— Isso não vai dar certo, Anna — eu digo um pouco mais tarde, andando de um lado pro outro no meu quarto. Estou meio desesperada, nervosa. Ouvindo o som da televisão vindo da sala. Sabendo que meu ex está ali, a poucos metros de distância. — Preciso encontrar um lugar novo pra ficar. Tipo, agora.
Ouço a risada de Anna do outro lado da linha, enquanto espero com o celular no ouvido e uma mão na cintura. Excelente amiga a minha…
— O que aconteceu pra você ficar desse jeito? Tô até rindo tentando imaginar.
— Nada! Claro que nada — eu respondo, rápido demais para que ela acredite. — Foi, só… constrangedor. Qualquer mínima coisa fica constrangedor. E ele sabe que a gente ainda tem, sei lá, uma certa química do passado, e usa isso pra me provocar. Ele é horrível.
— Uma certa química, hein? — provoca Anna, caindo na risada de novo quando eu bufo de irritação. — Tá bom, desculpa. Mas isso é normal, mesmo quando se divide um apartamento com o seu ex, né, amiga. Não é lá a coisa mais normal do mundo. Eu só achei que fosse ser tranquilo pra vocês… se tiver mesmo sendo muito difícil, posso te ajudar a achar outra pessoa. É só que…
— É só que o quê? — eu insisto, erguendo as sobrancelhas.
Ouço Anna suspirar antes de voltar a falar.
— É só que… bom, é só que talvez você não esteja sentindo exatamente um desconforto por estar dividindo o apartamento com o seu ex.
Me sento na beirada da cama, confusa e desconfiada com o rumo da conversa.
— O que exatamente você quer dizer?
— Ah, vai, né, Lua. Não finja que não sabe. Eu quero dizer que você e o Nickolas ainda se sentem atraídos um pelo outro. É por isso o desconforto.
Abro a boca, espantada, e solto uma risada irônica.
— Eu não acredito nisso. Você armou pra mim?
— Armei, sim. Seja bem-vinda à sua novela mexicana. Por favor, né, Luane. Falei dele porque era sua única opção, e talvez porque no fundo eu pensasse, sim, que isso fosse bom pra vocês resolverem as coisas. Ficou tudo muito m*l-resolvido, você sabe disso. Mas confesso que eu também tenho minhas próprias desconfianças. Quem não deve não teme, e você parece preocupada demais em ter que dividir um apartamento com ele pra quem tá tão bem-resolvida…
Sabe quando uma pessoa joga algo na sua cara e você não tá pronta pra analisar agora? Então, sou eu neste momento.
Talvez eu esteja atrasada, talvez esteja quebrada, mas a verdade é que ainda não me sinto pronta pra falar sobre o passado e sobre resolver as coisas. Nem um pouco pronta. Se puder, evito isso para sempre.
— Não quero pensar no passado, Anna. E não quero resolver nada. O que passou, passou. Apenas isso — eu digo com firmeza; ficando sombria de repente. M al.
— Tá, tá bom. Mas você sabe que uma hora ou outra vai ter que resolver isso. Tudo bem se não for agora. Caso fique muito r**m, te ajudo a procurar outra pessoa. Mas foi como eu falei: tente esperar as aulas começarem. Aí fica mais fácil. Aguenta mais um pouco, Lua… e dá uma chance pra situação. Você não precisa falar do passado se não quiser. Só tenta lidar com isso melhor.
Fico um tempo em silêncio, assentindo enquanto penso profundamente no que ela disse.
— É, pode ser. Vou tentar organizar as coisas aqui, agora que já assinei o contrato. Tenho que avisar a Silvia. Te ligo depois se surtar de novo. Valeu.
— Por nada, amor. Boa sorte aí. Beijo.
— Beijo — eu sussurro, não muito animada, e desligo.
Fico encarando a tela do celular, agora que a ligação se encerrou. Então fecho os olhos, respirando fundo. Por um instante, as lembranças do passado me invadem.
Penso em Nickolas, nas vezes em que ele costumava me esperar na saída da escola ao lado de sua primeira moto. Ele adorava aquela moto. Exibia-se com ela por onde quer que fosse. E me lembro de sair correndo, todos os dias, assim que a aula acabava. De correr em direção a ele como se não houvesse amanhã.
Engraçado como somos na adolescência. Tão ingênuos, tão inocentes. Pensando que o mundo é um conto de fadas e que tudo vai dar certo no final. Bom, eis a verdade: a vida adulta chega pra te provar o contrário. Porque nada, nada acontece da forma que a gente espera.
E as decepções são as primeiras a chegar.
Não posso me envolver com ele de novo. Não posso. Se fizer isso, estarei vulnerável a passar por todas aquelas coisas novamente. O sofrimento, a dor. As dificuldades de um relacionamento. As dificuldades de um relacionamento com o Nickolas.
Preciso ser firme. Não posso deixar que uma atração, um desejo e o resquício de um sentimento coloquem tudo a perder.
Com certeza não posso.
***
As aulas parecem demorar uma eternidade para começar.
Quatro dias se passaram, e, por mais que eu tente, sinto que não consigo me adaptar. Porque eu sei, que, bem no quarto ao lado, está Miller. E é como se a presença irritante dele me perturbasse mesmo quando tento ficar o dia todo isolada no quarto. Sentindo. Lembrando-me do passado. Sabendo que ele está aqui, pertíssimo.
Essa foi uma tremenda péssima ideia. E o pior, é que essa péssima ideia está me provando que eu realmente posso não ter superado tanto quanto pensei que tinha. Do contrário, não estaria sentindo isso agora. Que raiva… raiva, raiva, raiva! Enquanto o Miller está ali, provavelmente pegando todas, eu ainda sinto o passado me perturbar. A presença dele faz tudo se reacender. Onde eu estava com a cabeça em aceitar isso? O desespero realmente nos faz tomar atitudes estúpidas…
Respiro fundo, apoiada sobre o parapeito da janela, enquanto observo a estrada lá embaixo. Miller saiu hoje, o que me dá passagem livre pra ficar à vontade no apartamento. Por isso, planejo aproveitar o restinho de férias que ainda me resta.
Dou mais uma conferida pra ver se meu ex não está mesmo por perto, saindo tranquila para a cozinha quando tenho a confirmação. É super confortável andar pela casa só de camiseta. Aproveito para fazer uma pipoca de microondas, pulando no sofá poucos minutos depois.
Escolho assistir Sr. e Sra. Smith, um filme que eu particularmente amo, enquanto enfio um punhado de pipocas na boca e trago os joelhos para perto do meu corpo. Logo começa a escurecer, e eu não me incomodo de ser atingida pela escuridão da sala de estar conforme o filme continua. Estou sozinha, afinal.
Solto uma risada baixinha quando o filme chega numa parte interessante, jogando minha cabeça para trás e apoiando-a no encosto confortável do sofá. Estou tão distraída olhando para a telinha e tentando bloquear o som irritante de escapamento de moto vindo da rua que não noto que não estou mais sozinha até que aviste uma sombra parada ao lado da televisão.
Solto um gritinho abafado, abraçando meus joelhos imediatamente conforme sinto meu corpo gelar. E é então que reconheço o rosto do indivíduo.
Solto o ar, com meu coração ainda martelando no peito, conforme fecho os olhos por um segundo e jogo o balde vazio de pipoca em sua direção. O som oco do objeto batendo em alguma coisa me revela que eu errei.
Ouço a risada grave e alta de Nickolas Miller ecoar pelo ar conforme o babaca se aproxima.
— Achou que fosse o quê? O fantasma da ópera? — debocha ele, rindo mais antes de se jogar ao meu lado no sofá. Me encolho de imediato, tentando não fazer contato visual.
— Eu preferia que fosse — eu resmungo, pegando o controle da t.v e aumentando o volume; com a cara mais feia e fechada que consigo fazer enquanto olho para a tela. — Seu babaca. Podia ter me avisado. Tô num momento de privacidade. — Tento descer mais a camiseta, numa tentativa claramente falha de cobrir minhas pernas, enquanto finjo que não estou envergonhada com a situação.
— Tô vendo. Do jeito que cê tá vestida, eu podia até imaginar que tem um cara escondido no armário. — Seu tom de voz é tão relaxado e indiferente que eu sinto vontade de bater nele. Como Miller pode falar de outro cara dessa forma pra mim? Como se fôssemos, sei lá, irmãos no lugar de ex-namorados? Será que ele já superou nosso namoro a esse ponto? Por algum motivo, a ideia me incomoda mais do que ter sido pega desprevenida.
E é assim que eu olho para ele, com certa raiva, tendo minha visão dos fatos alterada imediatamente quando o faço. Pois, ao contrário do que eu pensava, Nickolas não tem uma expressão tão relaxada quanto sua voz demonstrava. Ele está jogado no canto do sofá, com um braço apoiado no braço do móvel, enquanto olha para mim. Mas não apenas para mim. Para o meu corpo. Seu olhar é sério e concentrado, fazendo com que uma onda de adrenalina e surpresa me invadam de súbito ao observar sua atenção. Eu me esqueci de que estou sem sutiã, mas Nickolas já notou. É claro que notou. Vejo seu olhar cair em meus s eios, e então descer para as minhas pernas expostas. Um arrepio me invade.
Minha respiração se acelera um pouco, mas não me importo. Apenas fico aqui, ouvindo a voz de Angelina Jolie ao fundo, enquanto aproveito cada segundo desta cena, deste momento, que eu sei que será único. Que eu sei que, assim que acabar, nós dois fingiremos que jamais aconteceu. Porque é assim que tem que ser. É assim que ex-namorados estão programados para agir.
Entretanto, ainda assim, conforme sinto a adrenalina passear e brincar pela minha barriga e pelo meu corpo, durante um mísero, único e perigoso segundo, eu desejo que não acabe. Eu desejo que possamos ser apenas eu e ele, nos olhando, sentindo essa coisa estranha se acumular pelo ar e por dentro de mim. Eu desejo que dure para sempre.
E é aí que, com um som de tiro vindo da televisão, eu pisco, acordando para a realidade.
Corto o contato visual com Nickolas quando me viro para frente novamente, voltando a abraçar meus joelhos e me espremendo no outro canto do sofá. Sinto seu olhar permanecer em mim por mais um tempo, algo que queima meu corpo e faz meu interior sentir-se repuxado até ele. Maldita atração. Maldito fio-vermelho que escolheu errado.
Nickolas e eu não nascemos pra ficar juntos. Eu sei disso, tenho plena certeza. Podemos até funcionar fisicamente, mas fica apenas por aí. Se eu cair nessa de novo, irei quebrar a promessa que fiz a Luane de um tempo atrás.
E eu não posso, de forma alguma, quebrar essa promessa. Não importa o quanto Miller seja confuso em suas atitudes, não importa o quanto ele aparente indiferença sobre mim em um instante e desejo no outro. Não importa o quanto eu sinta cada maldita partícula de meu corpo ser puxada até o dele; mesmo que tanto tempo tenha se passado. Eu não posso fazer isso de novo. Não comigo, não com ele.
E é com essa certeza que eu prometo me manter com os olhos fixados na tela, em absoluto silêncio, até que o filme termine.
Para o bem de ambos.