Gavião
Vida no crime né mole pô, sou cria da Maré, moro aqui desde que me conheço por gente, papo reto. Entrei no crime com 17 anos, novão mesmo e por opção ainda.
Em casa nunca faltou nada, mas eu sempre via os moleques com roupa de marca, tênis do momento, gastando em bebida. E eu comecei a querer ter – e o dinheiro dos meus pais não era o bastante pra luxar.
Busquei trabalho no asfalto, mas só quem é favelado sabe como sofre discriminação. O mundo não dá as mesmas oportunidades pra quem nasce na comunidade e pra quem nasce em berço de ouro.
Foi quando fui atrás do Th e pedi pra fazer os corre. Comecei lá de baixo mesmo, de fogueteiro até chegar aonde cheguei hoje: gerente geral.
Levei minha mãe enganada por 2 anos ainda, contava a maior mentira. Dizia que trabalhava na pista, ela acreditava. Mas meu pai não era bobo, sabia que tinha algo de errado – quando ele me viu de pistola pela primeira vez me deu maior surra.
Mas é f**a quando tu pega gosto por essa vida. Não vou negar que eu gosto. Tem a adrenalina, dinheiro, as festas, mulheres. E isso me agrada – não o suficiente, mas agrada. E é por isso que eu acho que nasci pro crime.
(...)
Garota folgada, não gosto de abuso pra cima de mim. Ainda mais me tirando de comédia – se não fosse aquele amigo dela eu ia acabar com a graça. Fiquei com dó porque estava nítido na cara dele o medo. Mas isso já me deixou bolado, só que não vai ser uma p*****a maluca a acabar com minha noite.
Brotei no camarote e logo avistei a Marina, ela sorriu pra mim e eu só acenei com a cabeça em sinal de cumprimento.
Meu lance com ela é de anos. Antes mesmo de eu entrar nessa vida. Chegamos até a namorar quando eu tinha 17 anos, durou 1 ano só e acabou – mas até hoje a gente mantém a relação: SÓ sexo e sem sentimento.
Encostei ali e ela logo veio na minha direção, tava com um vestidinho decotado que deixava silicone do peito a mostra. Era pequeno, mas bonito. Proporcional ao corpo dela.
Marina: nem foi lá em casa ontem né? Deixa você cara. – franziu a testa e cruzou os braços reclamando assim que chegou.
Gavião: tava de plantão e fui numa reunião com Th, acabei me enrolando nos horários e não deu.
Marina: hum, vou deixar passar. Posso ficar aqui com você? – apoiou um dos braços no meu ombro.
Gavião: fica aí, só não fica grudada o tempo todo – tu tá ligada que não curto.
Marina: suas marmitas não podem ver né? – debochou. Odiava quando ela fazia isso. Sem motivo.
Gavião: isso mesmo pô – fui sincero, ela fechou a cara – se for pra ficar do meu lado desse jeito, pode ir pra onde tu tava. Tô com paciência não.
Marina: você não faz nem questão que eu fique aqui, nossa Vinicius.
Gavião: você que quis vim, não foi? Então pronto. Só não quero ninguém de cara feia do meu lado, só isso. Tá aqui pra curtir ou não?
Rapidinho ela mudou o humor. Marina é cheia desses dramas porque sabe que eu dou a maior condição pra ela.
Baile tava gostoso, cheio de gente de fora. Várias patricinha, só os rostinhos bonitos. Eu mesmo já não aguento ver as mulheres daqui – tudo já rodou no bonde todo. Sou chato pra mulher, não é qualquer uma que eu pego não. E quando pego, gosto de deixar tudo no oculto, mas não divido também. Sou egoísta mermo.
Tá na essência de homem vagabundo gostar de exclusividade.
R3: meu pitbull de raça – ele chega perto – tá de laço? – bateu no meu ombro rindo. Encarei ele com a camisa pendurada no pescoço, baseado entre a boca.
Gavião: tô ficando maluco ainda não pô – dei risada – meter essa de laço é problema, se liga como Th fica aí – o Th desviou o olhar do celular e me encarou de r**o de olho.
Th: to nem entendendo tu, menor – tô quietinho no meu canto aqui.
Gavião: hoje tu tá escondido, eu que não tô te entendo irmão. Brigou com qual delas?
Th: toma no cu pra lá, gavião – reclamou e eu dei risada – Vai encher saco de outro, filho da p**a.
Quando tô com os de fé é assim mesmo, gestação pura. Agora quando tô com outros, menor, aí eu fico na minha – sou desconfiado pra c*****o e por isso nem dou corda. Th é meu chefe e máximo respeito, mas também tenho a liberdade de trocar um papo maneiro com ele. São muitos anos lado a lado.
Marina tava dançando grudada em mim, chega me sufocar, papo reto. Puxei até o bonde pra fazer a ronda e tomar um ar.
R3: nois taca o p*u em todas putianes. Vai passar, o trenzinho dos traficantes. – cantou levantando o fuzil.
Ele tava na frente puxando a tropa e eu atrás, só marolando e de olho. Passamos na frente do camarote aonde tava aquela folgada do c*****o – olhei feio pra ela e a garota sustentou o olhar e comentou alguma coisa com a Suzana. Abusada pra c*****o ela, vai vendo.
Com certeza ela nem era daqui, caso contrário não teria nem falado daquele jeito comigo. Todo mundo da favela me conhece e me respeita – ninguém bate de frente comigo não, até porque não dou motivo: dou a maior moral pros moradores e respeito todo mundo. Só sou rim quando tem que ser.
R3: aí gavião, menor falou que a tua fiel lá no camarote discutindo. – falou próximo do meu ouvido com a mão no meu ombro.
Marina era f**a p***a, conseguia cortar minha brisa legal. Passava vergonha toda vez. Era sempre a mesma história.
Gavião: vou resolver essa p***a. – falei nervoso – por mim deixava ela ser cobrada. Mas iria sobrar pra mim, porque eu que iria ouvir reclamação. Querendo ou não, era meu vínculo.
Voltei pra trás e deixei a tropa, bati no ombro de alguém – quando vi era a mesma garota. Perseguição já? Ou o destino sendo muito filho da p**a comigo.
– c*****o, de novo, eu hein – ela resmungou franzindo a testa e levantando a sobrancelha preta.
Ignorei ela e fui pro camarote aonde estava. Me bato de frente com a Marina discutindo com uma menina menor que ela.
Gavião: qual foi Marina p***a? – segurei firme o braço dela puxando com força.
Marina: essa garota aqui, tava me olhando e rindo – gritou e eu apertei o braço dela.
– tu tá malucona eu hein, nem te conheço, se manca. Tava rindo mesmo, mas não era de você, estrela de Hollywood – Marina ia pra cima dela e eu só puxei ela pelos cabelos e levei pro canto dali.
Gavião: toda vez a mesma p***a, consegue se por no teu lugar não? Tu vai mete o pé do camarote e vai ficar na pista – se fazer auê por lá tu vai se resolver com quem tiver no plantão, que se f**a – falo contra o rosto dela.
Marina: eu não acredito Vinicius, tu tá me mandando descer? A garota tirando onda comigo e eu tô errada?
Gavião: tô – e se não for por bem, vai por m*l. – aponteio dedo e dei as costas pra ela – tá avisada.
Por essa e outras que ela não ta comigo hoje: não tem postura pra nada, vai virar fiel como? Não da pô. Só vi ela saindo do camarote sozinha chorando e dei as costas.
A morena que me esbarrou vira e mexe me olhava, e eu só encarava de r**o de olho. Tava nem entendendo qual a dela comigo. Mas deixa ela pensar que tá passando batido, só deixa pô. Melhor hora eu cato ela na curva.