abro um sorriso amarelo, colocando as mãos nos bolsos dos jeans. Merda… ela vai pensar o que de mim?
— Estamos, sabe… precisando mesmo dividir o aluguel — eu explico, sentindo-me desconfortável. — Mas vai ser só por pouco tempo. Vou tentar arranjar alguma colega de quarto mais pra frente.
Silvia assente.
— Bom, você quem sabe… — diz baixinho, soltando uma risada logo em seguida. — Uma decisão um tanto louca, eu diria.
— Você nem imagina o quanto — eu murmuro sombriamente.
— Bom, você consegue explicar pra ele depois como vai funcionar o pagamento? — pergunta ela, me encarando muito séria enquanto se levanta. — Preciso da assinatura dos dois e do contato do fiador.
Ok, eu ainda não tenho um fiador, mas ela não precisa saber disso por enquanto… né?
— Explico, sim — eu falo baixinho, preocupada em precisar ter essa conversa com ele. Se eu pudesse, ignoraria Miller o máximo possível. Seria a única forma de me proteger da tentação. — Pode deixar que assinaremos tudo. Muito obrigada por confiar em nós. Prometo que não vai se arrepender.
— Bom, assim espero — diz Silvia seriamente, embora esboce um sorriso. — Preciso ir agora, mas retorno amanhã pra pegar o contrato e conhecer o outro inquilino.
Concordo com a cabeça.
— Certo.
Acompanho Silvia até a porta, que me explica mais um pouco sobre o limite de pagamento e a forma de transferência. Quando finalmente a fecho e me vejo sozinha no local, quase pulo de alegria.
Resolvo deixar o contrato em cima do balcão da cozinha (que é em estilo americano, super chique) e começo imediatamente a organizar minhas roupas no armário. Escolho o quarto com a melhor vista, uma cama de casal (embora o outro também tenha uma, pelo que eu bisbilhotei) e uma janela com cortinas longas e chiques. Fico um tempo observando tudo, explorando gavetas e testando os assentos, quando resolvo tomar um banho.
O banheiro é pequeno, mas tento não pensar nisso enquanto tiro minha roupa e entro no box. Vai ser difícil morar sob o mesmo teto que Miller e ter apenas um banheiro para dividir. Mas pensarei nisso depois. Agora, só preciso de uma ducha gostosa e quentinha.
Giro a torneira (tentando fazer exatamente como Silvia me explicou), e mergulho debaixo do chuveiro. Até fecho os olhos, sentindo meus músculos relaxarem de imediato com o contato da água. Jogo meu cabelo — agora já ensopado — para trás, levantando a cabeça e sentindo o jato frio molhar meu rosto. Fico nessa paz pelo que devem ser uns dez minutos, até que, repentinamente, ouço abrirem a porta do banheiro.
Ah, é, outro importante e pequeno detalhe: acho que me esqueci de trancar a porta.