Capítulo 6

1178 Palavras
— Epa… Não posso dizer que não sei de quem é a voz. Arregalo os olhos imediatamente, me virando para ele enquanto tampo as partes mais necessárias de meu corpo. Para o meu completo azar, o box do banheiro nem chegou a embaçar direito com o vapor, então Nickolas Miller tem uma visão perfeita de mim dali. P uta que pariu. — Miller! — eu berro, tampando meus s eios mais firmemente com um braço. — Vaza daqui! Entretanto, em vez do o****o do meu ex-namorado se retirar, ele simplesmente fica parado ali, com a porta ainda aberta, me olhando de cima a baixo, com a sombra de um sorriso querendo surgir em seu rosto. Parece surpreso, apesar disso. E eu seria mentirosa se dissesse que não notei o leve rubor que surgiu em sejas bochechas. Nunca vi Nickolas Miller vermelho na vida. Nem quando namorávamos. Será que tá em abstinência de dormir com alguém? Não consigo imaginar isso. Ele costumava ser bem pegador antes de nos envolvermos romanticamente. O silêncio invade o espaço por um segundo, exceto pelo som da água escorrendo. Estou espantada pelo fato de ele continuar ali; e também envergonhada, estranha. Acontece que faz quase um ano que nenhum homem vê o meu corpo. Desde que… desde que eu e Miller terminamos, mais especificamente. E o fato de ele estar vendo-o agora… faz meu corpo gelar de susto, mas, ao mesmo tempo… causa um frio em minha barriga. Uma adrenalina por imaginar o que pode acontecer. Talvez seja por isso que eu não grite mais, e, quando fale de novo, minha voz não soe nem um pouco convincente. — Sai daqui, Miller. O silêncio volta a reinar. A água continua a escorrer. E ele continua em silêncio, para o meu nervoso e frustração. Então, quando eu menos espero, Nickolas se mexe, lançando um último olhar para o meu corpo exposto, e recua, fechando a porta. Quando o banheiro volta a ficar vazio, sinto uma grande e desconfortável decepção me invadir. M aldito Miller. *** Não vejo mais Nickolas quando saio do banheiro, enrolada na toalha, e caminho até o meu quarto. Troco de roupa rápido, até que, assim que termino de pentear meu cabelo, ouço um som na porta da frente. Vou correndo lá ver, tentando não demonstrar isso, e a primeira coisa que avisto quando chego é Nickolas entrando no apartamento, com uma mochila preta enorme nas costas. — Já de roupa? — debocha ele, conforme cruzo os braços e me encosto na parede mais próxima, enrugando os olhos para sua provocaçãozinha. — Já, Miller. Obrigada por me avisar. Eu nem iria perceber se não fosse por você. Ele revira os olhos, um gesto que eu não vejo há muito tempo, e solta uma risada debochada. — O jeito que você tenta me ofender é fofo. Continua tentando, quem sabe um dia consegue. E pisca pra mim, antes de sumir dentro do outro quarto. Abro a boca, um pouco surpresa. Que ódio. Preciso melhorar minhas maneiras de incomodá-lo. Não quero que ele fique todo orgulhosinho pensando que consegue me atingir quando eu própria não sei fazer o mesmo. Ah, mas, por outro lado, talvez ele esteja apenas blefando pra que eu não perceba que está afetado também. É, faz sentido. Prefiro pensar que é isso. Pela próxima hora, fico debruçada sobre o balcão da cozinha, com uma taça de vinho na mão, enquanto leio o contrato e espero que Nickolas saia logo daquele quarto, pra que assim eu possa dar a ele a explicação mais breve possível sobre isso. Não estou alugando o apartamento sozinha, afinal; e por mais que não queira passar muito tempo perto dele, sei que preciso fazê-lo agora se não quiser toda a responsabilidade jogada sobre mim. — Já tem vinho aqui e eu nem sou avisado? Olho rapidamente para o lado, observando-o se aproximar de mim com as mãos para cima; parecendo surpreso ao fixar o olhar na taça em minhas mãos. — Pra você não, Miller. Sinto muito, mas, pra manter a ordem na casa, cada um compra suas próprias coisas — eu anuncio tranquilamente, recostando-me no banco enquanto finjo estar concentrada na leitura do contrato em minha frente. — Tava te esperando porque preciso que você leia e assine isso aqui. — Ah, qual é, Luane — murmura ele carinhosamente, aproximando-se além do indicado de mim conforme inclina-se sobre o balcão. — Não seja egoísta, vai. Divide um pouco com seu novo colega de quarto. — Talvez, se você ler o contrato e assinar… — eu falo devagar; dando de ombros e bebendo mais um gole do vinho. — Quem sabe, então. Noto seu sorriso se abrir pelo canto do olho, por mais que eu permaneça evitando fazer contato visual. — Então tá. Antes que eu possa reagir, ele já arrancou o papel da minha mão, pegou a caneta e começou a escrever. Fico o observando, espantada, com a taça ainda na mão. — O que você pensa que tá fazendo?! Ele levanta o olhar, dando de ombros inocentemente. — Assinando o contrato, ué. — Nickolas, você nem leu! Ficou maluco? — Esses contratos não tem nada demais, relaxa. É só encheção de linguiça e coisa que a gente já sabe. “Pague o aluguel ou sofrerá as consequências!” — ele imita uma vozinha de mulher, mexendo a cabeça conforme volta a escrever. — Inacreditável. — Observo sua assinatura no papel, sem saber se dou risada ou se choro. — Você é louco, Miller. Quando ele levanta os olhos novamente, aquelas íris verdes de que tanto senti falta totalmente focadas em mim, sinto algo estranho perambular pelo meu estômago. M erda. — Senti falta de te ouvir me chamando de Miller — sussurra ele repentinamente. — Ninguém faz isso como você. Por um segundo, o mundo para. Até o ar parece dar uma estagnada. Espera, oi? Eu esperava ouvir de tudo agora, tudo, menos isso. Parece que uma eternidade de silêncio se passa, com nós dois apenas nos encarando, até que ele solta um suspiro e arrasta o contrato em minha direção. — Pronto, condição cumprida. — Não consigo falar nem fazer nada, apenas ficar aqui parada, enquanto ele pega a taça de vinho da minha mão, seus dedos macios roçando nos meus por um segundo, e toma um grande gole. — Agora é a sua vez de assinar. Pareço demorar trinta anos pra conseguir olhar para o papel em minha frente, engolindo em seco conforme pego a caneta nas mãos e mudo de folha. — Vou… precisar de um tempo pra ler tudo — eu murmuro, ainda sentindo algo de leve no meu coração. — Bom, então acho melhor eu ficar com o vinho — diz ele tranquilamente, forçando meus olhos a permanecerem nas letrinhas minúsculas do contrato conforme ouço-o se afastar, provavelmente indo até o sofá da sala. “É de extrema importância que os aspectos aqui presentes sejam lidos e analisados, minuciosamente, para que não hajam desavenças justiciais e futuros desentendimentos.” É, e lá vamos nós. Será um longo, longo contrato.
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