O exílio de Anne

1266 Palavras
Aprendeu aquilo como o pai, desde que nasceu ouvia Sombra dizendo que a única maneira honrosa de se morrer, era quando se fazia isso por outra pessoa. Anne nunca pensou em se casar em um contrato, muito menos com um monstro capaz de desejar a sua irmãzinha como esposa, já tinha visto casamentos darem muito errado. Nem sempre os arranjos são bonitos. Mesmo assim se sentiu feliz, por um breve instante, os olhos da menina brilharam. Estava fazendo algo realmente importante. Iria evitar que Betty vivesse aquele inferno, outra vez. Digo outra vez, porque nem todos os orfanatos são lares bonitos e abrigos cuidadosos. O lugar em que os pais de Anne encontraram Betty não passava de uma fachada para a doença de alguns homens e a menininha viveu aquilo tão de perto que quando chegou em casa, não conseguiu nem sequer confiar. A voz do chefe da máfia soou forte como sempre, mas quem o conhecia sabia, ele estava perdido. — CHEGA! A FESTA ACABOU. DEPOIS ACERTAMOS OS TERMOS DESSE CASAMENTO. E quem melhor para reconhecer a voz de alguém, se não a irmã. Anne perdeu o posto de caçulinha da família Foster quando Bethanny chegou. Chegou a sentir ciúmes quando Endi começou a se aproximar da garotinha. Betty era linda! Os olhos claros, não tão claros quanto os de Anne que pareciam de vidro, os da menina eram em um tom quase celestial. Os cabelos tinham aquelas curvas indefinidas e o tom dourado parecia ter saído de um conto de fadas. Mas não foi a beleza de Bethanny que chamou atenção do chefe da máfia, foi a personalidade da nova irmãzinha. E nos primeiros dias, Anne deixou de ser a garotinha dos olhos de Endi. Ficou brava quando o capo levou um chocolate para que as duas dividissem. Não queria dividir mais nada com ela, achava que a garotinha já estava roubando coisas demais que antes eram dela. Durou apenas alguns dias, porque Betty roubou o coração dela em uma noite fria. Anne estava deitada, o nariz colado na parede como sempre fazia e então sentiu a coberta se mexendo. A garotinha se enfiou embaixo dos edredons, colocou a mãozinha gelada no rosto da nova irmã e perguntou com a voz fraca de quem está morrendo de medo. — Vou dormir aqui para ninguém te fazer m*l, tá? Depois daquela noite, ao invés de competir com a irmã, Anne escolheu amar a garotinha e a amava tanto que realmente parecia que eram irmãs de sangue. Mas foi durante aquela festa, quando escolheu tomar o lugar da menina que Anne entendeu as falas do pai. A vida e a morte só valem a pena se forem por outra pessoa, um homem sozinho não é mais do que um saco de sangue e ossos que anda. Se afastou de todos, voltou para casa, não precisava explicar suas decisões, era adulta e sair debaixo da proteção dos pais parecia a única coisa capaz de fazê-la crescer. Estava sentada olhando para uma parte específica da mata, um caminho que só ela fazia, que conhecia como ninguém. O lugar deles. Não faziam amor no meio do mato, Noah jamais faria algo assim, ele sabia mais dela do que a própria Anne. Sorriu quando se lembrou de uma vez em que se encontraram perto da cerca e o rapaz colocou um pedaço de chocolate na boca dela, assim, antes do beijo. — Vem, deixei mais no carro. — Chocolate? — Isso, o seu ciclo está próximo, vai ficar com aquela carinha de choro que eu amo. Comprei o seu remédio também. Vem. Noah colocou a mão na cerca para que ela não se ferisse, foram para o carro. Ele entregou uma garrafa de água mineral gelada e estendeu a mão com o comprimido. Estava sonhando com dias como aquele, com os passeios no cinema, o jeito como faziam amor, a sensação de ter ele encaixado nela daquela forma que a fazia gritar e implorar por mais quando de repente a presença do irmão mais velho a fez voltar para a realidade. Endi não queria aquele casamento, ela sabia que não. Conversaram por um tempo e de repente, como se algo tivesse mudado dentro do capo ele apenas aceitou. — Vai ter o que está me pedindo, Anne. O que ela não sabia é que naquele mesmo dia seria colocada pelo pai dentro de um avião e enviada para um país distante juntos com Dállia e Tank. Os dois tinham acabado de se casar e de repente, na viagem de lua de mel, lá estava Anne se tornando, outra vez, um peso. Chegaram a um lugar com praias lindas e um povo tão hospitaleiro que por alguns instantes ela se esqueceu dos problemas, colocou as coisas no quarto, deu risada pela decoração exageradamente infantil. Segurou uma boneca, passou a mão no brinquedo e depois jogou sobre a cama. — Não gosto disso desde os quinze. Anne era mais velha do que a noiva que estava deslumbrada com tudo ao seu redor, ainda assim, era tratada como se fosse só uma criança perdida. Tomou um banho, ficou embaixo da água acariciando o próprio corpo, os olhos fechados, a mente em Noah. Na voz dele quando a chamava de corujinha, no jeito como arrumava o travesseiro no banco do carro para que ela não ficasse desconfortável. — Não precisa disso, já disse. — Precisa, você sente dor nas costas. E só quem pode te deixar dolorida sou eu. Noah sempre falava a mesma coisa. Anne tinha caído das escadas da casa em que morava com os pais há alguns anos, desde então, todas às vezes em que se sentava no carro sentia aquele incômodo estranho. No período menstrual piorava, mas Noah sabia e cuidava até do que ela fingia esquecer. Saiu do banho ainda pensando nele, não tinham se falado depois da confusão no casamento, aliás tudo tinha acontecido tão rápido. Sombra começou a gritar, o noivo sacou uma arma, alguns mexicanos que estavam com o chefe do cartel que exigia a mão de Betty também puxaram revolveres. E o mais estranho, em meio a confusão, Lis, a mãe de Noah, uma pessoa que deveria estar com eles e não contra eles, havia desmaiado o próprio filho e o puxado para longe segurando o rapaz por baixo dos braços. Ela se assustou, mas aproveitou a oportunidade para falar o que sentia que devia a irmã. Agora se sentia completamente perdida, o pai havia destruído o seu celular antes que saíssem do Texas. Era sobre segurança, ela sabia. Aparelhos celulares são uma fonte inesgotável de perigo, apesar disso, tudo o que ela pensou foi que sua única chance de falar com Noah tinha sido despedaçada junto com o seu telefone. Desceu para a área comum do resort, se sentou afastada dos noivos, não eram amigos e não existia nenhuma razão para atrapalhar ainda mais a lua de mel. Mas enquanto olhava para o mar, um rapaz se aproximou. Ele era alto, não tanto quanto Noah, mas também era bonito, pensou que podia ser bom ter alguém para conversar. — Sozinha em um lugar como esse? Está esperando alguém, ou posso me sentar com você? Ela respondeu em português, conhecia o idioma, apesar de morar no Texas havia nascido no Brasil. — Ninguém vai chegar. — Ótimo, porque desde que eu te vi sentar aí eu quis te perguntar uma coisa. Ela olhou curiosa para o rapaz. — O quê? — Como você conseguiu entrar nos meus sonhos. Porque ontem eu sonhei que estava beijando a sua boca. Que acha de tornar meu sonho realidade?
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